sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Batman e Batman - O Retorno


Não venho lidando bem com a passagem do tempo. Apesar de ainda jovem, sofro com a aproximação dos 30 anos, com a constatação de que a vida adulta chegou para ficar e de que o deixar de existir um dia pode ser, na verdade, qualquer dia. Muito por isso, imagens dos anos 90, a década em que cresci, têm mexido profundamente comigo. Bate saudade de ser criança, de ter uma vida inteira pela frente. Bate saudade das coisas que me empolgavam há 20 e poucos anos. Uma delas, parte importante das memórias que carrego dessa época, é a paixão pelos filmes da franquia Batman, sobretudo os dois primeiros, dirigidos por Tim Burton.

De Batman (lançado nos cinemas em 1989, mas que só fui assistir mesmo pelos idos de 1992, na TV Globo), guardo a longínqua lembrança da imagem de uma revista (não sei se era a capa) que me impressionara bastante, pois trazia o rosto ferido do herói mascarado. Batman sangrava e eu, provavelmente com uns 3 anos de idade, me angustiava com o horror daquela cena. Quando o filme finalmente foi exibido na TV, torci pelo homem-morcego, apesar de fascinado pelo Coringa de Jack Nicholson, e não entendi porque Bruce Wayne e Vicki Vale não ficavam juntos no final. Empolgado para a continuação que estreava nos cinemas, dei vexame na entrada do finado Cine Excelsior, em Juiz de Fora, ao me recusar a entrar na sala com medo do Pinguim interpretado por Danny DeVito em Batman – O Retorno, cujas imagens eram reproduzidas incessantemente numa pequena televisão ao lado da bilheteria. Também o segundo filme foi assistido apenas em casa, provavelmente num VHS dublado alugado numa locadora vizinha. Acho que foi nessa mesma locadora, aliás, que consegui um exemplar do belo pôster do filme, que preguei na parede do meu quarto (não durou muito, creio). Lembro também de uma matéria sobre Batman – O Retorno exibida no semanário Fantástico, também na Globo, que trazia a cena em que Mulher-Gato destrói uma loja de departamentos com seu chicote, sob os olhares de dois atônitos policiais.

Fragmentos de imagens que remetem a um tempo com o qual lido, hoje, nostalgicamente. Reconhecendo isso, temia que Batman e Batman – O Retorno, revisitados, se revelassem como tolices, sobretudo diante de encarnações mais sérias do herói no cinema, como a recente trilogia dirigida por Christopher Nolan. Engano meu, felizmente. Ainda impressiona como Burton, que em 1989 tinha apenas 30 anos de idade e As Aventuras de Pee-Wee e Beetlejuice no currículo, consegue criar um universo de forte identidade visual, expressivo, expressionista. Sua Gotham City remete a Metrópolis, de Fritz Lang, e, em O Retorno, o diretor escancara essa influência do cinema alemão dos anos 20 ao dar a um de seus personagens, que é na verdade o grande vilão da história, o nome de Max Schreck (protagonista do Nosferatu de Murnau). Nesse segundo filme, aliás, Burton parece ter maior controle sobre os elementos que compõem o universo esboçado em Batman, inclusive sobre algumas características estéticas que seriam definidoras de sua carreira: na estilização gótica do visual, que vai além da emulação dos filmes de gângster da década de 30 presente no primeiro filme, na música cheia de coros melancólicos e aterradores e no tema da rejeição do diferente, há ecos de Edward Mãos-de-Tesoura em Batman – O Retorno – não à toa, ambas as obras se tornariam referências do que pode ser chamado de estilo burtoniano. O diretor também se permite alguns voos mais arriscados, como ao optar por uma versão grotesca e repugnante do vilão Pinguim, nas muitas insinuações sexuais e na crítica ao mundo da política. O filme tem alguns pequenos problemas de roteiro, sobretudo envolvendo a cronologia de certos eventos, mas a trama é complexa e os personagens densos, sem nunca apelarem para um realismo que não caberia na Gotham ao mesmo tempo farsesca e trágica de Burton.

Batman é mais simples em sua concepção e realização, mas continua um grande filme de ação, envolvente e empolgante, e com Jack Nicholson alucinado em cena, devorando tudo ao seu redor. Tim Burton é muito competente na tarefa de estabelecer seu protagonista como um ícone, mito grandioso que vaga pela noite de uma cidade extremamente violenta, assombrando criminosos. Não interessa ao diretor, como interessaria a Nolan em Batman Begins, explicar os mecanismos da criação do mito (Nolan adora explicar tudo, afinal): a figura do homem-morcego é, por si só, mítica, e a câmera de Burton, com seus contra-plongées expressivos e ângulos inclinados, tem papel central para que acreditemos nisso. No entanto, é interessante como, ao mesmo tempo, o filme consegue estabelecer Bruce Wayne como um personagem trágico: a morte dos pais na infância parece ter gerado um homem apático, estranho, um tanto alheio ao mundo que o cerca. Michael Keaton, mullet à parte, surge perfeito no papel, discreto, evitando exageros e contribuindo, com seu físico a princípio nada condizente com uma figura heroica como o Batman, para a construção desse protagonista atípico.

Batman e Batman – O Retorno sobreviveram, portanto, ao teste do tempo, suas qualidades extrapolam qualquer memória afetiva. São grandes filmes, talvez até maiores que os da celebrada trilogia de Christopher Nolan. Tim Burton, antes de virar uma caricatura de si próprio, já foi um ótimo diretor. Está aí mais um motivo para sentir saudades dos anos 90. 


Batman 
Batman, 1989
Tim Burton

Batman - O Retorno 
Batman Returns, 1992
Tim Burton

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Que Horas Ela Volta?


Entre as marcas profundas que a escravidão deixou na sociedade brasileira, está a crença numa certa cordialidade das relações sociais, sobretudo no trabalho doméstico, espaço em que muitas vezes se reproduz a velha lógica da casa grande e da senzala. A figura da empregada doméstica, tão comum em nosso país, ganha, com o tempo, a confiança de seus patrões, se torna “da família”, mas sem nunca ultrapassar os limites de seu quartinho de fundos, sem nunca deixar de reconhecer o lugar imutável que ocupa nessa relação. O pacto silencioso diz que ela é inferior, é subalterna, mas sem precisar realmente proferir essas palavras.

Esse é o tema de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Val, personagem de Regina Casé, é dessas figuras que vivem há anos na casa de seus empregadores, pelos quais nutre respeito quase servil, ao mesmo tempo que explode em afeto pelo filho deles, de quem sempre foi uma espécie de segunda mãe. É pelo olhar de Val que conhecemos esse universo: o que se vê, num primeiro momento, é a rotina pesada enfrentada pela empregada, mas à qual ela parece perfeitamente adaptada e da qual não reclama, e um carinho muito grande no trato com o personagem de Michel Joelsas, o jovem “patrãozinho”. Apesar da distância social, Val e Fabinho de fato se amam e Muylaert jamais duvida disso.

Mas, enquanto os recentes e igualmente excelentes O Som ao Redor e Casa Grande também diagnosticavam essa permanência de relações, afetivas e de poder, arcaicas no Brasil contemporâneo, interessa à diretora de Que Horas Ela Volta? as mudanças que vêm ganhando terreno no país na última década. Entra em cena Jéssica, filha de Val, mas filha também da “Era PT”, de um momento de expansão do consumo e das oportunidades para os mais pobres, e, consequentemente, de contestação do status quo das relações entre empregados e patrões. Enquanto Val migrou para São Paulo, há mais de dez anos, para trabalhar, Jéssica vai prestar vestibular na maior cidade do país, correr atrás do sonho de ser arquiteta e ascender socialmente. Ela já não aceita o lugar que lhe foi reservado pelos “de cima”, não adere ao pacto silencioso que lhe diz até onde pode ir.

Instalado o conflito, Muylaert claramente escolhe o lado desse “novo Brasil”, mas sem precisar, para isso, berrar “Revolução!” e “abaixo a burguesia!” a cada plano. Discreta e delicada, a diretora demonstra imensa preocupação com o desenvolvimento dos personagens, conseguindo levá-los, durante quase toda a narrativa, além dos estereótipos sociais aos quais estão ligados. O único momento em que isso não acontece é quando Muylaert exagera na postura de escárnio dos patrões diante da revelação dos planos de Jéssica de cursar arquitetura na USP. Ao optar por enquadramentos fechados, muito próximos dos rostos dos personagens, a diretora quase distorce aquelas figuras, transformando-as, ainda que por momento brevíssimo, em monstros. Algo parecido, aliás, acontece em Casa Grande, numa cena em que se discute a entrada nas universidades por cotas raciais e um rápido movimento de câmera quebra a seriedade do momento para ridicularizar o elitismo de determinado personagem. Se nos dois casos essas escolhas estéticas parecem pouco apropriadas diante da sobriedade adotada até ali por Muylaert e Filipe Barbosa (diretor de Casa Grande), é preciso dizer também que elas são detalhes irrisórios se colocadas ao lado dos ataques histéricos que essas mesmas elites criticadas nos dois filmes vêm proferindo contra as classes populares, sobretudo nos últimos anos, período coincidente exatamente com essa “Era PT” (ataques que vão da proibição dos “rolêzinhos” em shopping centers de bairros “nobres” ao recente texto criticando os baixos preços dos ingressos de cinema, que levariam a uma “má frequentação” desses espaços, passando, claro, pelos frequentes comentários maldosos sobre programas sociais como as cotas raciais e o Bolsa Família). 

Politicamente lindo, sobretudo por representar uma resposta contundente (talvez até mais que O Som ao Redor e Casa Grande) aos que resistem à mudança, Que Horas Ela Volta? quase me levou às lágrimas, ao final, também pelo desenvolvimento cuidadoso do drama de seus personagens, da relação de gradual aproximação entre mãe e filha. Muitos falam de Central do Brasil, até pela possibilidade de indicações ao Oscar, mas em sua mistura de luta de classes e afetos familiares, foi da obra-prima Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman, que o filme de Muylaert me fez lembrar. Está em boníssima companhia, portanto.

Que Horas Ela Volta? 
Anna Muylaert 
2015

sábado, 15 de agosto de 2015

Quarteto Fantástico




Há um grande filme escondido nesse novo Quarteto Fantástico. Na verdade, nem tão escondido assim, já que sua ótima primeira metade denuncia os acertos do diretor Josh Trank no olhar que lançou para o universo dessa família de super-heróis. Está ali uma bem-vinda seriedade, que destoa imensamente do humor tolo dos filmes de Tim Story sem perder de vista a empolgação e o frescor próprios da juventude de seus protagonistas. Está ali um certo cuidado no desenvolvimento dos personagens, que consegue extrapolar estereótipos – Victor von Doom, por exemplo, é apresentado como um jovem problemático e de temperamento difícil, mas, ainda assim, apenas um jovem, que também experimenta situações divertidas com seus colegas de pesquisa e futuros antagonistas – e construir relações verossímeis. Trank investe bastante tempo nisso, adiando ao máximo a introdução do elemento fantástico em seu filme, e o resultado é positivo: o espectador se aproxima dos personagens, compreende minimamente suas motivações, se interessa por seus destinos, ainda que nenhum dos atores esteja além do correto (o que não deixa de ser um desperdício, considerando o talento de gente como Miles Teller, Michael B. Jordan e Jamie Bell).

Daí vem a também muito boa sequência da viagem interdimensional e do acidente, seguida da descoberta, pelos personagens, dos poderes que agora possuem. Trank também faz isso bem (afinal, ele tem um filme só sobre adolescentes lidando com poderes recém-adquiridos), exprimindo com competência a dor física experimentada por Reed Richards, Johnny Storm e Ben Grimm. Mas, infelizmente, o que vem na sequência carrega Quarteto Fantástico ladeira abaixo. Se sobrou tempo de tela para a dinâmica inicial entre os personagens, faltou muito para o uso militar de Ben e Johnny e para a fuga pelo mundo de Reed – passagens com potencial para gerar conflitos interessantes, mas que no filme de Trank aparecem como clipes rápidos e desimportantes. O mesmo vale para o retorno de Doom e seu confronto com os heróis: tudo é apressado demais, as motivações do vilão não ganham o devido destaque e ele é descartado sem maior cerimônia. O diretor afirmou que houve forte interferência do estúdio e que seu filme era outro – algo não muito difícil de acreditar, considerando o histórico da Fox (Demolidor, os dois Quarteto Fantástico anteriores). Ficará restrito à imaginação um Quarteto Fantástico com duas horas e meia de duração, com Richards vivendo experiências inusitadas enquanto aprende a controlar seus poderes em diferentes partes do planeta e com Grimm e Storm vivendo os conflitos de colocar seus dons à serviço do big stick americano. Uma ficção científica séria, mas protagonizada por adolescentes, como imaginou Trank, e talvez dirigida por alguém com mais poder sobre seus filmes e igualmente identificado com o gênero... um Christopher Nolan, quem sabe... Aliás, ter Nolan à frente de um Quarteto Fantástico não é mesmo uma má ideia, por mais irrealizável que ela pareça ser.    

De qualquer forma, esse novo filme dos heróis não é tão ruim quanto se vem apregoando por aí, mesmo com todos seus problemas. É um tanto curioso, aliás, ver um bocado de fãs dos estúdios Marvel detonando o trabalho de Trank. O que o diretor fez aqui não destoa muito dos Homens de Ferro e afins que tantos idolatram hoje em dia. Neles também encontramos narrativas apressadas (Capitão América: O Primeiro Vingador, alguém?), pouco cuidado com os vilões (alguém se lembra de como Caveira Vermelha, Monge de Ferro e Whiplash foram sumariamente descartados, no primeiro Capitão América e nos dois primeiros Homem de Ferro, respectivamente?) e subaproveitamento de tramas interessantes. Ao menos o novo Quarteto Fantástico é um filme inteiro, com começo, meio e fim, e não um pedaço de um quebra-cabeças supostamente genial que nunca se completa. Mas... é melhor não discutir com marveletes, certo?  


Quarteto Fantástico 
Fantastic Four, 2015
Josh Trank

sábado, 18 de julho de 2015

Corrente do Mal



Lá no primeiro filme da franquia Pânico, o personagem de Jamie Kennedy listou as regras dos filmes de terror slasher, dentre as quais estava o veto absoluto ao sexo. No mundo de Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Halloween e congêneres, funciona a lógica do “transou, morreu”. Corrente do Mal, em certa medida, é a radicalização dessa premissa, já que os personagens do filme de David Robert Mitchell têm que lidar com uma maldição fatal transmitida pelo sexo. Moralismo tacanho? Metáfora da AIDS?

Pouco importa, na verdade. Importa mais a capacidade impressionante desse jovem diretor de criar climas. Corrente do Mal já começa macabro, numa cena assustadora num subúrbio americano que chega a ser bela de tão bem filmada: um único plano, uma câmera panorâmica que esquadrinha aquele bairro e capta a fuga desesperada de uma jovem – do quê, não sabemos. Tanto essa estranheza, a sensação de que há algo de anormal acontecendo, quanto o estilo visual apurado predominam no restante da narrativa. Corrente do Mal faz uso cuidadoso do espaço da cena, apostando muito mais na mise-en-scène que no excesso de cortes e sustos tão comum no cinema de horror contemporâneo. Também ajudam na construção do clima pesado do filme uma imagem frequentemente enfumaçada, que talvez aponte para a natureza onírica daquilo tudo (os personagens estariam apenas experimentando um terrível pesadelo?) e a trilha sonora cheia de sintetizadores, que remete diretamente às músicas de John Carpenter.  

Carpenter, aliás, parece ser uma importante referência para Mitchell em Corrente do Mal, e não só pelo uso da trilha sonora. A forma como o terror absoluto se instala num subúrbio aparentemente tranquilo lembra muito Halloween, assim como é difícil não pensar na obra-prima Enigma de Outro Mundo diante de um inimigo construído sobre a ideia de contaminação e que assume as mais diversas formas humanas. Mas Mitchell foi além de simplesmente ter Carpenter no horizonte: ele fez um filme com personalidade própria, maduro, apavorante e aberto a interpretações, digno dos melhores momentos de seu velho mestre no cinema de horror.

Corrente do Mal 
It Follows, 2014
David Robert Mitchell

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Exterminador do Futuro: Gênesis



Que melhor maneira de recuperar uma desgastada franquia de ficção-científica do que dando um reboot por meio de viagens no tempo? Isso foi feito brilhantemente por J.J. Abrams em Star Trek e, felizmente, o universo de O Exterminador do Futuro também permite o uso desse artifício. Mas, infelizmente, o diretor Alan Taylor, que, claro, está longe do talento de James Cameron, tampouco consegue chegar aos pés de Abrams. Ele faz de Gênesis apenas um filme de ação genérico, apressado, cheio de clichês e com atores que não mereciam ocupar o lugar de gente como Linda Hamilton, Michael Biehn, Edward Furlong, Nick Stahl, Christian Bale e Anton Yelchin.

Na verdade, é até injustiça citar Furlong, Stahl e Bale, ex-intérpretes de John Connor, já que Jason Clarke, responsável pelo personagem nesse novo filme, é um ator bem interessante. E Emilia Clarke também não é exatamente um desastre no papel imortalizado por Hamilton (o que não significa que ela dê conta de segurar uma figura tão icônica quanto Sarah Connor). O problema maior no elenco de Gênesis se chama Jai Courtney, canastrão bombado que faz Michael Biehn (que viveu Kyle Reese no Exterminador do Futuro original) parecer Daniel Day-Lewis. E o pior é que Courtney está presente em praticamente todos os minutos do filme, quase sugando para seu buraco negro particular de falta de talento aqueles que o cercam, inclusive Emilia e Jason. Falo em “quase” porque também está em cena, ainda que por menos tempo que Courtney, Arnold Schwarzenegger, outro ator inexpressivo, mas que sabe como poucos usar essa característica a seu favor. Shwarzenegger é o respiro desse 5º Terminator, com seu carisma irresistível que por pouco não torna O Exterminador do Futuro: Gênesis perdoável.

Isso não acontece porque os problemas do filme vão além do casting. O roteiro, por exemplo, tem furos gigantescos, tanto na cronologia da série (era para ignorar o 3º e o 4º filmes ou perdi algo?) quanto nas regras criadas pelo próprio Gênesis (a ida para 2017, pulando um evento fundamental de 1984, não inviabilizaria inclusive a existência de determinado personagem?), e ainda aposta numa boba dinâmica de comédia romântica entre Reese e Sarah Connor (eles brigam, mas se amam), que serve apenas para torná-los personagens ainda mais infantis e irritantes (o que estavam longe de ser no filme original).

Por fim, há a direção qualquer coisa de Taylor, que não se esforça nem para ser medíocre e emular James Cameron (a não ser no primeiro terço do filme, quando a cópia do primeiro Terminator era uma necessidade imposta pelo próprio roteiro). O Exterminador do Futuro: Gênesis é só mais um filme de ação cheio de perseguições e explosões clean, criadas por um indisfarçável CGI. Em tempos de Mad Max: Estrada da Fúria, fica feio fazer isso.

E ainda há quem não entenda o apego de Cameron ao universo que construiu em Avatar...


O Exterminador do Futuro: Gênesis 
Terminator Genysis, 2015
Alan Taylor

domingo, 21 de junho de 2015

De Cabeça Erguida



Num momento em que o Brasil finge discutir a questão da criminalidade juvenil, a partir da polêmica em torno da redução da maioridade penal, que mobiliza extremos em torno de argumentos nem sempre inteligentes (os que são contra, repetem o jargão da “educação como solução”, em certa medida não reconhecendo que o problema que se coloca vai além de uma visão utópica de sociedade; aqueles a favor, se agarram ao estúpido “tá com pena, leva pra casa!”, que revela a incapacidade dessas pessoas de lançar um olhar mais problematizador para o mundo), é muito bom ver um filme como De Cabeça Erguida.

Ao acompanhar a trajetória conturbada de seu protagonista, Malony (o intenso Rod Paradot), a diretora Emmanuelle Bercot deixa claro acreditar na capacidade de recuperação de jovens criminosos a partir de um esforço constante de reeducação promovido pelo Estado. Bercot não busca soar imparcial, portanto. Ela se posiciona. No entanto, em nenhum momento a diretora deixa de tratar o tema com a seriedade e complexidade necessárias. Ela não amansa a figura de Malony, para torná-la mais palatável e ganhar a simpatia do espectador: o personagem é difícil, violento, agressivo, às vezes beira o insuportável; muitos de seus atos são reprováveis, ainda que de fato pudessem gerar consequências mais graves (o acidente de carro que provoca não deixa nenhuma vítima fatal, a agressão a uma mulher grávida não faz com que ela perca o bebê). Mas, como a juíza interpretada por Catherine Deneuve com a nobreza que lhe é característica, Bercot e seu filme persistem acreditando na possibilidade de recuperação do jovem, mesmo que fraquejando em muitos momentos e esboçando desistir dele.

Pois não há caminhos fáceis para solucionar problemas complexos, parece dizer De Cabeça Erguida. Nesse sentido, o filme faz lembrar o também francês Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, que falava, com igual misto de dureza e delicadeza, das relações tensas entre alunos e professores no espaço escolar contemporâneo, outra questão que aflige a muitos e para a qual vez ou outra surgem panaceias estúpidas (e geralmente conservadoras). Na estética sóbria e na representação visceral e apaixonada, mas nunca simplista, das vulnerabilidades da juventude, ambos os filmes remetem ao cinema dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (especialmente A Criança e O Garoto da Bicicleta). Mas há uma postura política em De Cabeça Erguida e Entre os Muros da Escola, de crença quase inabalável no poder das instituições republicanas, que talvez seja particularmente francesa. É como se Bercot e Cantet dissessem, com seus filmes, que, apesar dos muitos problemas, é papel do agente público nunca desistir de um vulnerável em apuros. Se for preciso, vale até “levar pra casa”.

De Cabeça Erguida 
La Tête Haute, 2015
Emmanuelle Bercot

domingo, 31 de maio de 2015

Clint 85.



Poucos discordariam que Clint Eastwood é um dos grandes diretores americanos dos últimos 50 anos. Vencedor de 4 Oscar, selecionado algumas vezes para Cannes (onde é reconhecido como um importante autor), profissional respeitado que já comandou um punhado de grandes atores, como Sean Penn, Morgan Freeman, Meryl Streep, William Holden, Gene Hackman, Leonardo DiCaprio, Tommy Lee Jones, Ed Harris, Kevin Bacon, Tim Robbins, Hilary Swank, Kevin Spacey, Matt Damon, Richard Harris, Forest Whitaker... No entanto, olhando sua carreira retrospectivamente, não deixa de ser surpreendente que ele tenha chegado nesse ponto.

O sucesso de Eastwood começou na TV, com o popular seriado Rawhide (1959-1965); depois vieram os westerns spaghetti, produções baratas de um diretor italiano então desconhecido (um tal Sergio Leone) que, extremamente bem-sucedidas financeiramente, não foram imediatamente abraçadas pela crítica; em seguida, o cinema de ação, do qual virou astro sobretudo com a franquia Dirty Harry (1971-1988). Talvez não fosse de se imaginar que daí nasceria um auteur. Mas ao decidir fundar sua própria companhia ainda no final da década de 1960 (a Malpaso) e começar a dirigir filmes em 1971, com o ótimo Perversa Paixão, Eastwood deixou claro que não estava acomodado na posição de astro que conquistara. Ele queria fazer o seu cinema. Cinema que, construído ao longo dos últimos 40 anos, ainda que inevitavelmente tenha trafegado pelos gêneros nos quais Clint, o ator, se consagrara (há em sua filmografia como diretor quatro westerns e um bom número de filmes de ação), jamais ficou parado num mesmo lugar.

Nesse sentido, seu maior feito como diretor foi a desconstrução do próprio mito, naqueles que provavelmente são os alicerces inabaláveis de sua filmografia: Os Imperdoáveis, ocaso sombrio do western, e Gran Torino, suspiro derradeiro do herói de ação individualista, machão e xenófobo, símbolo de uma Velha América que não mais se sustenta de pé (e tão bem sintetizada no Harry Calahan que Clint viveu em 5 filmes). Mas também houve surpresa com a delicadeza de As Pontes de Madison e Menina de Ouro, bem como com a opção de um velho diretor republicano por contar a história da tomada de Iwo Jima na Segunda Guerra também pelo ponto de vista japonês, no belo Cartas de Iwo Jima. Esses são filmes que, ao lado de Sobre Meninos e Lobos, formam uma espécie de cânone do cinema de Eastwood, marcos de uma fase, iniciada na década de 1990, de reconhecimento de sua obra. Filmes que permitem que Eastwood seja visto hoje como mais do que um velho astro do western e da ação, mesmo que essa imagem estereotipada perdure de alguma maneira no senso comum, como ficou claro nos debates travados recentemente sobre Sniper Americano.    

Todas as tolices ditas sobre o último filme do diretor, aliás, talvez apontem para o quanto seu cinema ainda precisa ser realmente descoberto. Quantos dos que se surpreenderam, por exemplo, com a delicadeza demonstrada por Eastwood em As Pontes de Madison já haviam assistido ao igualmente delicado Interlúdio de Amor (1973), apenas sua terceira experiência na direção de longas? Quantos conhecem as obras-primas esquecidas Coração de Caçador e Honkytonk Man, os subestimados Um Mundo Perfeito e Jersey Boys, ou as tantas preciosidades do western (O Estranho sem Nome, Josey Wales, O Cavaleiro Solitário) e do cinema de ação e/ou policial (Escalado para Morrer, Rota Suicida, Impacto Fulminante) que ele realizou? É preciso ir além do cânone, portanto, ainda que se trate de um baita cânone!

Realizar esse movimento de descoberta é tomar contato com um cinema rico, cheio de nuances, e, novamente, com um potencial aparentemente inesgotável para surpreender pela novidade. Basta lembrar que, no último ano, Eastwood, aos 84, lançou um musical (seu primeiro) cheio de energia e um drama de guerra que, além de mobilizar e polarizar a opinião pública, alcançou resultados de bilheteria dignos de um blockbuster. O diretor não estava brincando ao soltar um “I’m just a kid!” no Oscar 2005, que consagrou seu Menina de Ouro. No dia em que esse eterno jovem completa oito décadas e meia de vida, fica a quase certeza (quem dera pudéssemos ter alguma certeza absoluta nesse sentido) de que ele ainda estará conosco por um bom tempo. Sempre inquieto, nunca acomodado, realizando filmes que provavelmente tornarão ainda mais hercúleo o esforço daqueles que, como eu, tentam escolher os melhores de uma brilhante carreira.


10- As Pontes de Madison (1995)/ Josey Wales – O Fora da Lei (1976)



9- Um Mundo Perfeito (1993)



8- Honkytonk Man - A Última Canção (1982)



7- Cartas de Iwo Jima (2006)



6- Coração de Caçador (1990)


5- Menina de Ouro (2004)



4- Sniper Americano (2014)


3- Sobre Meninos e Lobos (2003)


2- Gran Torino (2008)


1- Os Imperdoáveis (1992)