sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Os piores filmes de 2016


O cinema de certa forma salvou esse ano horroroso que foi 2016. Mas, em meio a muitas estreias boas no Brasil, alguns filmes bem ruins também ocuparam nossas salas. Não foram tantos, ou, ao menos, não vi tantos (pulei todas as comédias globais, por exemplo, que provavelmente serão lembradas negativamente por muitos nesse fim de ano). Dos que vi, esses são os 10 piores: 


10- É Apenas o Fim do Mundo, de Xavier Dolan


9- O Conto dos Contos, de Matteo Garrone


8- Mais Forte que o Mundo, de Afonso Poyart


7- Nerve: Um Jogo sem Regras, de Henry Joost e Ariel Schulman


6- Joy: O Nome do Sucesso, de David O. Russell


5- Pequeno Segredo, de David Schurmann


4- Um Homem Entre Gigantes, de Peter Landesman


3- Independence Day: Ressurgimento, de Roland Emmerich


2- Esquadrão Suicida, de David Ayer


1- A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Animais Noturnos



Animais Noturnos, segunda experiência do famoso estilista Tom Ford na direção, é um filme muito problemático. A começar pelo desequilíbrio entre as duas tramas que compõem sua narrativa: enquanto a primeira, diegeticamente real, se caracteriza por uma frieza que a torna quase desinteressante, a segunda, história dentro da história, lida pela personagem de Amy Adams, é vibrante, intensa, envolvente. Mesmo assim, essa última talvez não tenha a força necessária para causar tamanho impacto na protagonista/leitora – os comentários que ela faz sobre a qualidade do livro em questão (intitulado justamente “Animais Noturnos” e de autoria de seu ex-marido) podem, nesse sentido, soar exagerados. É verdade, por outro lado, que o que vemos na tela é a concretização imagética de um texto escrito e seria, a princípio, plausível que a tal qualidade seja primordialmente estética, de construção textual, e não tanto do que acontece na história narrada. Mas é verdade também que as reações de Susan (Adams) parecem advir quase totalmente desse último elemento.

Há também momentos isolados do filme que carregam, em si, mais alguns problemas. A cena de abertura, por exemplo, é muito impressionante, mas não parece ter qualquer conexão com o que vem depois. E, lá pelo meio da narrativa, há um momento que beira o constrangimento, quando Ford tenta comentar uma suposta falta de profundidade do mundo da protagonista por meio de uma participação tola de Jena Malone.

Ainda assim, Animais Noturnos me conquistou. Primeiramente, por escapar da vontade incontrolável de ser esteticamente lindo, presente no filme anterior de Ford, Direito de Amar (2009). Há aqui uma aura de thriller vagabundo, ressaltada por certa falta de identidade visual e pela trilha sonora insinuante, que remete a pérolas como Vestida para Matar (1980), Dublê de Corpo (1984), ambos de Brian De Palma, e Instinto Selvagem (1992), de Paul Verhoeven. Mas, sobretudo, pela maneira como tenta articular suas duas histórias – novamente, sem grande sofisticação, apelando para obviedades dignas de contos baratos – para discutir a relação entre os personagens de Adams e Jake Gyllenhaal. Nesse ponto, se revelando um filme sobre os lugares sociais e posturas esperadas de um homem, Animais Noturnos ganha potência dramática, sobretudo ao buscar se aproximar de Sam Peckinpah e seu ainda hoje absurdo Sob o Domínio do Medo (1971).

Como o enervante clássico de Peckinpah, Animais Noturnos toca no tema da fraqueza masculina, colocando seus personagens em situações extremas, nas quais têm de lutar contra essa característica para sobreviver e defender os seus. Ambos os protagonistas são homens tidos por excessivamente civilizados, vivendo em terras marcadas pela valorização da rusticidade. O que Ford – assim como o livro fictício escrito por Edward (Gyllenhaal) dentro do filme e o livro real de Austin Wright no qual o diretor se inspirou – argumentam é que o comportamento animal esperado do homem em lugares como o Texas de Animais Noturnos ou a cidadezinha escocesa de Sob o Domínio do Medo também é norma em ambientes supostamente menos brutos, mais sofisticados, como a alta sociedade de Los Angeles em que Susan vive.

Ford, aqui, se distancia belamente de seu objeto de inspiração, rejeitando a violência radical da solução de Peckinpah e abraçando a defesa da arte como vingança possível, ainda que sem enxergá-la sob qualquer perspectiva transcendental, redentora. Nesse sentido, Animais Noturnos é bastante amargo, mesmo cruel, com seus personagens: não há redenção possível, apenas dor, que, no final, com a vingança concluída, é ao menos distribuída de maneira um pouco mais equânime entre eles.


Animais Noturnos 
Nocturnal Animals, 2016
Tom Ford

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam


 

Minha relação inicial com a franquia Harry Potter, mais especificamente com seus dois primeiros filmes, Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) e Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), foi de implicância e enfado. Implicância por estabelecer, naqueles princípios de século XXI, uma rivalidade meio adolescente entre as aventuras do bruxinho inglês e a trilogia O Senhor dos Anéis (2001-2003), rivalidade que era alimentada dentro de casa: enquanto me encantava com a Terra-Média e comemorava as muitas indicações ao Oscar da admirável adaptação comandada por Peter Jackson, minha irmã mais nova mergulhava em Hogwarts e defendia com afinco sua preferência por Harry Potter. E enfado porque, de fato, os dois filmes em questão, dirigidos por Chris Columbus, são um tanto chatos.

Isso mudou meio bruscamente quando Alfonso Cuarón inseriu sombras, profundidade e um ritmo vertiginoso naquele universo com o excelente Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Passei a admirar as adaptações cinematográficas dos livros de J. K. Rowling, a vê-las na tela grande (não me dei a esse trabalho com Pedra Filosofal e Câmara Secreta) e a tomar como acertada a definição de uma identidade visual para a franquia a partir da chegada de David Yates, diretor de seus últimos quatro filmes (lançados entre 2007 e 2011) – ainda que lamentando um pouco a excessiva frieza de Yates, incapaz de alcançar a vitalidade de Cuarón ou mesmo de Mike Newell, diretor de Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005).

Animais Fantásticos e Onde Habitam, retomada talvez um pouco inesperada dessa série que parecia sepultada no cinema, é uma estranha mistura dos filmes de Columbus, em seu senso de aventura juvenil e descoberta de um mundo mágico cheio de possibilidades, com a seriedade e a referida frieza características de Yates. É quase como se houvesse dois filmes em um. No primeiro, moram os personagens adoráveis de Dan Fogler e Alison Sudol, que são o coração de Animais Fantásticos e Onde Habitam; moram também os tais animais fantásticos e o protagonista, Newt Scamander (Eddie Redmayne, já volto a ele). No segundo, bem mais sisudo, estão algumas subtramas não muito bem exploradas, envolvendo um grupo de fanáticos que pregam contra os bruxos, o herdeiro de um império das comunicações com pretensões políticas (seu pai é vivido por ninguém menos que Jon Voight, meio sem ter o que fazer em cena) e uma grande ameaça que paira sobre todos, espécie de Voldemort reloaded.

O problema é que esse “segundo filme” vai, com o tempo, se sobrepondo ao primeiro, revelando a vontade de Yates (e da agora roteirista Rowling) de fazer algo importante, grandioso, que discute temas sérios como preconceito e intolerância. Isso numa história que parecia pedir mais leveza e menos auto-importância. E o que resta do “primeiro filme” nesse avançar de Animais Fantásticos e Onde Habitam é, basicamente, o personagem de Redmayne. Que até é uma figura interessante, mas... é interpretado por Redmayne. Com todos aqueles trejeitos inexplicáveis, mistura de sua versão de Stephen Hawking e d’A Garota Dinamarquesa com Dustin Hoffman em Rain Man. O resultado não fica muito distante do risível – e o ápice do ridículo do protagonista em cena é quando ele tem que simular um ritual de acasalamento com algo semelhante a um imenso rinoceronte, que o ator leva a sério como se estivesse num momento shakespeariano digno de Oscar (será que ele espera a terceira indicação seguida?).

Ao final, Yates e Rowling parecem se dar conta do erro de enfoque e tom de seu filme e encerram
Animais Fantásticos e Onde Habitam com uma bela cena da dupla Fogler/Sudol. Mas aí era tarde, ao menos para mim. Diretor e roteirista/criadora já haviam me feito lembrar, quatorze anos depois, o quanto o universo de Harry Potter pode ser enfadonho. 


Animais Fantásticos e Onde Habitam
Fantastic Beasts and Where to Find Them, 2016
David Yates

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Piores indicados brasileiros ao Oscar


Aproveitando a estreia nos cinemas brasileiros do fraco Pequeno Segredo, de David Schurmann, que numa mistura de motivos políticos mesquinhos e concepções estéticas equivocadas acabou escolhido para representar o Brasil no Oscar 2017, listo abaixo outros cinco filmes ruins que o país mandou para avaliação da Academia. Em todos os casos, o Brasil ficou de fora dos indicados finais. 


5- Salve Geral (2009)


Um filme qualquer coisa dirigido por Sergio Rezende, especialista nesse tipo de cinema (são dele várias cinebiografias históricas caretas, como Lamarca, Zuzu Angel e Mauá). Poderia ser uma potente crônica da violência urbana brasileira, como foram os dois Tropa de Elite (2007 e 2010), de José Padilha, mas não passa de um dramalhão com ares televisivos, que ao menos tem boas atuações de Andréa Beltrão, Denise Weinberg e Eucir de Souza.

Grande filme brasileiro do ano: Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte

4- Última Parada 174 (2008)


Essa seleção caiu no colo de Bruno Barreto após o “candidato natural” daquele ano, Linha de Passe, ser tirado da disputa por opção de um seus diretores, Walter Salles. Voltando à poderosíssima história já contada pelo documentário Ônibus 174 (2002), Barreto fez um filme sem vida, que não consegue justificar sua existência diante da versão anterior de José Padilha. Além disso, há o absoluto desperdício de todo o episódio do sequestro e um final novelesco constrangedor.

Grande filme brasileiro do ano: Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas

3- A Morte Comanda o Cangaço (1960)


Primeiro representante do país no Oscar, esse aqui é um western sertanejo conservador, artificial e cafona, dirigido pelo antiquado Carlos Coimbra (de Independência ou Morte). A narrativa se arrasta por pouco mais de uma hora e meia e o olhar lançado por Coimbra para o sertão nordestino é absolutamente pasteurizado, algo próximo do que Marcel Camus fez com a favela e o carnaval em Orfeu Negro. Contraposta a A Morte Comanda o Cangaço, a explosão revolucionária promovida poucos anos depois pela trinca Vidas Secas/ Deus e o Diabo na Terra do Sol/ Os Fuzis faz ainda mais sentido.    

Grande filme brasileiro do ano: Cidade Ameaçada, de Roberto Farias

2- Tieta do Agreste (1996)


A protagonista de Aquarius já estrelou um filme brasileiro selecionado pelo país para o Oscar. Pena que foi esse abacaxi desconjuntado de Cacá Diegues, diretor que já tentou algumas vezes, sempre em vão, chegar à premiação da Academia. Adaptado do romance de Jorge Amado, Tieta do Agreste tem uma narrativa totalmente confusa, personagens caricaturais, piadas constrangedoras e um visual pitoresco de novela das sete. Nem Sonia Braga salva o filme do desastre.   

Grande filme brasileiro do ano: Como Nascem os Anjos, de Murilo Salles

1- Olga (2004)


Por falar em novela... alguém inventou algum dia que para agradar a Academia bastaria submeter à seleção um filme sobre Holocausto. É a tal “cara de Oscar”. Daí veio Olga, adaptação da potente e trágica história da militante comunista Olga Benário, dirigida por Jayme Monjardim como uma minissérie histórica da Globo, um tipo de sequência estética de A Casa das Sete Mulheres. O resultado é um dramalhão horroroso, que chega a ser cômico involuntariamente.   

Grande filme brasileiro do ano: Entreatos, de João Moreira Salles

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

30 Anos, 30 Filmes


Chego aos 30 tendo dedicado ao menos metade desse tempo à minha paixão pelo cinema. Por isso, apesar da crise experimentada por alcançar uma etapa definitivamente adulta da vida e constatar a implacabilidade do envelhecimento, decidi comemorar a data listando meus filmes favoritos realizados e lançados nos últimos 30 anos.

Não se trata de uma lista pretensamente precisa no mapeamento do que de melhor o cinema mundial produziu entre 1986 e 2016, ainda que eu tenha me dedicado, nos últimos meses, a preencher algumas lacunas cinéfilas relativas a esse período. O objetivo aqui é mesmo revelar um pequeno bocado do meu gosto cinematográfico. Daí o inevitável predomínio do cinema norte-americano na lista, cinema que, como quem me conhece sabe, costumo defender apaixonadamente contra discursos supostamente críticos que não conseguem ver nada além de alienação no que vem de Hollywood. Mas há também, nesse meu Top 30, cineastas de países como Rússia, Alemanha, Grécia, Espanha, Áustria, Taiwan, Hong Kong e Irã.


30- Cópia Fiel 
Copie Conforme, 2010
Abbas Kiarostami


29- Felizes Juntos
Chun Gwong Cha Sit, 1997
Wong Kar-Wai


28- Fale com Ela
Hable con Ella, 2002
Pedro Almodóvar


27- Estrada Perdida
Lost Highway, 1997
David Lynch


26- Drácula de Bram Stoker
Bram Stoker's Dracula, 1992
Francis Ford Coppola


25- Sobre Meninos e Lobos
Mystic River, 2003
Clint Eastwood


24- Elefante
Elephant, 2003
Gus Van Sant


23- O Segredo de Brokeback Mountain
Brokeback Mountain, 2005
Ang Lee


22- Fogo Contra Fogo
Heat, 1995
Michael Mann


21- Caché
Caché, 2005
Michael Haneke


20- Aliens, O Resgate
Aliens, 1986
James Cameron


19- Sangue Negro
There Will Be Blood, 2007
Paul Thomas Anderson


18- Titanic
Titanic, 1997
 James Cameron


17- Além da Linha Vermelha
The Thin Red Line, 1998
Terrence Malick


16- Cidade dos Sonhos
Mulholland Drive, 2001
David Lynch


15- Nascido para Matar
Full Metal Jacket, 1987
Stanley Kubrick


14- Um Olhar a Cada Dia
To Vlemma Tou Odyssea, 1995
Theo Angelopoulos


13- Gran Torino
Gran Torino, 2008
Clint Eastwood


12- Onde os Fracos Não Têm Vez
No Country for Old Men, 2007
Ethan Coen & Joel Coen


11- O Silêncio dos Inocentes
The Silence of the Lambs, 1991
Jonathan Demme


10- Los Angeles - Cidade Proibida
L.A. Confidential, 1997
Curtis Hanson


9- O Jogador
The Player, 1992
Robert Altman


8- De Olhos Bem Fechados
Eyes Wide Shut, 1999
Stanley Kubrick


7- Showgirls
Showgirls, 1995
Paul Verhoeven



6- O Poderoso Chefão 3
The Godfather - Part III, 1990
Francis Ford Coppola


5- Os Bons Companheiros
Goodfellas, 1990
Martin Scorsese


4- Os Imperdoáveis
Unforgiven, 1992
Clint Eastwood


3- Asas do Desejo
Der Himmel über Berlin, 1987
Wim Wenders


2- Pulp Fiction - Tempo de Violência
Pulp Fiction, 1994
Quentin Tarantino


1- O Sacrifício
Offret, 1986
Andrei Tarkóvski


segunda-feira, 11 de julho de 2016

As Montanhas Se Separam



As Montanhas Se Separam é um filme sobre a inevitabilidade das separações. Num primeiro nível está o recorrente interesse do cinema de Jia Zhangke pelo processo de modernização da China como promotor de um determinado tipo de separação, entre os chineses e suas raízes culturais. Esse é, aliás, talvez o único aspecto em que As Montanhas Se Separam cai em algumas pequenas obviedades, ao tornar por demais didática a ocidentalização de seus personagens como elemento de afastamento das tradições – Zhangke chega a nomear um desses personagens de Dollar e, no último segmento da narrativa, toda uma nova geração de chineses é apresentada como falante apenas da língua inglesa, tendo de recorrer a aulas sobre a cultura da China para restabelecer algum tipo de vínculo com seu país de origem.

Felizmente, o diretor consegue extrapolar essa realidade específica e alcançar o tema da separação como constante da vida humana. Separação daqueles que amamos e, no limite, de nossa própria existência. Nesse sentido, é interessante acompanhar como o filme começa, em 1999, com três personagens que estão sempre juntos. A dança perfeitamente coreografada da cena inicial, ao som de “Go West” (na voz dos Pet Shop Boys), é emblemática da harmonia em que o trio aparenta viver. E termina, em 2025, com um desses personagens dançando, sozinho, a mesma música. Entre as duas cenas, Zhangke filma o fim de uma forte amizade, um divórcio, a perda de um ente querido, as dificuldades de comunicação entre pais e filhos e algumas tentativas frustradas de reaproximação, de reencontro com o passado. Do coletivo à performance solo: movimento inexorável contra o qual pouco se pode fazer além de buscar retardar a passagem do tempo, prolongando os momentos com quem se ama.

Talvez a cena de As Montanhas Se Separam que melhor sintetize isso seja aquela em que a personagem Tao (Tao Zhao), após breve temporada com o filho de 7 anos, tem que enviá-lo de volta ao pai, seu ex-marido e detentor da guarda. Ao invés de optar por um voo direto para Shanghai, ela faz a viagem com o garoto num antigo trem que sai de sua cidade natal, Fenyang, e, diante do questionamento dele sobre o porquê dessa escolha por um transporte tão lento, Tao se refere justamente à breve possibilidade de estender o tempo, para que os dois possam ficar um pouco mais juntos. Do comentário de Zhangke sobre o apego a uma modernidade mais arcaica, diante da velocidade avassaladora da contemporaneidade tecnológica chinesa, passa-se à revelação de um anseio que é parte da condição humana: reter a passagem do tempo, que traz consigo as inevitáveis separações – por brigas, por distanciamento de interesses e afinidades, por morte. Nesse breve e delicado momento, Zhangke faz caber praticamente todo o seu belíssimo filme.  


As Montanhas Se Separam 
Shan he gu ren/ Mountains May Depart, 2015
Jia Zhangke

sábado, 9 de julho de 2016

13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi



13 Horas é o filme que muitos enxergaram em Sniper Americano. Se o olhar dúbio lançado por Clint Eastwood para a trajetória de Chris Kyle foi tomado, em análises apressadas, por corroboração do ufanismo primário e do militarismo do biografado, em 13 Horas esses valores de fato estão presentes na forma como Michael Bay conta a história do cerco ao consulado norte-americano na Líbia, em 2012. Não há espaço para sutilezas na abordagem de Bay. Seu filme cultua explicitamente a eficácia da brutalidade militar, em contraposição à vagareza dos burocratas e políticos, incapazes de tomar qualquer decisão acertada. Esse contraste simplista entre ação e política flerta perigosamente com princípios fascistas e, em tempos de eleições presidenciais nos Estados Unidos, soa como ataque direto a Hillary Clinton, Secretária de Defesa na época do ocorrido em Benghazi e frequentemente acusada pelos conservadores de negligência no socorro aos soldados encurralados.

Bay e o roteiro de Chuck Hogan também passam longe de qualquer reflexão, tão cara a Sniper Americano, sobre os efeitos da guerra naqueles soldados: o que está presente aqui é simplesmente a saudade de uma vida ordinária ao lado da família, que é logo suplantada pela consciência de se estar cumprindo um dever patriótico, moralmente superior e necessário. E se Chris Kyle compartilhava dessa mentalidade, o filme de Eastwood sobre o ex-SEAL trata de problematizá-la, registrando o aumento da psicose do personagem conforme ele mergulha mais fundo na guerra e as consequências disso para sua família.

Mas, sinceramente, não penso que o maior problema de 13 Horas seja propriamente ideológico. Se Bay fosse um diretor minimamente competente, talvez seu proto-fascismo não incomodasse tanto. Ao menos estaríamos diante de um bom filme. Mas o que o pai dos Transformers no cinema faz, mais uma vez, é criar uma grande confusão visual e sonora, tentando bater todos os recordes de número de cortes por minuto, o que, crê o diretor, resultaria num filme intenso, envolvente. É verdade que muitos compartilham dessa concepção bayana de ação, não à toa a franquia dos robôs alienígenas gigantes é um grande sucesso comercial, mas, para mim, daí só vem um tédio profundo. Como consigo compreender, sei lá, uns 30% do que acontece na tela, já que tudo é excessivamente frenético, picotado e desconjuntado, já que a câmera de Bay não consegue ficar parada por cinco segundos observando a ação de seus personagens, logo me desinteresso pelos filmes do diretor.

E o pior é que 13 Horas tinha um potencial absurdo para ser um grande filme. Novamente, independente de posições ideológicas, nas mãos de um cineasta com um pouco mais de bom senso, essa história facilmente poderia ser transformada numa experiência carpenteriana da pesada. Algo à lá Assalto à 13ª DP, alicerçado no western clássico (o que Eastwood, aliás, fez em Sniper Americano, ainda que a matriz ali seja mais Rastros de Ódio e menos Rio Bravo, referência principal do cinema de Carpenter), mas com temas e estética modernos. Mas aí cabe perguntar: será que Michael Bay sabe quem é Howard Hawks? Ou John Carpenter?   

13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi 
13 Hours: The Secret Soldiers of Benghazi, 2016
Michael Bay