terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os piores filmes de 2015


Se há sempre uma certa dose de sadismo na escolha dos piores filmes do ano, 2015 foi pouco prazeroso nesse sentido. Não que não tenham estreado filmes ruins nos cinemas brasileiros: é que por motivos tanto profissionais quanto de a vida ser curta demais acabei deixando passar alguns que pareciam ter tudo para marcar presença nessa lista. Daí me restou fazer um ranking de piores com alguns filmes que não chegam a ser bombas, mas que são, no fim das contas, os mais fracos que vi no ano. Foram eles:


10- Ricki and the Flash


9- Amor, Plástico e Barulho


8- O Destino de Júpiter


7- Lugares Escuros






4- Caminhos da Floresta




2- O Amuleto


1- Cinquenta Tons de Cinza


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

In Memoriam 2015


No ano de uma perda pessoal irreparável, também perdi, como amante do cinema, um bocado de gente talentosa que fez meu amor por essa arte crescer ao longo dos anos. Lembro aqui de alguns desses que farão imensa falta: 


Rod Taylor


Odete Lara


Leonard Nimoy


Manoel de Oliveira


Andrew Lesnie


Christopher Lee


James Horner


Omar Sharif


Wes Craven


Carlos Manga


Marília Pêra


Robert Loggia


Haskell Wexler


domingo, 20 de dezembro de 2015

Star Wars: O Despertar da Força


    

Ainda no primeiro ato de Guerra nas Estrelas (ou Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, para quem prefere comprar as maluquices de George Lucas), há uma cena em que Luke Skywalker sai pela porta de casa e admira o horizonte de Tatooine (com seus dois sóis), ao som de um belíssimo tema musical de John Williams. No olhar de Luke se vê a frustração com a vida que leva na fazenda de seus tios e o desejo por aventuras, aparentemente inalcançáveis para um jovem humilde de um planeta esquecido na galáxia. Essa cena pequena, a princípio sem importância, sintetiza bem o espírito do filme que inaugurou a franquia Star Wars e de suas duas primeiras continuações (O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi): apesar das grandiosas batalhas interestelares e da luta contra o poderoso Imperador e seu braço direito, o igualmente poderoso Darth Vader, pelos destinos da galáxia, era nos destinos de little people como Luke e o contrabandista Han Solo que Lucas estava realmente interessado. Ainda que o clima dos filmes fosse de completa fantasia, essa preocupação com o sonho, tão humano, de ser maior do que se é de fato, fincava as raízes da primeira trilogia Star Wars no concreto, gerando empatia em qualquer pessoa que em algum momento da vida desejou algo aparentemente impossível pelo lugar que ocupava no mundo.

Star Wars: O Despertar da Força retoma essa concretude, após Lucas ter feito uma segunda trilogia asséptica (para que tanto CGI?), grandiloquente e incapaz de levar seus personagens por caminhos minimamente interessantes – até porque, por se tratar de um prequel, tudo em A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith segue um traçado teleológico, sobrando quase nenhum espaço para surpresas. Por localizar seus acontecimentos 35 anos depois de O Retorno de Jedi, O Despertar da Força tem liberdade para caminhar com Star Wars para onde quiser e J. J. Abrams, em parceria com os roteiristas Lawrence Kasdan e Michael Arndt, é bastante bem-sucedido nisso, apesar de alguns deslizes aqui e ali. O principal deles diz respeito a um excesso de repetição da estrutura do primeiro filme da série, ainda que, do que se repete aqui, só dois pontos de fato incomodem: a presença de uma versão reloaded da Estrela da Morte, cuja destruição é novamente o desafio a ser superado pelos heróis, e o retorno dos personagens clássicos à condição de rebeldes, sem que essa mudança seja devidamente explicada. O que aconteceu entre O Retorno de Jedi e O Despertar da Força que permitiu a ascensão de algo parecido com um novo Império? De onde vem essa nova ameaça Sith, se estes pareciam ter sido destruídos com as mortes do Imperador e de Vader? Todo o esforço de Luke, Han, Leia, Chewbacca, rebeldes e até dos Eworks na trilogia original foi em vão? Não que Abrams, Kasdan e Arndt tivessem de ser excessivamente expositivos, mas um pouco de informação nesse caso talvez não fizesse mal, sobretudo porque simplesmente retornar com os personagens à sua condição inicial sem explicitar as razões pode soar como comodismo do roteiro.

Feitas essas ressalvas, resta dizer que O Despertar da Força é um filme encantador. Abrams recupera o sentido transgressor da trilogia original ao escolher como protagonistas figuras marginais, representantes de minorias sociais (uma mulher catadora de sucata e um stormtrooper negro), o que é ainda mais ousado que o feito por Lucas em 1977. Recupera também a empatia gigantesca com o público – perdida na segunda trilogia, protagonizada pelos quase invencíveis jedis –, por Rey (Daisy Ridley) e Finn (John Boyega) serem personagens carismáticos e ao mesmo tempo frágeis diante de inimigos muito maiores – sem contar que o retorno de Solo e Chewbacca, provavelmente as figuras mais adoráveis dos primeiros filmes, contribui bastante para esse efeito empático. 

Mas o grande trunfo de O Despertar da Força está mesmo na já citada liberdade do roteiro de caminhar para onde bem entender. É isso que permite a Abrams, Kasdan e Arndt não só criarem um novo conflito entre pai e filho que em nada deve àquele entre Luke e Vader em O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, como propor uma solução para tal conflito absolutamente chocante e bastante coerente com os dramas de cada um dos personagens. Nesse aspecto, o filme se escora na trilogia original para ir além dela. São essas ousadias milimetricamente calculadas que, provavelmente, permitirão a Rian Johnson, no vindouro Episódio VIII, se afastar um pouco mais desse porto seguro. 


Star Wars: O Despertar da Força 
Star Wars: The Force Awakens, 2015
J.J. Abrams

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Woody Allen, 80 anos



Meu primeiro contato com o cinema de Woody Allen não foi exatamente positivo. Lá pelos idos de 2002, Trapaceiros (2000), então seu filme mais recente lançado no Brasil, me pareceu adepto de um humor bobo, ingênuo, num momento em que eu, adolescente, gargalhava com as escatologias de American Pie e Todo Mundo em Pânico. Creio que Annie Hall (1977) tenha sido o passo seguinte de minha caminhada na filmografia de Allen, passo dado com um bocado de desconfiança e preconceito: como fã de Star Wars, estava bastante disposto a não gostar dessa historieta de amor entre um noivo neurótico e uma noiva nervosa, responsável por tirar o Oscar da primeira parte da saga de George Lucas. Acabei gostando, ri um bocado de algumas situações, mas não foi com seu filme mais premiado que Allen me conquistou definitivamente (só numa revisão, algum tempo depois, entenderia a modernidade gigantesca de Annie Hall). Na verdade foi uma conquista gradual, que explodiu em paixão quando vi pela primeira vez Manhattan (1979), numa sessão de cineclube na Faculdade de Comunicação da UFJF. Em pouco tempo, Allen já era um companheiro de viagem íntimo, figura com a qual compartilhava neuroses, inseguranças, incertezas, posições políticas e a adoração por Dostoiévski e Bergman.

Hoje, quando ele completa 80 anos provavelmente agonizando com a ideia de estar ainda mais próximo do fim da vida, compartilho também com esse ídolo quase amigo, aqui da beira dos 30, essa indignação com a inevitabilidade da morte. Também sou fortemente contrário a ela. É esse apego que Allen tem à vida que o mantém na ativa, movido a jazz e cinema, nos presenteando, anualmente, com ao menos um novo filme. E, como há muito diz o clichê, mesmo o mais fraco dos filmes de Woody Allen é melhor que boa parte do que entra em cartaz por aí. Então, que ainda ganhemos muitos desses presentes.

Dos 46 longas-metragens dirigidos por Allen até 2015, assisti 35. Esses são meus 10 favoritos: 




9- A Rosa Púrpura do Cairo (1985)


8- Tiros na Broadway (1994)


7- Interiores (1978)


6- Match Point (2005)


5- Desconstruindo Harry (1996)


4- Hannah e Suas Irmãs (1986)


3- Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)


2- Crimes e Pecados (1989)


1- Manhattan (1979)


domingo, 29 de novembro de 2015

Chatô - O Rei do Brasil

 

Numa das primeiras cenas de Chatô – O Rei do Brasil, Assis Chateaubriand aparece travestido de índio, devorando um pedaço de carne humana enquanto olha, desafiador, diretamente para o espectador. Essa será a postura assumida pelo personagem no restante da narrativa desse infame filme de Guilherme Fontes, que finalmente chega aos cinemas após quase 20 anos do início de sua produção. Apesar das compreensíveis comparações com Cidadão Kane – Chateaubriand é, como Kane, um magnata da mídia propenso ao sensacionalismo e com relações intrínsecas, muitas vezes espúrias, com a política –, o Chatô canibal de Fontes está mais para Venceslau Pietro Pietra, vilão do Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade. Ambos são antropófagos no pior sentido do termo, adeptos de uma devoração que destrói quem atravessa seus caminhos, “gigantes” movidos a sexo, dinheiro e poder. 

Já o tom de deboche de Chatô - O Rei do Brasil remete não só a essa obra-prima do Cinema Novo, mas também a Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, marco da “retomada” do cinema nacional nos anos 90, época em que Fontes filmou. Aliás, a pretensão de, por meio da sátira a "grandes personagens", explicar o país, aproxima Chatô ainda mais dessas duas matrizes – o Cinema Novo pós-tropicalista de Joaquim Pedro e a comédia histórica/histérica de Carla Camurati –, o que, em tempos de filmes brasileiros minimalistas, íntimos e muito preocupados com o micro (no qual por vezes se projeta o macro, é verdade, como nos recentes O Som ao Redor e Que Horas Ela Volta?, mas ainda assim mantendo o foco nas pequenas histórias), poderia soar anacrônico, envelhecido. Isso não acontece. 

A estrutura complexa da narrativa, com pelo menos três instâncias de narração (o presente de Chateaubriand, no hospital, a alucinação com seu julgamento num programa de TV à lá Chacrinha e as lembranças do passado, que também se dão... dentro do julgamento?), é arriscada, mas muito bem construída, surpreendentemente coesa. Ela mantém o filme de pé. E a completa despreocupação com a precisão histórica, misturando tempos e personagens num contar agônico e alucinante (o que é absolutamente condizente com as condições de saúde de seu protagonista-narrador), funciona como uma espécie de exortação a um cinema biográfico e/ou político menos careta e oficialesco, mais livre e safado. Vindo diretamente do passado em que foi concebido e filmado, Chatô se coloca, portanto, como um filme para o futuro. Oxalá seja visto, discutido, compreendido e tomado como um exemplo (estético, narrativo) possível a ser seguido. 


Chatô - O Rei do Brasil 
Guilherme Fontes 
2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Aliança do Crime



A maquiagem usada por Johnny Depp para se caracterizar como James “Whitey” Bulger em Aliança do Crime remete a muitos dos trabalhos de sua carreira pós-Piratas do Caribe, marcada, quase toda, por uma presença over do ator em cena, frequentemente repetindo os trejeitos criados para viver Jack Sparrow. Mas remete também à sua predileção, anterior a 2003, por personagens considerados estranhos. Em quase toda a parceria com Tim Burton, por exemplo, Depp interpretou figuras desse tipo: o Edward de Edward Mãos-de-Tesoura, o Willy Wonka de A Fantástica Fábrica de Chocolate, o Sweeney Todd do filme homônimo, o Chapeleiro Louco de Alice no País das Maravilhas, o Barnabas Collins de Sombras da Noite. No caso do Bulger encarnado pelo ator, a pele excessivamente pálida, os dentes amarelados e a artificialidade das lentes de contato azuis utilizadas fazem dele algo próximo de uma figura monstruosa, que, fisicamente, caberia bem numa fantasia mequetrefe de Burton.

Apenas fisicamente, no entanto. Isso porque, felizmente, a direção de Aliança do Crime é de Scott Cooper, que, apesar de não ser propriamente um grande realizador, adora um clima sóbrio, distante de exageros. A apatia emocional do cinema de Cooper, que prejudicou Coração Louco e Tudo por Justiça, faz bem a seu novo filme, tanto por controlar Depp em cena, contrapondo à presença visualmente chamativa de Bulger uma atmosfera de frieza e distanciamento (refletida na composição discreta do ator, que faz um personagem também frio, raramente dado a rompantes emocionais à lá Tony Montana), quanto por evitar transformar Aliança do Crime em mais um exemplar de um cinema de gângster violento mas bem-humorado, no estilo de Os Bons Companheiros. Nem todo filme do gênero pode (e nem precisa) tentar ser a obra-prima de Martin Scorsese, e, por mais que numa cena específica Cooper faça referência a um clássico momento de Os Bons Companheiros, o tom absolutamente sério, por vezes até sisudo, adotado pelo diretor mantém Aliança do Crime longe desse importante (mas excessivamente copiado) marco do cinema dos últimos 25 anos.

Por falar em Scorsese, um ponto interessante de Aliança do Crime é que ele desenvolve uma informação presente em Os Infiltrados, mas perdida em meio ao ritmo frenético da narrativa do oscarizado filme de 2006: a referência à atuação do mafioso Frank Costello (interpretado por Jack Nicholson e inspirado na figura real de Bulger) como informante do FBI. Essa é, na verdade, a questão central do roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth, preocupado, sobretudo, em discutir os efeitos nefastos da proteção dada a Bulger por um órgão governamental. Nesse sentido, talvez o grande personagem de Aliança do Crime seja o agente John Connolly, cujo fascínio por Bulger e pela vida que a amizade com o criminoso lhe proporciona, presente na expressão corporal autoconfiante e no olhar frágil de Joel Edgerton, chega a comover. Apesar de ser um grande filho da puta, Connolly representa também a fraqueza humana, o desejo por poder que, por vezes, só uma aliança com um demônio como Bulger pode proporcionar. A fusão entre pacto fáustico e lealdade das ruas que alicerça a relação entre os personagens torna Aliança do Crime um filme um tanto interessante, diferente do que nos acostumamos a ver no gênero recentemente. É um respiro bem-vindo, portanto, não só na desgastada carreira de Depp.


Aliança do Crime 
Black Mass, 2015
Scott Cooper

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ponte dos Espiões



Em Ponte dos Espiões, Spielberg segue no caminho de Lincoln, seu belo (e um tanto subestimado) filme anterior. Frequentemente acusado, ao longo de sua carreira, de carregar excessivamente nas tintas do melodrama (como se isso fosse, por si só, um problema), aqui o diretor novamente flerta com o gênero, mas numa modalidade mais discreta: exatamente como Lincoln, Ponte dos Espiões é um drama político low profile, cheio de classe na construção calma, sem sobressaltos, da narrativa, em que tudo tem seu tempo para acontecer, e no apuro estético. É grande a semelhança entre os dois filmes no uso de espaços fechados, como quartos, tribunais e escritórios onde se desenrolam os bastidores do poder, e na forma de iluminar esses espaços, geralmente dominados pelas sombras, mas com entradas repentinas e expressivas da luz em cena.  

Lincoln e Ponte dos Espiões também estão próximos no conteúdo. Em ambos, a grande política (abolição da escravidão e Guerra Fria) é vista pelos olhos de personagens que, historicamente superlativos (sobretudo Abraham Lincoln), carregam valores do americano médio, definidores do que seria a verdadeira “alma americana”. É interessante como Spielberg consegue equilibrar esses dois aspectos: Lincoln e Jim Donovan são filmados pomposamente, como heróis quase míticos, mas seus gestos e boa parte das situações que vivem são prosaicas, mundanas – enquanto o presidente interpretado por Daniel Day-Lewis não resiste ao hábito de contar anedotas e é forçado a chafurdar na pequena política, em negociatas escusas para aprovar a lei que acabaria com a escravidão, Donovan passa quase toda a segunda parte de Ponte dos Espiões cansado e gripado, assoando o nariz e vez ou outra tendo um de seus cochilos interrompidos.

Isso é importante para entender o que Spielberg pretende dizer nos dois filmes. Se Clint Eastwood, o outro grande diretor em atividade interessado na mitologia americana, se mostra amargo e sombrio em suas representações dos heróis da nação (J. Edgar e Sniper Americano são exemplos mais recentes nesse sentido, mas toda sua releitura do western, que vai de O Estranho Sem Nome a Os Imperdoáveis, também pode ser lembrada), Spielberg, apesar de crítico, ainda parece crente na existência desses heróis, portadores de valores que mantêm intacto o que foi, um dia, o sonho americano. Nesse sentido, falar dos feitos de Donovan chega a ser um passo adiante para o diretor em relação a Lincoln, afinal, por mais que o presidente fosse mostrado em seu lado mais prosaico, ele continuava sendo um dos pais fundadores da América moderna, face presente no Monte Rushmore. Donovan, pelo contrário, é um herói anônimo, daqueles de quem passamos uma vida inteira sem ouvir falar e que são, para Spielberg, os verdadeiros construtores de seu país.

A matriz cinematográfica de Ponte dos Espiões é, como em Lincoln, John Ford (voltamos novamente ao jovem Abraham Lincoln de Henry Fonda em A Mocidade de Lincoln), mas também Frank Capra, com seu olhar profundamente otimista para a capacidade do americano médio de resolver problemas aparentemente insolúveis. Em tempos de profundo cinismo no cinema “sério”, mesmo o americano (cada vez mais na onda baixo-astral em que tudo entra pelo cano, para citar Leminski), é um prazer reencontrar Spielberg esbanjando elegância e sobriedade sem abrir mão dos valores morais que lhes são caros. 


Ponte dos Espiões 
Bridge of Spies, 2015
Steven Spielberg