[nosso lar]
Nosso Lar 

Nosso Lar, 2010
Wagner de Assis


Quando ainda frequentava as searas espíritas, juro que tentei por umas duas vezes (até por pressão familiar) iniciar a leitura de Nosso Lar, livro publicado por Chico Xavier na década de 1930 que se tornou um clássico naquele meio, mas simplesmente não consegui por um motivo muito simples: enquanto literatura, a obra é uma bela de uma porcaria. Narrativa truncada, onde quase nada acontece, personagens unidimensionais, lições de moral por todos os cantos, e, o pior de tudo, uma empostação exagerada que beira o ridículo em todos os diálogos travados entre os mortos e entre os vivos. Sequer cheguei nas partes meio ficção-científica que incomodam a tantos, logo, nem critico o livro por isso - até porque aí é muito mais uma questão de crença do que de crítica literária.
Confesso que tremi diante da notícia da adaptação de Nosso Lar para o cinema, mais um passo negativo na cinematografia nacional atual, cada vez mais dominada pelas comédias padrão Globo, de um lado, e por filmes de cunho religioso/doutrinário de outro. Me irrito profundamente com essa "onda espírita" que invadiu o cinema brasileiro, não pela religião em si, mas pelo caráter confessional, doutrinário mesmo, que tais filmes possuem. O mesmo vale para os longas do Padre Marcelo Rossi, por exemplo. O problema está longe de ser a tematização de questões religiosas ou espirituais, como Clint Eastwood, aliás, acaba de demonstrar com seu belo Além da Vida, mas sim a opção por um cinema didático que tem o simples objetivo de conquistar mais fiéis para uma determinada crença. Fico pensando se o próximo passo será um filme sobre a vida de Silas Malafaia...
Mas, enfim, o que importa é que, justamente como imaginara, Nosso Lar é um filme muito ruim. Segue todos os defeitos do original: é artificial, didático, empostado, maniqueísta, doutrinário... e ainda trata todos os que não acreditam no espiritismo ou na vida após a morte com um desdém impressionante. O elenco, que conta com nomes de peso como Othon Bastos (que um dia fez Deus e o Diabo na Terra do Sol, lembrem-se disso), Rosanne Mulholland e Fernando Alves Pinto (que saudade de Terra Estrangeira!), parece totalmente deslocado, não levando muito a sério os diálogos inverossímeis que são obrigados a pronunciar - à exceção do protagonista, Renato Prieto, proveninente do teatro espírita, e que demonstra verdadeira paixão pelo projeto, conseguindo mesmo dar alguma qualidade à sua composição de André Luiz. Nosso Lar acaba se beneficiando da trilha do sempre ótimo Philip Glass e dos bons efeitos especiais e, lá pela metade, a narrativa até passa por uma breve melhora. Mas, no fim, o que predomina é mesmo a vontade de espalhar a doutrina espírita para o maior número possível de pessoas. Me senti nos tempos em que assistia palestras no grupo de jovens do centro que minha família frequenta. E, sinceramente, não preciso mais disso, passei dessa fase.


















