terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Troca



Com A Troca, Clint Eastwood se aproximou bastante de um cinema norte-americano "à moda antiga", semelhante a grandes dramas da Hollywood de outrora. Há também ecos de um cinema noir e algumas semelhanças com alguns dos pesados dramas comandados pelo diretor recentemente, como Sobre Meninos e Lobos (principalmente na segunda parte da narrativa, quando entra na trama a investigação policial acerca de um possível serial killer, assassino de crianças).

No entanto, esse excesso de referências acaba atrapalhando um pouco a empreitada de Eastwood, transformando A Troca em uma obra excessivamente irregular. É especialmente como drama de uma mãe em busca do filho desaparecido que o filme comete alguns pecados. Angelina Jolie está perfeita no papel de Christine Collins, compondo sua personagem no tom exato, entre o exagero das interpretações das atrizes deste tipo de drama à antiga e a sutileza de determinadas cenas, o que acaba tornando sua obstinação tristemente real. Assim como Meryl Streep (As Pontes de Madison) e Hilary Swank (Menina de Ouro), Jolie rende bastante nas mãos de Eastwood: o próprio trabalho do diretor acaba ofuscado pelo desempenho de sua protagonista, verdadeira dona do filme. Entretanto, chega a ser irritante a condução da história de Collins por Eastwood e pelo roteirista J. Michael Straczynski, com clichê atrás de clichê (a cena do eletrochoque é um ótimo exemplo disso). O mesmo vale para o excesso de coadjuvantes estereotipados: o chefe de polícia malvado e corrupto, o médico cruel, o pastor bondoso e corajoso (vivido por um deslocado John Malkovich), o psicopata doentio e amalucado que não consegue conter seus risos nervosos etc.

Por outro lado, Eastwood permeia a narrativa com cenas muito boas, nos lembrando de que estamos diante de uma obra sua: todos os momentos envolvendo os crimes do serial killer são tensos e envolventes na medida certa e há a excelente cena de uma execução na forca, dona de um tom incômodo, amargo, bastante apropriado e coerente com o cinema do diretor. Além de muitos momentos protagonizados por Jolie, principalmente um, próximo ao final, envolvendo o depoimento de um menino desaparecido e encontrado pela polícia. Momento, aliás, perfeito para o encerramento do filme, com o olhar emocionado da protagonista, e que elevaria a qualidade de A Troca. No entanto, o diretor prefere incluir uma cena posterior, desnecessária, na qual o que não precisava ser dito é dito. E que sintetiza bem a irregularidade deste filme menor de Eastwood.


A Troca 
Changeling, 2008
Clint Eastwood

sábado, 7 de fevereiro de 2009

No cinema: O Lutador

[o lutador]

O Lutador
The Wrestler, 2008
Darren Aronofsky


Assistir a O Lutador não é uma experiência tranquila, indelével. Não que o filme seja forte, no sentido de possuir cenas extremamente violentas ou impactantes, como, por exemplo, o excelente Réquiem para Um Sonho, do mesmo Darren Aronofsky. Na verdade, boa parte da força que o longa possui, da sua capacidade de impedir que o espectador simplesmente apague da memória o que acabou de ver, é responsabilidade clara e óbvia de um homem: Mickey Rourke.
A essa altura já virou clichê elogiar sua interpretação, relembrar sua promissora carreira destruída por seus excessos e caprichos, mas sua presença em cena é realmente espetacular. Praticamente interpretando a si próprio, Rourke coloca na tela um personagem absurdamente simplório, sofrido e, justamente por isso, cativante. Ao mesmo tempo que é digno de pena, Randy "The Ram" Robinson é, assim como Rourke, uma vítima de sua própria estupidez (e a cena em que percebe o erro que cometeu ao se deixar levar para uma noitada regada a drogas e sexo é sintomática disso), o que o torna uma figura profundamente comovente. Terno e bruto, Rourke/Randy impressiona com sua magnética presença na tela, e suas companheiras de cena, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood pouco podem fazer diante dela. Entretanto, ao mesmo tempo que interpreta a si próprio, o ator dá mostras de seu brilhantismo ao verdadeiramente compor um personagem, e ao revelar, em pequenos gestos, a complexidade dramática deste. Vale observar, por exemplo, a expressão contida, passiva de Rourke ao ser agredido verbalmente pela personagem de Wood: o ator passa com perfeição os sentimentos de um homem destruído, maltratado pela vida, e que vê desaparecer ali sua última esperança de felicidade, o que acaba por comunicar-nos também o que virá a seguir, as consequências trágicas daquela briga. Esse é o momento mais comovente de um filme que, na verdade, comove, do início ao fim, e isso graças ao trabalho minimalista de seu protagonista, um grande ator, como sempre se soube.
No entanto, nem só de Mickey Rourke vive O Lutador. Por trás de sua presença avassaladora, existe o sujeito responsável por canalizar o turbilhão de emoções que é o ator, algo que Darren Aronofsky consegue fazer primorosamente. Se o diretor havia pecado pelo excesso de pretensão em seu último filme, o subestimado Fonte da Vida, aqui Aronofsky faz exatamente o oposto: um filme absurdamente simples. E, por isso mesmo, perfeito. Aronofsky percebe que diante do desempenho monstruoso de Rourke não caberiam exageros estéticos ou inovações narrativas, e simplesmente sai do caminho, deixando seu astro brilhar. E, por essa sua visão, o diretor brilha junto, e entrega um filme simples, singelo e de uma beleza gigantesca. Fui ao cinema esperando algo próximo ao recente, e ótimo, Rocky Balboa. Saí do cinema me lembrando de Touro Indomável.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Alguns filmes - Janeiro

[alguns filmes - janeiro]

Agente 86
Get Smart, 2008
Peter Segal


Um Mundo Perfeito
A Perfect World, 1993
Clint Eastwood


O Último Beijo
L'Ultimo Baccio, 2001
Gabriele Muccino


Na Mira do Chefe
In Bruges, 2008
Martin McDonagh


Fome Animal
Dead Alive, 1992
Peter Jackson


eXistenZ
eXistenZ, 1999
David Cronenberg


Gêmeos - Mórbida Semelhança
Dead Ringers, 1988
David Cronenberg


A Questão Humana
La Question Humaine, 2007
Nicolas Klotz


Aguirre, a Cólera dos Deuses
Aguirre, der Zorn Gottes, 1972
Werner Herzog


Persépolis
Persepolis, 2007
Marjane Satrapi & Vincent Paronnaud



Ainda que muitos gostem, não consigo ver nada demais nessa versão cinematográfica de Agente 86. Steve Carrell e Anne Hathaway estão muito bem sim, e suas gags até funcionam em alguns momentos (especialmente na primeira parte do longa), mas, em sua maioria, esse é um filme bobo, exageradamente despretensioso e sem um mínimo de acidez. Ou seja, é o protótipo perfeito da comédia norte-americana. No fim das contas, não há grandes diferenças entre Agente 86 e bombas como, por exemplo, a nova versão de A Pantera Cor-de-Rosa, com Steve Martin. São ambas comédias de "espionagem", com cenas de ação pouco inspiradas (especialmente em seu epílogo, irritante de tão exagerado e explosivo, quando Maxwell Smart é transformado em apenas mais um herói de filmes de ação) e com protagonistas atrapalhados mas supostamente competentes e feitos para conquistar a platéia. Carrell se sai melhor do que Martin, mas o filme não consegue repetir seu feito. Talvez funcione melhor com quem já acompanhou a série. Como esse não é meu caso, Agente 86 foi somente uma perda de tempo.
Um Mundo Perfeito é o típico filme de Clint Eastwood cheio de clichês, mas que possui uma humanidade exacerbada, e grande complexidade nas entrelinhas. Poderia ser mais uma obra-prima na carreira do ator/diretor, mas derrapa, principalmente, por ser dois filmes em um. Enquanto Eastwood está fora de cena, focando-se na fuga do personagem de Kevin Costner (muito bem) e em sua relação com o menino feito de refém (o bom T.J. Lowther), Um Mundo Perfeito é brilhante. Sensível, terno, mas ao mesmo tempo violento, e profundamente honesto. No entanto, há a perseguição empreendida pelo policial vivido pelo próprio Eastwood, e aqui os clichês se amontoam, e nada soa verdadeiro. Clint está mal em cena, interpretando mal o mesmo papel de sempre, e há um ainda uma apática Laura Dern e um agente do FBI mau caráter, que se torna um vilão meio despropositado. É um verdadeiro desperdício, em um filme que possui momentos tão maravilhosos, e que culminam com a excepcional sequência da estadia dos personagens de Costner e de Lowther na casa de uma família negra, onde Eastwood deixa explícito novamente seu imenso talento dramático.
O Último Beijo é um filme encantador por sua simplicidade, pela forma como trata seus personagens honestamente e por sua enorme capacidade em emocionar e divertir sem ser forçado. No entanto, o maior mérito do filme está no timing de Gabriele Muccino para capturar com perfeição as angustias e ansiedades de um grupo de jovens homens, vivendo no limiar entre a juventude e a vida adulta. É verdadeiramente impressionante como tudo em O Último Beijo, os conflitos, os amores, as traições e os sentimentos soam profundamente reais, mesmo que já explorados à exaustão em diversos longas. O que faz a diferença é a abordagem sincera, simples e despretensiosa de Muccino (algo que ele também alcançaria posteriormente no belo À Procura da Felicidade, derrapando logo depois, justamente por ser demasiadamente pretensioso, em Sete Vidas), que dá ao filme um tom divertido, mas, ao mesmo tempo, estranhamente melancólico: sabemos que aquelas dúvidas, desejos reprimidos e amores frustrados mostrados pelo diretor constituem uma parte importante de nossa existência, e poderiam, com o perdão do clichê, acontecer com qualquer um de nós (isso quando já não aconteceram). E O Último Beijo surpreende ainda por sua maturidade em seu final, pela forma como os personagens promovem escolhas coerentes com suas personalidades, sem grandes catarses ou reviravoltas. E ainda por contar com uma cena final irônica e brilhante. Um pequeno clássico.
Talvez não exista sensação melhor ligada ao cinema do que a de surpresa. É muito bom quando um filme do qual se espera muito atende a todas essas expectativas, mas melhor ainda é quando não se espera nada, ou muito pouco, de um filme e acaba-se deparando com uma obra-prima. E Na Mira do Chefe (péssimo título em português, vale dizer, que dá ao filme um tom exageradamente cômico, que ele não possui) promove essa indescritível sensação. Num primeiro momento, tem-se a impressão de estar diante de mais uma comédia de ação, no estilo Máquina Mortífera e afins, onde uma dupla (tudo bem que aqui estamos falando de dois criminosos, e não de policiais) que não se entende se vê obrigada a conviver. No entanto, por um lado, tem-se aqui em cena Brendan Gleeson e Colin Farrell em desempenhos inspirados. Ambos vão muito além do estereótipo inicial (o matador experiente conscencioso e paciente; o iniciante, jovem e arredio), criando duas figuras absolutamente encantadoras em sua complexidade. Talvez Farrell se destaque mais, por possuir mais tempo em cena e por compor um personagem que, ao mesmo tempo que carrega muitas de suas características pessoais (o que o torna mais verdadeiro), é completamente inusitado na carreira do ator; no entanto, Gleeson é o responsável por alguns dos melhores momentos do filme e, principalmente, pelo mais emocional e impactante deles, no topo de uma torre. E há ainda Ralph Fiennes, curto, grosso e genial. Por outro lado, há de se valorizar a figura do diretor e roteirista Martin McDonagh. A maneira como esse estreante em longa-metragens (mas já vencedor do Oscar, pelo curta Six Shooter) conduz sua trama, transformando-a, com imensa naturalidade, de uma aparente comédia de ação como outra qualquer em um drama extremamente melancólico e emocionante, é simplesmente brilhante. Tão brilhante quanto os momentos finais de Na Mira do Chefe, onde algumas coincidências tragicômicas encaminham o filme para um epílogo muito bem sacado, e, principalmente, para uma profunda e poderosa reflexão sobre a morte, e sobre o poder que a vontade de permanecermos vivos pode exercer sobre esta. Ou não.
É no mínimo estranho assistir a Fome Animal hoje em dia, tendo consciência dos filmes que Peter Jackson faria posteriormente. Tudo no filme é absolutamente e absurdamente mal feito, tosco e repugnante, mas, talvez justamente por isso, ótimo. Jackson, muito antes da fama (e de filmes sérios como Almas Gêmeas ou grandiosos como O Senhor dos Anéis e King Kong), filma com uma paixão transbordante a história do rapaz tímido e reprimido pela mãe que é obrigado a lidar com a invasão da sua cidade por um vírus que transforma os habitantes em zumbis. Na verdade, a história é um fiapo, uma mera desculpa para o diretor encher a tela com cenas nojentas e exageradas, todas filmadas toscamente. Não é possível, e nem pertinente, cobrar muito de um filme como Fome Animal, feito quase amadoramente. Mas é possível captar seu espírito genuinamente trash, que cativa e diverte. Assim como é possível vislumbrar, em alguns momentos, o gênio que se revelaria posteriormente (a sequência do padre lutando com os zumbis é particularmente inspirada).
eXistenZ e Gêmeos - Mórbida Semelhança são dois filmes de David Cronenberg diferentes em muitos aspectos, mas que compartilham entre si, e com outros trabalhos do diretor, um elemento em particular: a bizarrice. No entanto, em ambos os casos, assim como em muitos outros filmes de Cronenberg, tal elemento não soa, em nenhum momento, gratuito: o bizarro, em Cronenberg, é, de certa forma, natural. eXistenZ é um filme menor do diretor, sem grandes pretensões. Nele, a bizarrice aparece ligada às imagens criadas por Cronenberg (os jogos que parecem orgânicos, feitos de carne, é o melhor exemplo disso), para apresentar um mundo distópico onde os videogames tomaram o lugar da vida real. O diretor trabalha muito bem as constantes confusões entre realidade e jogo, insere algumas metáforas sexuais explícitas na narrativa e arranca boas atuações de sua dupla de protagonistas, Jude Law e Jennifer Jason Leigh, além de ter algumas sacadas visuais muito boas, como a arma feita de ossos (e os já citados consoles orgânicos). E o final, em aberto, é totalmente coerente com a proposta desse pequeno filme de David Cronenberg, que merece ser mais visto. Já Gêmeos - Mórbida Semelhança é um trabalho mais sério, com maior carga dramática, mas não menos estranho. Aqui, o bizarro está na história em si, de dois irmãos gêmeos ginecologistas que vivem quase simbioticamente, e Cronenberg a conduz com extrema elegância, tornando aqueles personagens duramente reais, tristes e sofridos, ao mesmo tempo que fascinantes. Obviamente, há aqui a imensa contribuição de Jeremy Irons, provavelmente no melhor desempenho de sua carreira. O ator compõe, com brilhantismo, dois homens de personalidades completamente diversas, sem, no entanto, descambar para estereótipos, e comove verdadeiramente com o drama dos dois, especialmente do mais "fraco" deles, Beverly. É ao mesmo tempo assustadora e fascinante a atuação de Irons, assim como o é a forma como os irmãos revelam a dependência mútua que possuem. Cronenberg, consciente da força da história contada, não promove grandes novidades narrativas, mantendo-se distante, mas com seu costumeiro talento para tornar o bizarro real. É um dos melhores filmes da carreira do diretor canadense.
Há um bom tempo não via um filme tão denso, pesado e complexo como esse A Questão Humana. A princípio, imaginava uma obra ao estilo do maravilhoso Conduta de Risco, com um funcionário de uma mega-corporação tomando "consciência" do que sua empresa representa e lutando contra o "sistema", ao mesmo tempo que um outro é designado para controlá-lo, e acaba se envolvendo também nessa luta. No entanto, o filme de Nicolas Klotz acaba tomando outro caminho, não menos interessante. A Questão Humana é, na verdade, uma poderosa investigação acerca da força que o passado e que as grandes estruturas provenientes deste e que compõem a realidade presente exercem sobre cada ser humano. No entanto, Klotz não é, em nenhum momento, esquemático, didático ou maniqueísta. O diretor gruda em seu protagonista, vivido pelo magistral Mathieu Amalric, e leva o espectador a descobrir aos poucos, de forma confuso e não-linear, a presença de uma herança histórica de imensa força na realidade do capitalismo atual, e na forma como organizamos nossas vidas nas sociedades contemporâneas, especialmente do Ocidente. E verdade seja dita: Klotz é duro em suas brilhantes conclusões, ao aproximar a racionalidade tecnocrata do capitalismo liberal com um dos maiores crimes que a humanidade já viu. Tais conclusões são absolutamente coerentes com a proposta do filme, e o diretor é duro como deve ser, afinal de contas ele não está batendo em um alvo fraco, que possa ser considerado uma vítima. Genial.
Werner Herzog sabe, como poucos, abordar o confronto entre homem e natureza, e Aguirre, a Cólera dos Deuses é mais um excelente exemplo disso. Assim como no posterior Fitzcarraldo, o cineasta alemão submerge numa história passada na América do Sul, nesse caso, a saga de Dom Lope de Aguirre, conquistador espanhol do século XVI que embrenhou-se pelas selvas do continente na busca da mítica cidade de El Dorado. E mais uma vez Herzog entrega uma abordagem fascinante, ainda que também se repita o incômodo em ver todos os personagens, supostamente espanhóis, falando alemão (e, ainda por cima, um alemão dublado, o que acaba diminuindo a força de algumas interpretações). Fascinante por fugir da obviedade, por optar pelo silêncio e pela força das imagens da natureza, e por criar um protagonista assustador e ao mesmo tempo apaixonante, interpretado por um espetacular Klaus Kinski. Não é um filme fácil de ser assistido, apesar de sua curta duração, principalmente por sua natureza essencialmente contemplativa, pouco intrusiva na história que está sendo contada. Mas é justamente desse seu silêncio quase absoluto que Aguirre, a Cólera dos Deuses extrai seu poder de impacto e se torna a experiência assustadora que é.
Esperava um pouco mais de Persépolis. É uma animação adulta, com temática e abordagem adultas, mas privada, em alguns momentos, de maturidade. Tem uma proposta interessante e alguns momentos verdadeiramente inspirados (toda a tensão política iraniana, as manifestações, a conversa entre Deus e Marx), além de contar com uma protagonista dona de uma história de vida extremamente rica. No entanto, tal história é contada de forma exageradamente episódica, há pouca emoção real nos acontecimentos da vida de Marjane Satrapi mostrados em Persépolis, eles simplesmente vão se acumulando diante de nossos olhos, sem gerar grande envolvimento ou comoção. Pouco nos preocupamos, verdadeiramente, com o destino da personagem, o que acaba sendo um pecado, e todo o sofrimento de sua jornada não consegue se tornar palpável. Ao menos, o filme acerta no tom melancólico que predomina em seus momentos finais, e que definem com competência a sensação de não possuir um lugar no mundo, além de ser, esteticamente, um primor.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

em Série ...

[lost - quarta temporada]

Lost - 4ª Temporada
Lost - The Fourth Season, 2008
J.J. Abrams & Damon Lindelof & Jeffrey Lieber



Aproveitando sua recente exibição na TV aberta, e o lançamento de uma nova temporada nos EUA, aqui estou eu comentando a quarta temporada de Lost. É bem verdade que, passados tantos episódios da série, esta já não consegue, em muitos momentos, demonstrar o fôlego e a genialidade que possuía nos seus dois primeiros anos e, para ser justo, nos últimos episódios da terceira temporada. Mesmo assim, Lost mantém seu charme.
Nessa quarta temporada, boa parte do mistério da ilha e de seus habitantes caminham para uma (aparente?) solução, o que, se por um lado é bom, já que nos priva de mais enrolações, por outro não deixa de ser frustrante, especialmente ao percebermos que estamos diante de respostas muito mais mundanas do que se poderia imaginar (como a trama envolvendo a guerra pela ilha, entre duas poderosas figuras), ainda que muitos acontecimentos "sobrenaturais" insistam em acontecer e em nos instigar (como, por exemplo, a história de "mover a ilha"). Outro ponto que gera resultados ambíguos é a utilização dos flashforwards, que, se pegaram a todos de surpresa no brilhante último episódio da terceira temporada, aqui já não conseguem mais repetir tal efeito, caindo na banalidade. À exceção, obviamente, de um episódio específico, "The Constant", estrelado por um dos melhores personagens da série, Desmond. Nele, o diretor Jack Bender alterna com brilhantismo flashbacks, "presente" e flashforwards, colocando novamente em cena um tema muito grato à Lost, e que geralmente gera excelentes episódios: a viagem no tempo. Tal episódio é conduzido de uma forma que beira o inacreditável, e é concluído com um momento de profunda emoção. É, de longe, o melhor momento dessa temporada.
De resto, há momentos muito bons (a coragem de matar diversos personagens, um Michael Emerson cada vez mais assustador como Benjamin Linus, e o final, novamente intrigante e provocativo) alternados com outros nem tanto, como o aguardado, mas mal conduzido, retorno de um personagem ausente desde a segunda temporada, novos personagens em geral pouco interessantes, especialmente o físico vivido por um Jeremy Davies meio que repetindo o papel amalucado de sempre, e o surgimento de um vilão que beira o caricatural (interpretado por Kevin Durand). No entanto, é uma temporada digna, que foge de enrolações e que serve como uma ótima ponte para os momentos finais da série que estão por vir.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Selo & No cinema: Um Homem Bom

[um homem bom]

Um Homem Bom
Good, 2008
Vicente Amorim

Não deixa de ser motivo de orgulho ver mais um diretor brasileiro, para além dos sempre (merecidademente) badalados Fernando Meirelles e Walter Salles, estreando no cinema internacional com um filme de respeito e de qualidade. E Vicente Amorim, de O Caminho das Nuvens, realiza um bom trabalho nesse Um Homem Bom. Não é um filme excelente, não traz grandes novidades à temática nazismo, mas é um pequeno filme feito com talento e com exatidão: é curto e objetivo, bem interpretado (Viggo Mortensen está muito bem, bastante à vontade em um personagem demasiadamente humano e frágil, de certa forma inusitado para o ator) e com alguns momentos de verdadeira beleza (a sequência final, por exemplo, é um primor, assim como a cena em que o protagonista veste pela primeira vez o uniforme da SS, ajudado por sua esposa).
É interessante notar, aliás, a escolha de Amorim para dirigir tal filme. De completamente inusitada, ela acaba se revelando um acerto em alguns sentidos, ainda que o brasileiro não promova grandes rupturas com o modo tradicional de abordar tal tema. Na verdade, o diretor exibe um olhar que faz de Um Homem Bom um filme muito semelhante a exemplares do cinema alemão contemporâneo, como A Vida dos Outros, por exemplo (ainda que não chegue a qualidade deste), o que torna sua abordagem corretamente sóbria, seca em muitos momentos, e distante de maniqueísmos comuns em filmes norte-americanos sobre o tema.
Por outro lado, seguindo essa linha de raciocínio, faria mais sentido a escolha de um cineasta alemão para o cargo, que, já que não estamos tratando aqui de um diretor brasileiro dos mais ousados, capaz de trazer novos ares aos filmes sobre o nazismo (imagino que, Fernando Meirelles, por exemplo, poderia sim inovar em alguns aspectos em uma obra como essa), com certeza iria mais longe em algumas opções dramáticas do filme, capazes de torná-lo mais contundente do que é de fato. Há determinados pontos da narrativa de Um Homem Bom que, se aprofundados, poderiam torná-lo uma pequena obra-prima (como, por exemplo, as consequências das teses do personagem de Mortensen para os doentes mentais da Alemanha nazista, rapidamente mostrados em uma pequena cena, ou mesmo sua ligação com o extermínio de judeus, já que mesmo a última cena, em um campo de concentração, não faz um link explícito entre os escritos de John Halder sobre a eutanásia e os crimes nazistas). Do jeito que está, é, com o perdão do trocadilho, somente um filme bom.


O Diego Rodrigues, do blog Cinemania, indicou o Crônicas Cinéfilas com o selo "Olha que blog maneiro". Valeu, Diego! Essas são as regras:

1. Exiba a imagem do selo "Olha que blog maneiro!" que você acabou de ganhar.
2. Poste o link do blog que te indicou (muito importante).
3. Indique 10 blogs de sua preferência.
4. Avise seus indicados (não esquecer).
5. Publique as regras.
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7. Envie a sua foto ou de um(a) amigo(a) para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com o link dos 10 blogs indicados para verificação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras corretamente, dentro de alguns dias você receberá uma caricatura em P&B.

Aqui, os blogs que eu indico:

Moviola Digital

Filmes do Chico

Baú de Filmes

Cenas de Cinema

Anfitrião

Cine no pretensions

Cine Ôba

Cinefilia

Fina Ironia

Amor Louco

domingo, 25 de janeiro de 2009

No cinema: Austrália

[austrália]

Austrália
Australia, 2008
Baz Luhrmann


Baz Luhrmann sempre foi pretensioso e exagerado. No entanto, mesmo tendo conhecimento disso, Austrália ainda assusta por seu tamanho e intenções. Na verdade, em boa parte de sua narrativa, o filme funciona muito bem: é profundamente clichê sim, tem personagens estereotipados também, e conta uma história já vista e revista inúmeras vezes, porém, como já havia ficado claro em seus três filmes anteriores, Luhrmann tem um imenso tato para trabalhar com esses lugares-comuns, transformando-os em aceitáveis e mesmo adoráveis (como em Moulin Rouge, e na maior parte de Austrália).
A questão é que, na maior parte do tempo, o filme é uma grande, bela e divertida homenagem de Luhrmann a grandes clássicos de Hollywood, tanto nas referências mais óbvias que possui (O Mágico de Oz, Era Uma Vez no Oeste) quanto no estilo grandioso adotado, que lembra muito, especialmente, ... E o Vento Levou. O diretor trafega com elegância por esses grandes clássicos do cinema, criando cenas verdadeiramente impressionantes, demonstra um imenso bom humor em diversos momentos, e consegue transformar o casal vivido por Hugh Jackman e Nicole Kidman (ambos muito bem em cena) em personagens apaixonantes, por mais clichês que eles sejam. Mesmo que algumas escolhas de Luhrmann soem irritantes, especialmente o personagem aborígene Rei George e as chatíssimas canções cantadas pelo menino Nullah, quase tudo funciona à perfeição no filme, até a chegada do que seria seu "primeiro final", quando a missão de levar os gados ao litoral australiano finalmente se cumpre (numa grandiosa e empolgante sequência). Até aqui, sentimo-nos diante de um velho épico romântico hollywoodiano, torcendo pelo amor do carismático e apaixonado casal de protagonistas (que, como manda a regra, não se entendem no início, mas acabam percebendo-se feitos um para o outro) e contra a dupla de vilões malvados, vidos por David Wenham e Bryan Brown, e nos encantando com a coragem do grupo de heróis que aceita uma missão tida como quase impossível, ao mesmo tempo que admiramos a força e beleza de uma cultura perseguida, mas ainda resistindo.
Mas aí Luhrmann e seus roteiristas introduzem na trama a Segunda Guerra Mundial, e Austrália desanda. Tudo o que, até ali, funcionava maravilhosamente bem como uma homenagem a uma forma de fazer cinema que parece ter se perdido no tempo, passa a ser um filme "sério", um drama de guerra com grandes pretensões. Todo o bom humor vai embora, a narrativa se prolonga mais do que deveria, os clichês se tornam irritantes e o constrangimento pelo que se vê na tela toma conta. A emoção genuína que se era possível sentir com a história de amor dos personagens de Jackman e Kidman é substituída por encontros e desencontros do casal que soam extremamente forçados, culminando numa previsível reunião à beira de uma última ameaça, encarnada por um já exageradamente caricatural Wenham. E aí, a única saída é lamentar que o filme não tenha acabado bem antes, e lamentar, principalmente, que, depois de 7 anos de espera por um novo filme de Baz Luhrmann, o resultado tenha ficado tão aquém do esperado, ainda que, por muitos momentos, estivesse perto de alcançar o satisfatório. Pretensão, nas mãos corretas, pode fazer bem, como o próprio Luhrmann já demonstrou. Mas é preciso saber dosá-la.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Um Novo Olhar: Entre Quatro Paredes

[entre quatro paredes]

Entre Quatro Paredes
In the Bedroom, 2001
Todd Field


Existem filmes que, decididamente, possuem um momento certo a serem assistidos. Na primeira vez que assisti Entre Quatro Paredes, pouco depois do Oscar 2002 (onde concorreu em 5 categorias, incluindo melhor filme), me lembro de não ter conseguido enxergar ali nada mais do que um dramalhão chato, interminável e entediante. A única coisa que, naquela época, me chamou a atenção foi o desempenho de Tom Wilkinson. Dessa forma, simplesmente não conseguia compreender o porquê de tantas lembranças na principal premiação do cinema, e ficara feliz por, ao menos, o filme de Todd Field ter saído da cerimônia de mãos vazias.
Pois bem. É impressionante como, revendo-o tanto tempo depois, Entre Quatro Paredes se revela um outro filme. Na verdade, na primeira hora do longa, cheguei a ter a impressão de que desgostaria novamente do que estava vendo: até a tragédia que se abate sobre os personagens principais, Entre Quatro Paredes é um filme apenas bom, aparentemente sem grande densidade dramática e até mesmo esquemático. Chega a ser irritante, por exemplo, a forma como o personagem de William Mapother é retratada, beirando o caricatural. No entanto, a partir da virada na trama, tudo muda. É a partir daqui que o filme revela ter sim, e muita, densidade dramática, e que seu elenco mostra o quão brilhante é. Sobre Sissy Spacek e Tom Wilkinson, fica difícil dizer quem está melhor. Matt e Ruth Fowler manifestam a dor de sua perda de formas diferentes, e o casal Wilkinson/Spacek compreende isso muito bem: enquanto a personagem da atriz é um poço de rancor e mágoa, prestes a explodir (e que, quando explode, gera uma das cenas mais fortes do filme), o de Wilkinson comove com suas tentativas de seguir em frente com sua vida, até perceber a impossibilidade de realizar tal coisa. Nesse sentido, há pequenos momentos em que o ator exprime a genialidade de seu trabalho, como na cena em que tem uma discussão com sua esposa interrompida por uma jovem vendendo chocolates ou no carteado com um grupo de amigos.
E é o personagem de Wilkinson que protagoniza o controverso epílogo de Entre Quatro Paredes, que, por mais deslocado da história que assistimos até ali, acaba se revelando totalmente coerente com a proposta de Field. Afinal de contas, a cena mostra uma ação inesperada por parte do protagonista, portanto, nada mais acertado que ela se revele deslocada do resto da trama. Além disso, tal epílogo, que deveria ser catártico, acaba sendo ainda mais genial por humanizar o personagem de Mapother, o que acaba dando ao ato de Wilkinson um sentido dúbio, bastante apropriado com o que está sendo mostrado.
Essa sensação de dubiedade, aliás, perpassa Entre Quatro Paredes, e se revela fundamental para a construção da complexidade de sua trama. Há coisas na vida, que simplesmente não conseguimos definir como certas ou erradas, e Todd Field compreende isso maravilhosamente. No fim das contas, cheguei a conclusão de que o filme merecia sim ser premiado no Oscar, talvez até como melhor filme, já que é superior ao vencedor daquele ano, Uma Mente Brilhante (ainda que, dentre todos os indicados, o melhor ainda seja A Sociedade do Anel). Às vezes o tempo faz mesmo um enorme bem.