segunda-feira, 26 de setembro de 2011


[namorados para sempre]

Namorados para Sempre
Blue Valentine, 2010
Derek Cianfrance


Há coisas que desejamos que nunca acabem, mas que acabam mesmo assim. É da consciência dessa finitude do que às vezes parece infinito que Namorados para Sempre retira sua maior força. Trata-se de um filme duríssimo sobre o passar dos anos em um relacionamento, sobre o peso da rotina da vida a dois em um casamento aparentemente fadado ao eterno sucesso, com desempenhos impressionantes de seu casal de protagonistas, Ryan Gosling e Michelle Williams (inexplicavelmente, só ela foi indicada ao Oscar quando, na verdade, vem dele a presença mais marcante em cena). Mas essas coisas do amor, às vezes, simplesmente acabam. Está aí o grande problema do título que o filme de Derek Cianfrance recebeu no Brasil: para além do equivocado tom de romantismo que se pretendeu passar (algo pouco condizente com o pessimismo que predomina na narrativa, ainda que haja momentos que beiram o sublime), a questão é que não há "para sempre" aqui. Blue Valentine é sobre os pontos finais e não sobre as reticências. Por isso é tão doloroso assiti-lo.
Acompanhar o personagem de Gosling cantando (uma triste canção que, na verdade, antecipa o que ocorrerá no final do filme: "you always hurt the ones you love, the ones you shouldn't hurt at all...") para Williams enquanto esta dança, numa belíssima cena de comunhão e cumplicidade, para depois vê-los em discussões carregadas de palavras duras não é nada fácil. Assistir a dois personagens transbordantes de humanidade, sem nenhum pingo de vilania, se machucarem mutuamente em tentativas vãs de recuperar um amor perdido é de cortar o coração - acaba surgindo uma identificação maior com o personagem de Gosling, não só por representar o lado masculino da relação (identidade de gênero, sabem como é...), mas também por ser ele o que mais se esforça para manter a relação do casal de pé e, consequentemente, o que sofre mais violentamente o baque da separação. Mas o mais difícil é ver aquele sujeito indo embora, agora sim, para sempre - é quando Blue Valentine se firma como uma espécie de anti-(500) Dias com Ela. Pois a lembrança do que foi nunca é suficiente para suplantar o vazio do que fica. E não há redenção alguma nisso.

5 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Duríssimo filme, como bem colocou. E é muito interessante pensar nesses personagens não como pessoas vis fazendo mal um ao outro, mas exatamente uma certa imaturidade que eles demonstram ter desde o início do relacionamento. Surge então um relacionamento que começa bem, mas que se afunda nas próprias inseguranças e ingenuidades do casal. E por mais que eu adore o trabalho do Goslin, ainda acho que a Williams está uma pontinha acima dele, mas ambos defendem com maestria seus personagens difíceis e amargurados.

Mateus Selle Denardin disse...

Mesmo que não intencional, acho o título nacional ótimo ao expor tamanha ironia. Porque a felicidade deles é a de quando eram namorados; se eles lembrarão com alegria e certa melancolia, será dessa época: namorados, "para sempre". Enfim, considero um dos melhores filmes dos últimos anos e, a tratar desse tema de relacionamento, certamente um dos mais pungentes. [10/10]

Wallace Andrioli Guedes disse...

faz sentido, Mateus...

alan raspante disse...

mais um filme que eu ainda não vi, mas preciso ver!

Tati disse...

Também concordo com Mateus quando fala do título em português. Eu prefiro as traduções mais diretas ou que se mantenha o título original. Às vezes essas adaptações dos títulos ao nosso português/cultura podem entregar o jogo. Gostei muito do texto e bate também com o que eu penso do filme. Acho que nos identificamos mais com o personagem masculino porque é dele que vem a esperança, aquela que faz com que nos prendamos a um fio tênue de um relacionamento que está perto do fim. Acho o final do filme de uma honestidade tremenda e, mesmo que nos deixe pesados e pensando em nossas próprias histórias, identifica um crescimento dos dois personagens, que finalmente entenderam a duração de um 'para sempre'.