




















Arnaldo Baptista é, assim como Wilson Simonal, protagonista de outro recente documentário, mais um músico de imensa importância na música popular brasileira que é redescoberto graças ao cinema. É lógico que as trajetórias dos dois são muito diferentes, o que faz com que o tom dos filmes seja também diverso (enquanto em Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, havia um forte sentimento de culpa, uma tentativa de reparar o passado e resgatar o cantor, em Loki, há um tom otimista de recomeço, até pelo fato de Arnaldo Baptista estar ainda vivo, e recuperando-se de todos os percalços de sua vida), mas ambos tiveram suas carreiras quase que completamente destruídas, em muito por suas próprias atitudes, e acabam sendo, agora, recuperados, e novamente valorizados.
O curioso é que a vida de Baptista, muito menos controversa do que a de Simonal, gere um filme bastante superior ao documentário de Cláudio Manoel, Micael Langes e Calvito Leal. Sem grandes polêmicas políticas para tratar, o diretor Paulo Henrique Fontenelle mergulha numa atmosfera intimista (próxima à do disco que dá título ao documentário), nas angústias pessoais de Baptista, e acaba entregando um retrato tocante e delicado de um homem derrotado pelos excessos (de amor, de drogas), mas que possui uma relevância musical que provavelmente a maioria de nós, brasileiros, não somos capazes de mensurar (e, nesse sentido, a idolatria aos Mutantes e à Baptista no exterior mostrada por Fontenelle é sintomática, com alguns ingleses chegando a declará-los melhores do que os Beatles!). Loki é uma grande homenagem à Arnaldo Baptista, e, no caminho, acaba sendo também um pedido de desculpas do músico àqueles que ele acabou por magoar, especialmente sua ex-esposa e companheira musical Rita Lee. O relacionamente do casal, aliás, se torna um dos pontos mais instigantes, e emocionantes, do filme, já que parece haver ali um ressentimento absurdamente grande, que faz com que Rita se recuse tanto a dar qualquer entrevista sobre Baptista ou sobre esse assunto, quanto a reunir-se novamente com sua antiga banda - e sua ausência é profundamente sentida em Loki. E o pedido de desculpas de desculpas de Baptista a ela é de cortar o coração.
Outro ponto que trabalha a favor do filme é a própria figura do seu protagonista. Os efeitos do uso prolongado de drogas e, principalmente, de uma tentativa de suicídio sobre Arnaldo Baptista fazem com que ele surja na tela como um homem extremamente fragilizado, algo ressaltado por seu modo de falar, quase infantil. É difícil não se apaixonar por aquele sujeito, não se encantar por sua história e sua obra, e não ficar aliviado pelo fato de ele ainda estar vivo, e, novamente, feliz (e trabalhando, com música e pintura). Ver Baptista falando, especialmente após conhecer sua trajetória, gera uma irresistível vontade de se aproximar dele, abraçá-lo, e agradecê-lo não só por tudo que fez pela música, mas principalmente pela lição de vida que é a sua própria vida. Arnaldo Baptista mora, atualmente, em Juiz de Fora, minha cidade. Quem sabe não concretizo esse desejo qualquer dia desses?
Me parece que, ao filmar a história do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista e morto covardemente pela polícia inglesa em 2005, o diretor Henrique Goldman teria duas opções de foco narrativo: ou construía um thriller político, um filme-denúncia contra a atitude dos policiais ingleses e a não-punição destes até os dias de hoje (lá se vão 4 anos desde o ocorrido...), ou buscava um lado mais humano na história, indo além da biografia do personagem-título e focando no cotidiano dos imigrantes brasileiros em Londres. Goldman optou pela segunda, e acertou em cheio.
Também um brasileiro habitante da capital inglesa, o diretor demonstra enorme desenvoltura ao filmar o dia-a-dia daquelas pessoas, criando um painel delicado, ao mesmo tempo melancólico e bem-humorado, das condições em que vivem. Selton Mello acaba também se revelando um grande acerto: o ator (reconhecidamente talentoso, mas sofrendo de uma certa superexposição no cinema brasileiro atual), consegue ir além de sua típica caracterização de personagens simpáticos e engraçados, fazendo de seu Jean Charles uma figura um tanto verdadeira, absurdamente carismática sem que sua presença soe forçada. Se se imaginava que a escolha do ator para o papel poderia torná-lo "maior" que o retratado, fazendo-nos esquecer do verdadeiro Jean Charles, o que acaba ocorrendo é justamente o contrário, com Selton se colocando em uma posição extremamente respeitosa, de certa forma deixando seu talento dramático à serviço daquela trágica história e daquele trágico homem (Jean Charles de Menezes e sua vida são, em Jean Charles, sempre maiores, mais importantes, do que a interpretação de Selton Mello). E vale dizer também que a presença sempre graciosa da apaixonante Vanessa Giácomo também ajuda, e muito, tanto o desempenho do protagonista (já que o casal exibe uma ótima química em cena) quanto o filme em geral.
No entanto, como era de se imaginar, Jean Charles possui lá seus problemas. Se na maior parte do tempo a narrativa flui muito bem, sem nenhum grande tropeço (por mais que algumas presenças de não-atores chegue a incomodar em alguns momentos), quando esta dá a grande guinada, com a saída de Selton de cena e a consequente mudança de tom (não havendo mais espaço para bom-humor), o filme cai ladeira abaixo. Primeiramente, a própria cena do assassinato de Jean Charles é mal filmada, com uma estranha e despropositada câmera subjetiva, que acaba diminuindo o impacto do ocorrido. E, em seguida, há uma série de cenas passadas no Brasil que são bastante ruins. Daniel de Oliveira faz uma desnecessária e boba participação especial, e Jean Charles aproxima-se de um incômodo tom melodramático (por mais que, na sequência da visita das autoridades inglesas à família da vítima, a reação do personagem do ótimo Luís Miranda acabe por soar verdadeiramente comovente). Felizmente, porém, o que fica no final, é a sensação de que Goldman obteve êxito, ao optar por um filme de pequena escala, nada inovador, mas profundamente sincero. Sem dúvidas, poderia ser melhor, mas as recentes experiências de nosso cinema com filmes biográficos mostra que também poderia ser pior. O saldo, portanto, é positivo.
Como se poderia desconfiar, vindo de alguém como Gus Van Sant, Garotos de Programa é muito mais do que seu pouco criativo título brasileiro tenta mostrar. É sim sobre garotos de programa "ganhando a vida", mas é principalmente um filme sobre a busca por um lugar no mundo (como, aliás, boa parte dos filmes do diretor), um mundo que simplesmente parece não te querer, a não ser para, de forma hipócrita, usufruir de seus dotes sexuais. E é também um filme de amor. E dos mais belos.
E não deixa de ser curioso, e triste, que os protagonistas de duas das mais belas histórias de amor homossexual que o cinema já produziu, River Phoenix e Heath Ledger, tenham morrido absurdamente jovens, e deixando justamente nesses filmes talvez a maior prova de seus gigantescos talentos. Assim como Ledger em Brokeback Mountain, Phoenix rouba a cena aqui. Por mais que Keanu Reeves tenha o mesmo destaque na narrativa, é do ator de Conta Comigo que vem o desempenho mais delicado e comovente, uma interpretação carregada de sutileza, na construção de um personagem insuportavelmente triste, mesmo em seus momentos de alegria. O Mike Waters de Phoenix é trágico a sua própria maneira, e me pergunto se a doença que carrega (narcolepsia) não representaria, ainda que ele não se dê conta disso, momentos de alívio para a dura realidade de sua vida - afinal, quando dorme, Mike sonha com uma infância feliz, com a presença de uma mãe carinhosa, algo que de fato não ocorreu.
Gus Van Sant é um sujeito que, claramente, se sai melhor quando mergulha em seu lado indie do que quando abraça um cinema mais "clássico" (ainda que Gênio Indomável e Milk sejam dois filmes que adoro), e Garotos de Programa, que foi seu terceiro longa-metragem, deixa essa característica bem ressaltada. É um filme nada convencional, onde Van Sant aposta em uma narrativa elíptica, em que tempo e espaço são atravessados pelos personagens sem que o espectador perceba isto com clareza (a não ser pelas chamadas com os nomes das cidades que aparecem na tela), em cenas inusitadas (me parece um toque de genialidade a maneira como o diretor filma as sequências de sexo) e em personagens que fogem de qualquer padrão de normalidade. E é curioso como isso se torna fundamental não só para o realce da marginalidade daquelas figuras, mas também para a identificação delas com quem assiste ao filme (e talvez o estranhíssimo e adorável Bob, vivido por William Richert, seja o melhor exemplo disso). E fica a dúvida se Garotos de Programa não seria, em certa medida, um elogio à marginalidade. Triste, melancólico, amargo. Mas ainda assim, um elogio. Em se tratando do cinema de Gus Van Sant, é bem possível que sim.


É sob grande influência do cinema feito por um grupo de realizadores nordestinos (Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Karim Aïnouz) que Matheus Nachtergaele promove sua estreia na direção de longas com esse A Festa da Menina Morta. Falta, entretando, ao estreante, o talento narrativo e a força dramática que estes costumam imprimir a seus filmes: A Festa da Menina Morta é uma obra um tanto irregular, que tem uma excelente premissa que acaba sendo subaproveitada.
Em primeiro lugar, o filme depende excessivamente de seu protagonista, uma figura bizarra, interpretada com brilhantismo por Daniel de Oliveira. O ator está excepcional, naquele que talvez seja seu melhor desempenho desde Cazuza, a ponto de fazer com que um sujeito repugnante como Santinho (histérico, egoísta, egocêntrico) se torne absurdamente fascinante - vê-lo em cena é, ao mesmo tempo, um misto de sofrimento e prazer. No entanto, Nachtergaele parece hipnotizado em demasia pela interpretação de seu protagonista e acaba se esquecendo do resto do filme. Exagero meu, mas, de alguma forma, tudo parece estar pela metade em A Festa da Menina Morta. Algumas cenas são excessivamente gratuitas (confesso que a aparição da personagem de Cássia Kiss continua um enigma para mim), atores reconhecidamente talentosos são desperdiçados em personagens sem nenhuma expressão (além de Kiss, há Dira Paes num papel pequeno demais, sem nenhuma importância, e Paulo José fazendo sabe-se lá o quê), e questões que pareciam importantes para o desenrolar da história são simplesmente esquecidas a partir de certo momento - o exemplo mais significativo nesse sentido diz respeito ao personagem de Juliano Cazarré, portador de um elemento de conflito no filme, capaz de implodir toda aquela situação, mas que, sem nenhuma explicação, parece simplesmente deixar de lado suas angústias e inquietações (o que, a meu ver, é uma falha de Nachtergaele, que parece não saber como conduzir aquele conflito iminente, e decide por abandoná-lo).
Talvez possa-se argumentar uma opção do diretor por deixar coisas em aberto, por evitar respostas prontas, visões acabadas sobre a temática abordada - o que até faria um certo sentido, já que, por mais que seu olhar sobre a religiosidade daquelas pessoas seja altamente crítico, em determinados momentos, especialmente quando filma de maneira belíssima a festa da menina morta propriamente dita, Nachtergaele demonstra uma certa admiração pela força daquela crença, abrindo espaço para um bem-vinda dubiedade no filme. No entanto, me parece que há um certo limite para essa opção: o que falta a A Festa da Menina Morta é um pouco mais de coerência e cuidado na construção da narrativa. A Matheus Nachtergaele, o diretor, talvez falte experiência mesmo.

