terça-feira, 14 de maio de 2013


[o homem que ri]

O Homem que Ri 
L'Homme qui Rit, 2012
Jean-Pierre Améris


O livro L'Homme qui rit (1869), de Victor Hugo, já havia sido levado ao cinema algumas vezes, sendo que a versão de 1928, protagonizada por Conrad Veidt, se tornou um pequeno clássico. No entanto, essa nova adaptação, dirigida por Jean-Pierre Améris, é um desastre completo. O diretor resolveu brincar de ser Tim Burton e fazer um filme todo estilizado, mas acabou se apropriando também do pouco cuidado que o cineasta norte-americano tem com o roteiro de suas obras (especialmente as mais recentes). Assim, O Homem que Ri até tem um visual bonito, mas é oco por dentro: conta de maneira apressada uma história que poderia render algo impactante, se tratada com a seriedade de um Vênus Negra, por exemplo, e não se esforça minimamente para desenvolver seus personagens, figuras unidimensionais que trafegam pela narrativa sem conseguir produzir nenhuma sensação no espectador (a não ser sono, talvez). 
Mas há salvação para o filme de Améris. Quem sabe ele não encontra morada entre os irritantes fãs de Tim Burton, com seu discurso pseudo-intelectual de louvação à supostamente genial estética gótica/expressionista do cineasta? Quem sabe não surge até a proposta de um remake em língua inglesa, com Johnny Depp no papel principal? 

domingo, 12 de maio de 2013


[adeus, minha rainha]

Adeus, Minha Rainha 

Les Adieux à la Reine, 2012
Benoit Jacquot


Maria Antonieta, rainha da França a partir de 1774 e executada, em 1793, pela revolução que tomara o país quatro anos antes, foi recentemente retratada de maneira juvenil e positiva num belo filme de Sofia Coppola, que tinha propósitos bem distintos desse Adeus, Minha Rainha, de Benoit Jacquot, no qual a personagem é vivida por uma estonteante Diane Kruger. Aqui, interessa ao diretor acompanhar os primeiros dias da Revolução Francesa sob a ótica dos que habitavam Versalhes, mais especificamente, dos criados da nobreza. A protagonista é a leitora oficial de Maria Antonieta, jovem que guarda uma forte paixão pela rainha.
Jacquot fez um filme histórico que poderia ser associado a uma espécie de "história vista de baixo" à inglesa, já que aborda grandes acontecimentos do passado através de micro-olhares daqueles que se encontravam na base da pirâmide social, construindo uma trama que revela muito sobre as relações de classe e sobre as visões de mundo de cada grupo que compunha a sociedade francesa do período. Apesar do ritmo excessivamente lento, Adeus, Minha Rainha consegue manter um clima de tensão constante,  ressaltado pela câmera inquieta de Jacquot (há, por exemplo, um estonteante plano-sequência num estreito corredor cheio de pessoas, no momento em que as notícias da revolução começam a chegar até a nobreza de Versalhes) e pela narrativa que compartilha com o espectador somente as informações que a personagem principal (interpretada pela linda Léa Seydoux) também sabe. Narrativa que Jacquot conclui com uma sequência - acompanhada, a partir de certo ponto, de narração em off - marcada por imensa ironia com seus personagens, dando duro golpe no espectador esperançoso de encontrar heroísmo e salvação no mundo retratado por esse amargo e sofisticado filme.

sábado, 11 de maio de 2013


[mães cinematográficas]

O cinema está cheio de personagens femininas fortes. Muitas delas, mães, boas e más, que marcaram seus respectivos nomes na história do cinema. Aproveitando o dia dedicado a elas, listo abaixo cinco mães cinematográficas inesquecíveis. 


5- Romana (Fernanda Montenegro) em Eles Não Usam Black-Tie (1981)


4- Ellen Ripley (Sigourney Weaver) em Aliens - O Resgate (1986)


3- Manuela (Cecilia Roth) em Tudo Sobre Minha Mãe (1999)


2- Rosemary (Mia Farrow) em O Bebê de Rosemary (1968)


1- Mrs. Bates (Anthony Perkins / voz de Virginia Gregg) em Psicose (1960) 


quinta-feira, 2 de maio de 2013


[a morte do demônio]

A Morte do Demônio 
Evil Dead, 2013
Fede Álvarez


"O filme mais assustador que você verá nesta vida", diz o cartaz do novo A Morte do Demônio. É claro que se trata de uma peça de marketing e que o cinema já produziu obras mais assustadoras que essa, mas não dá para negar que o diretor estreante Fede Álvarez foi exitoso em fazer um filme difícil de ser esquecido por seu clima sombrio e violência sem limites. Apesar de seguir basicamente a mesma história do original, dirigido em 1981 por um também novato Sam Raimi, o A Morte do Demônio de Álvarez foge do humor (talvez involuntário) do original para apostar num horror barra pesada, de difícil digestão para o grande público (na minha sessão, houve quem desistisse já na cena em que uma das jovens é estuprada pela floresta). Os risos de outrora dão lugar a um incômodo que permanece durante toda a narrativa, mesmo com os exageros de sangue aqui e acolá.
Há quem argumente que o diretor adaptou o hoje cult filme de Raimi ao gosto dos novos consumidores de cinema de horror, aproximando-o do destestado torture porn. Eu discordo, em parte. Se em sua violência brutal A Morte do Demônio até lembra bobagens como O Albergue, Álvarez se afasta de Eli Roth e companhia ao conseguir, com excelentes efeitos visuais práticos e imensa crueldade com seu espectador (que jamais ganha um alívio do inferno em que é lançado), fazer um filme que resiste ao acender das luzes do cinema. Não é fácil tirar da mente algumas cenas de A Morte do Demônio (o já citado estupro, a personagem que corta o próprio rosto com um caco de vidro, o icônico confronto final). Poderia existir homenagem maior ao Evil Dead de Sam Raimi?

sexta-feira, 26 de abril de 2013


[o informante]

O Informante 
The Insider, 1999
Michael Mann


Há um quê de O Homem que Matou o Facínora no cinema de Michael Mann. Como o clássico de John Ford, seus filmes parecem construídos sobre duplos, personagens que em maior ou menor grau, dependendo de cada caso, se antagonizam e se complementam ao mesmo tempo. Foi assim com Robert De Niro e Al Pacino em Fogo contra Fogo, Tom Cruise e Jamie Foxx em Colateral, Colin Farrell e novamente Foxx em Miami Vice, Johnny Depp e Christian Bale em Inimigos Públicos. E, claro, com Pacino, em sua segunda parceria com o diretor, e Russell Crowe na obra-prima O Informante.
"Por trás de toda grande fortuna há um crime", disse Balzac em passagem que virou epígrafe do livro O Poderoso Chefão, de Mário Puzo. Se os filmes de Francis Ford Coppola que adaptaram a obra de Puzo para o cinema assustaram ao trazer uma família mafiosa de Nova York funcionando como uma grande empresa, Mann seguiu o caminho inverso em O Informante, ao apresentar a poderosa empresa de cigarros da qual o personagem de Crowe é demitido atuando quase como a máfia, rompendo os limites da legalidade e estendendo seus tentáculos a lugares inimagináveis para manter seus interesses intactos. Crowe vive Jeffrey Wigand, homem que escolhe enfrentar um poder muito maior que o seu e paga alto preço por isso. Apesar de cientista, Wigand é um homem comum, pai de família de classe média que carrega consigo os valores do senso comum. Bergman, por sua vez, é um intelectual, mas, nas mãos de Pacino, é também um furacão em cena, sujeito disposto a lutar até o fim pelo que acredita. Há um pouco de John Wayne e James Stewart em cada um deles. 
Mas o personagem de Crowe também poderia ser comparado ao Frankie Pentangeli que Michael V. Gazzo interpretou em O Poderoso Chefão 2, informante determinado a destruir a família Corleone, e que acaba massacrado por ela. É quase como se Mann direcionasse sua câmera para essa figura coadjuvante da obra-prima de Coppola, acompanhando a pressão cotidiana vivida por conta de suas escolhas. E o diretor sabe, como poucos, filmar indivíduos em situações de pressão extrema. A tensão vivida por Wigand em O Informante é quase palpável para o espectador, que, sugado para o interior da narrativa pelas mãos habilidosas de um artesão genial, transpira cada gota de suor que escorre pelo rosto do personagem. 
Indicado a 7 Oscars em 2000, incluindo melhor filme, diretor e ator (Crowe), O Informante acabou preterido pelo também grande (mas não tanto) Beleza Americana, e Michael Mann, um dos maiores diretores do cinema americano em atividade, continuou sem ser reconhecido como tal pela Academia. Mas isso pouco importa. Em seu diálogo com gigantes, de John Ford a Coppola, o cineasta construiu um filme com potencial para se tornar clássico, peça fundamental de uma filmografia cada vez mais coesa e absolutamente magnífica.

sexta-feira, 19 de abril de 2013


[crepúsculo dos deuses]

Crepúsculo dos Deuses 
Sunset Boulevard, 1950
Billy Wilder


A passagem do cinema mudo para o sonoro foi um tanto traumática para alguns atores que, astros de outrora, viram suas carreiras desmoronarem por sua incapacidade de encaixar-se nos novos tempos. Filmes como Cantando na Chuva (1953) e O Artista (2011) tematizaram esse momento, de maneira bem-humorada no primeiro caso, com tons agridoces no segundo. Nenhum dos dois chegou perto do amargor de Crepúsculo dos Deuses (1950), clássico de Billy Wilder que pinta um retrato mordaz de uma Hollywood que descarta, sem piedade, figuras há até pouco tempo amadas pelo grande público. A comovente descida ao fundo do poço do personagem de Jean Dujardin em O Artista em nada se compara ao destino sombrio de Norma Desmond (Gloria Swanson), protagonista do filme de Wilder, ex-estrela do cinema silencioso ostracizada e esquecida, figura patética que vive isolada em sua mansão sonhando com o retorno dos dias de glória, acompanhada apenas de um mordomo fiel (Erich von Stroheim). O diretor, conhecido por comédias como O Pecado Mora ao Lado, Quanto Mais Quente Melhor e Se Meu Apartamento Falasse, fez aqui um drama pesado, um mergulho profundo num inferno distante da Hollywood glamourosa com a qual tantos sonham.
Parte do êxito de Crepúsculo dos Deuses se deve à crueldade de Billy Wilder. Seu cinema sempre foi carregado de certo cinismo, mesmo nos casos das comédias mais leves acima citadas, e, apesar de ele já haver filmado histórias sombrias anteriormente (Pacto de Sangue, Farrapo Humano) e de voltar a fazê-lo posteriormente (A Montanha dos Sete Abutres, por exemplo), talvez seja possível afirmar que nenhum desses trabalhos chegou perto da ousadia de Crepúsculo dos Deuses. Isso porque o diretor recrutou vítimas reais da máquina hollywoodiana para papéis importantes nesse seu filme demolidor. Gloria Swanson e Erich von Stroheim, por exemplo, interpretam versões exageradas de si próprios, já que ambos de fato foram, respectivamente, atriz e diretor de sucesso na era do cinema mudo, esquecidos a partir da década de 1930. E Wilder foi ainda mais além ao trazer para a narrativa de Crepúsculo dos Deuses cenas do filme Queen Kelly (1929), retumbante fracasso que abalou a carreira de Swanson e que tinha na direção justamente Erich von Stroheim. Ou seja, Billy Wilder expôs as feridas abertas de seus atores, borrando os limites da ética, com o propósito de fazer um bom filme. Acabou com uma obra-prima nas mãos, peça de sarcasmo e coragem que, entre outras coisas, revolucionou a narrativa cinematográfica clássica com sua narração em off conduzida por um morto (homenageada, muito tempo depois, em Beleza Americana). Em tempo de polêmicas sobre as relações de Alfred Hitchcock com suas atrizes, as escolhas de Billy Wilder em Crepúsculo dos Deuses parecem confirmar que, no caso de alguns cineastas, crueldade e genialidade andam de mãos dadas.

terça-feira, 26 de março de 2013


[a saga crepúsculo]


Entre 2008 e 2012, adolescentes histéricas e gente pouco exigente lotaram os cinemas de todo o mundo para acompanhar a tal Saga Crepúsculo, que chegou ao fim há alguns meses com um episódio tão constrangedor quanto os anteriores. Falo de gente pouco exigente porque me assusta o fato de existirem pessoas sérias (não estou falando dos fãs alucinados de Stephenie Meyer) que consideram bom algum  dos cinco filmes dessa malfadada saga. Eles não o são. Talvez o primeiro, Crepúsculo, guarde alguma qualidade em sua simplicidade - mas também pode ser que eu esteja alimentando uma lembrança razoavelmente positiva do filme de Catherine Hardwicke na comparação com o desastre completo de tudo que veio depois.
Nomes como Hardwicke (de Aos Treze), Chris Weitz (de Um Grande Garoto), David Slade (de 30 Dias de Noite, um ótimo filme de vampiros) e Bill Condon (do maravilhoso Deuses e Monstros) passaram pela franquia e não conseguiram produzir nada além de obras medíocres, com personagens desinteressantes, falas constrangedoras, tramas ocas e atuações sofríveis. Há quem argumente que os filmes não têm culpa, já que seguem de maneira bem próxima os livros de Meyer. Para esses, respondo: vocês nunca ouviram falar em Alfred Hitchcock e em sua máxima de que livros ruins dão os melhores filmes? Basta adaptá-los! Basta mexer na história, mudar o que for necessário, criar personagens novos, suprimir outros que não têm importância... E que se danem as fãs!
Mas não foi isso que aconteceu e a suposta ruindade do material original (chamo de "suposta" por não ter lido os livros de Meyer) se sobrepôs a esses diretores bem razoáveis (Condon, em particular, é verdadeiramente talentoso e, curiosamente, entregou aqueles que são, possivelmente, os dois piores filmes da saga) e elenco que conta com um ou outro nome interessante (Pattinson e Stewart, por exemplo, demonstraram competência em Cosmópolis e Na Estrada, respectivamente), o que é uma pena. Não cobro da Saga Crepúsculo o nível de seriedade e complexidade dos grandes filmes da história do cinema. Cobro da Saga Crepúsculo qualidade dentro de seu nicho, qualidade presente em outros exemplares recentes deste, como Harry Potter e Jogos Vorazes.


Crepúsculo 
Twilight, 2008
Catherine Hardwicke

A Saga Crepúsculo: Lua Nova 
The Twilight Saga: New Moon, 2009
Chris Weitz

A Saga Crepúsculo: Eclipse 
The Twilight Saga: Eclipse, 2010
David Slade

A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 1 
The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 1, 2011
Bill Condon

A Saga Crepúsculo: Amanhecer - Parte 2 
The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2, 2012
Bill Condon