quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Os melhores filmes de 2014


Chegou aquela hora difícil de escolher os dez melhores filmes do ano e, consequentemente, deixar um monte de outros trabalhos maravilhosos de fora da lista. 2014 foi, como 2013, um ano de grandes lançamentos nos cinemas brasileiros, daqueles que me fazem pensar em aumentar esse ranking para um Top 20 ou 30. Mas, mais uma vez, fico com os tradicionais dez e cito mais alguns nas famigeradas menções honrosas. 

São elas: Era Uma Vez em Nova YorkO Abutre, Oslo, 31 de Agosto, Amantes Eternos, A Imagem Que Falta, The Rover - A Caçada, Jersey Boys - Em Busca da Música, Até o Fim, Ventos de Agosto, Cães Errantes, O Homem Mais Procurado, Planeta dos Macacos: O Confronto, Nebraska, Interestelar, Praia do Futuro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e Os Dias Com Ele

Viram como é difícil? 

Antes de chegar aos dez mais, uma outra menção que precisa ser feita é a primeira temporada da série True Detective, criada por Nic Pizzolatto e dirigida por Cary Fukunaga. Se fosse um filme de oito horas exibido nos cinemas, provavelmente estaria no topo da minha lista. 


E agora sim, os dez melhores filmes de 2014:  


10- O Grande Hotel Budapeste








6- O Lobo Atrás da Porta


5- Mommy


4- Ela


3- Boyhood - Da Infância à Juventude






terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os piores filmes de 2014

A lista de piores desse ano tem filmes de diretores que normalmente disputariam vagas entre os melhores – Francis Ford Coppola, Spike Lee, Jason Reitman e George Clooney –, bem como alguns protagonizados por grandes atores de língua não-inglesa – Ricardo Darín e Isabelle Hupert. 2014 foi difícil mesmo para os grandes. 

Por outro lado, marcaram presença também aqueles já esperados: Nicolas Cage e Johnny Depp pagando mico mais uma vez e uma globochanchada para nos lembrar o quanto nosso cinema comercial anda mal. Com vocês, as bombas de 2014...

... Mas antes, algumas menções desonrosas: Noé (Aronofsky pisando na bola com um filme que funciona enquanto se assume como viajandão, mas que degringola quando se leva a sério), As Tartarugas Ninja (Michael Bay mode on), Sin City: A Dama Fatal (Robert Rodriguez sendo Robert Rodriguez), Sem Evidências (Atom Egoyan, é você mesmo?), Godzilla (tantas coisas legais sobrepujadas por um draminha familiar constrangedor) e Robocop (que decepção, senhor Padilha!).

Agora sim, os piores filmes lançados no Brasil nesse ano que chega ao fim:


10- O Juiz



9- Sétimo



8- Refém da Paixão



7- Virginia



5- Oldboy - Dias de Vingança



4- Uma Relação Delicada



3- O Apocalipse



2- O Candidato Honesto



1- Transcendence - A Revolução


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Era Uma Vez em Nova York


Como Amantes, obra-prima que James Gray realizou em 2009, Era Uma Vez em Nova York está alicerçado sobre um triângulo amoroso. Mas se lá tínhamos um homem (Joaquin Phoenix) dividido entre duas mulheres (Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw), aqui é uma mulher (Marion Cotillard) que se encontra disputada por dois homens (Phoenix e Jeremy Renner), e essa condição de gênero, bem como o ambiente histórico hostil em que se passa a história, pesam muito no desenrolar da trajetória da personagem.

Ewa, imigrante polonesa que chega à Nova York de 1921 com sua irmã atrás do sonho americano, logo é levada à prostituição por Bruno (Phoenix), figura trágica por sua incapacidade de demonstrar o imenso amor que sente pela mulher que explora. O terceiro vértice do triângulo é o carismático mágico Orlando (Renner), que introduz alguma esperança na vida da protagonista, movido pela paixão que sente e por uma bondade aparentemente inata. Mas ele não dura muito em cena, já que a felicidade permitida a Ewa é limitada – não que Gray se regozije com isso, já que seu cinema é tão comovente justamente pela cumplicidade que assume com seus personagens na dor que experimentam. Ewa conseguirá se livrar de Bruno, mas não sem deixar um rastro de tragédia para trás.

Tragédia, aliás, que Cotillard traz nos olhos desde o momento que surge em cena. No entanto, cabe a Joaquin Phoenix mais uma vez interpretar o personagem mais triste de um filme de Gray. Afinal, a dignidade que ainda resiste em Ewa já se perdeu há muito tempo em Bruno – para ele, não há redenção possível, como fica claro no magnífico plano que encerra Era Uma Vez em Nova York: enquanto a imigrante continua sua jornada em busca de alguma felicidade na América, agora mais uma vez ao lado da irmã, Bruno segue de volta para seu mundo degradado e para a inevitável destruição física. Gray usa um espelho embaçado – objeto recorrente em Era Uma Vez em Nova York, que ao mesmo tempo mostra seus personagens como distorções grotescas do que desejavam ser e os protege de ver o que realmente se tornaram – para criar uma belíssima split screen, que apresenta os destinos contrastantes de seus dois protagonistas. Coisa de gênio. 


Era Uma Vez em Nova York 
The Immigrant, 2013
James Gray

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

In Memoriam 2014


Muitos gigantes do cinema partiram em 2014. Esses vão deixar especial saudade.



Philip Seymour Hoffman


Harold Ramis


Alain Resnais




James Garner


Bob Hoskins


Eli Wallach




Richard Attenborough


Lauren Bacall


Hugo Carvana


Mike Nichols



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Abutre


O Abutre começa com o plano de um outdoor em branco. O estranhamento surgido daí se relaciona à centralidade que as imagens têm no mundo contemporâneo, tema caro ao filme de estreia de Dan Gilroy: numa época em que experiências só ganham sentido se registradas por uma câmera, é coerente que exista grande demanda por imagens de acontecimentos extremos – a morte, enquanto experiência definitiva da vida, também tem que ser apreendida imageticamente e consumida.

Entra aí Lou Bloom, distorção macabra do empreendedorismo capitalista que Jake Gyllenhaal interpreta como uma espécie de Anjo da Morte: magro, pálido, olhos fundos e, nas palavras do próprio a uma policial que o interroga, sinal de mau agouro. Bloom parece uma mistura dos personagens de Robert Blake em Estrada Perdida, em seu aspecto demoníaco, e Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez. Se ele não é propriamente um assassino (ao menos a princípio) como Anton Chigurh, sua passagem pela vida de outras pessoas não traz nada além de desgraças – a não ser para outros abutres como a chefe da estação local de TV interpretada por Rene Russo, que, por outro lado, também é manipulada pelo sujeito e corre o risco de ser eliminada caso se coloque em seu caminho.

Gilroy acompanha seu protagonista num misto de repulsa – por seus atos – e fascinação – tanto pelo que ele representa enquanto fruto da sociedade de consumo, filho pródigo da lógica individualista e antropofágica do capitalismo, quanto pela composição esplendorosa de Gyllenhaal, que faz de Bloom uma figura magnética, saída diretamente de algum universo estranho criado por David Cronenberg. O mergulho de Gilroy e Gyllenhaal no cotidiano perturbador desse personagem torna O Abutre um filme estranho e incômodo, de difícil digestão. Um dos melhores do ano.


O Abutre 
Nightcrawler, 2014
Dan Gilroy

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Mommy


Eu Matei Minha Mãe, primeiro filme de Xavier Dolan, e Mommy, seu mais recente trabalho, tratam basicamente do mesmo tema: as dificuldades de uma mãe para criar sozinha seu filho adolescente. Mas o abismo de maturidade, dramática e estética, que separa as duas obras é espantoso. Enquanto a boa estreia de Dolan se perdia em meio a uma histeria visual irritante – histeria que, pelo que contam algumas vozes confiáveis, se aprofundou em seus filmes seguintes que não assisti –, Mommy é marcado por um absoluto controle estético de seu diretor e por passagens de imensa força dramática.

Dramaturgia e rigor estético que se fundem de maneira brilhante (ainda que simples) no filme: Dolan filma na razão de aspecto 1:1 personagens encurralados num mundo sem perspectivas, para abrir (ou melhor, escancarar) a tela quando eles têm algum vislumbre de felicidade – e os dois momentos em que isso ocorre estão, desde já, entre os mais lindos do cinema recente. Encanta também o carinho com que o diretor trata seus protagonistas. Deslocados por natureza, Diane (Anne Dorval), Kyla (Suzanne Clément) e Steve (Antoine-Olivier Pilon) formam um comovente núcleo familiar movido à base da loucura deste último. Loucura que condena – as consequências de se viver além das regras são implacáveis –, mas que também liberta.

A impressão que se tem ao assistir Mommy é de estar diante de um veterano filmando, tamanha a qualidade de seu trabalho. Mas Dolan continua sendo Dolan, um jovem de 25 anos que não tem medo de encher seus filmes de maneirismos visuais (o excesso de câmera lenta, por exemplo, que aqui funciona muito bem) e música pop. Tão jovem (na plenitude do termo) quanto seu companheiro de Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, o já octogenário Jean-Luc Godard.   

Mommy 
Mommy, 2014
Xavier Dolan

sábado, 13 de dezembro de 2014

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos


E enfim terminamos de descascar esse abacaxi gigante que é a trilogia O Hobbit. O retorno de Peter Jackson à Terra-Média, pelo qual tantos clamaram depois de o sujeito ter sido tão bem-sucedido na realização de O Senhor dos Anéis, se mostrou um grande erro. Pediram o diretor da trilogia do anel e ganharam o sujeito que fez Um Olhar do Paraíso. Megalomaníaco e autoindulgente, Jackson cometeu erros parecidos com os de George Lucas na segunda trilogia Star Wars: irritou fãs, maltratou o bom gosto cinematográfico e, sobretudo, desconstruiu o próprio mito. Ninguém, em sã consciência, dirá agora que só ele é capaz de dar vida ao mundo de Tolkien no cinema.

A Batalha dos Cinco Exércitos, que encerra essa malfadada trilogia, comete o mesmo erro dos dois filmes anteriores de se alongar muito mais do que deveria. No entanto, se em Uma Jornada Inesperada e A Desolaçãode Smaug grande parte do que acontecia na tela soava como mera enrolação de Jackson, esse novo filme é praticamente todo constituído por uma imensa batalha entre os tais exércitos do título. São duas horas e meia de elfos, anões, orcs e homens se matando... Haja fôlego e paciência para esse aguentar esse clímax eterno! Nesse sentido, lembra Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, igualmente prejudicado por funcionar basicamente como uma conclusão movimentada do que havia sido construído no filme anterior. Mas se lá nos preocupávamos com os jovens bruxos de Hogwarts, aqui não damos a mínima para Thorin e seus 12 companheiros até agora indiferenciáveis, para Tauriel, Legolas, Bard, o que torna A Batalha dos Cinco Exércitos ainda mais enfadonho.

Não que não existam bons momentos no filme. Eles estão lá principalmente quando Bilbo ocupa o centro da trama. É que o hobbit vivido por Martin Freeman representa o tom menor, de aventura inocente que o livro de Tolkien possui e que Jackson equivocadamente trocou pela grandiosidade épica que deveria ligar as duas trilogias. Aliás, esse é provavelmente o maior erro de O Hobbit. Bastavam três horas de uma narrativa com atmosfera de Os Goonies para contar essa história decentemente. Como seria bom ter um Richard Donner na direção desse projeto...


O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos 
The Hobbit: The Battle of the Five Armies, 2014
Peter Jackson

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

De Volta ao Jogo



"Quando a porta se fechou, Don Corleone deu um pequeno suspiro de alívio. Brasi era o único homem no mundo que podia fazê-lo ficar nervoso". E se Luca Brasi, o fiel capanga de Don Corleone, único personagem do universo criado por Mario Puzo capaz de atemorizar o poderoso chefão da máfia de Nova York, se voltasse contra seu Padrinho? Essa é a premissa de De Volta ao Jogo. Ou quase isso.

É que John Wick (Keanu Reeves), protagonista desse filme de ação dirigido pelo estreante Chad Stahelski, exercia para a máfia russa papel semelhante àquele de Brasi para os Corleone, inclusive projetando sobre seu poderoso empregador a mesma sombra de temor e instabilidade descrita por Puzo. Aposentado da carreira do crime para se dedicar à vida conjugal (logo interrompida pela doença fatal da esposa), Wick retorna à ação para se vingar dos responsáveis pela morte de seu cachorrinho. É isso mesmo. O motivo para o banho de sangue que toma conta de De Volta ao Jogo é o cruel assassinato do animal de estimação de seu protagonista – a frase de divulgação do filme poderia ser: "They killed his little puppy". E é justamente no absurdo dessa premissa que reside parte do prazer de assistir ao filme de Stahelski, o que torna um tanto frustrante a inserção, em determinado momento da narrativa, de uma fala explicativa de Wick sobre o significado maior que o animal tinha para ele (já que lhe fora deixado como último presente pela esposa morta). Apesar de já sabermos disso desde o início do filme, é muito mais divertido acompanhar esse "exército de um homem só" (que Reeves encarna com perfeição) em ação creditando tamanha violência simplesmente à morte de seu pequeno companheiro canino.

Escorregadas à parte, De Volta ao Jogo é um filme de ação intenso, envolvente, rápido, certeiro e cheio de estilo. Na construção do visual e do protagonista silencioso e implacável, lembra um pouco o recente Drive, ainda que não chegue ao grau de sofisticação estética do filmaço de Nicolas Winding Refn. Nas excelentes sequências de ação urbana, a referência parece ser o cinema de Michael Mann. Discretamente, sem fazer muito barulho ou criar grandes expectativas, Chad Stahelski estreou na direção de longas-metragens em ótima companhia.


De Volta ao Jogo 
John Wick, 2014
Chad Stahelski

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Interestelar



Todos os problemas do cinema de Christopher Nolan estão presentes em seu novo filme, o ambicioso Interestelar. Diálogos excessivamente expositivos, metáforas de quinta categoria que são marteladas na cabeça do espectador ao longo da narrativa (exemplo: a referência ao personagem bíblico Lázaro, explicada num primeiro momento pelo cientista vivido por Michael Caine, ao, de certa forma, se concretizar posteriormente, tem que ser verbalizada novamente por um personagem, como se o espectador não fosse capaz de se lembrar de algo dito há cerca de uma hora), ação ininterrupta... Nolan se acomodou no êxito – comercial e, em boa medida, crítico – desse seu cinema de tramas supostamente complexas (pero no mucho, já que mastigadas para o público por meio de explicações didáticas) iniciado com O Grande Truque e que tem como exemplos máximos A Origem e esse Interestelar.

Mas não, não sou um Nolan hater. Mesmo reconhecendo esses problemas, gosto de seus filmes. Na maioria das vezes, gosto muito. É que as qualidades de Nolan costumam se sobressair mesmo em seus trabalhos mais problemáticos. Sua ambição, que o leva a realizar filmes originais, de trama intrincada e geralmente muito longos (e sem apelar para artimanhas da indústria atual, como o uso puramente comercial do 3D), não deixa de ser admirável. Também merece elogios sua capacidade de materializar, de forma crível e palatável, conceitos complicados, de difícil explicação, inseridos em universos alternativos estranhos ao nosso mundo – que, logo, necessitam ser apresentados de forma a gerar alguma empatia no espectador, superando o estranhamento inicial. São exemplos, nesse sentido, o mergulho nos sonhos em A Origem, a mistura de truques, ciência e magia de O Grande Truque e as viagens espaciais de Interestelar: geralmente compramos essas loucuras de Nolan, mesmo sem a certeza da compreensão plena da história narrada, muito pela competência do diretor em nos manter com os olhos grudados na tela, sedentos por novas peças fundamentais para a montagem de algum quebra-cabeça.

Mas, sobretudo, o diretor britânico sabe criar grandes momentos. E Interestelar está cheio deles: a emocionante despedida de Cooper (Matthew McConaughey) de seus filhos, por exemplo, sabiamente emendada com o lançamento da missão Endurance – elipsando todo um possível treinamento pelo qual os personagens passaram e cuja apresentação seria de fato desnecessária para o filme, o que por si só já demonstra certo avanço no cinema de Nolan, também conhecido por mostrar o que não precisa ser mostrado (como esquecer o estúpido último plano de Bruce Wayne em O Cavaleiro das Trevas Ressurge?) –, cria uma bonita associação entre a saída de casa do protagonista e a partida rumo à escuridão do espaço; a travessia do “buraco de minhoca”, a passagem pelo planeta aquático e a fuga do planeta do Dr. Mann, que culmina na acoplagem em movimento entre duas naves, também impressionam pela construção da tensão e criatividade visual de Nolan. Há ainda o clímax no buraco negro, que, criticado por muitos, representa, a meu ver, um interessante flerte do diretor com o absurdo, rompendo em alguma medida com a lógica excessivamente racional de seus filmes. Só não entendo o porquê da boba descoberta da identidade do “fantasma” pela personagem de Jessica Chastain, algo inclusive desnecessário para os rumos tomados pela trama a partir dali.  

Ainda que assentado nas características mais marcantes do cinema de seu diretor, Interestelar talvez seja o passo mais arriscado da carreira de Christopher Nolan. Sobretudo porque o diálogo aqui se dá, inevitavelmente, com grandes clássicos da ficção-científica, principalmente, claro, 2001:Uma Odisseia no Espaço. Reconhecidas as diferenças abismais entre as obras de Kubrick e Nolan – enquanto o primeiro era um cineasta das imagens, mestre na conjugação perfeita delas com a música, o segundo, com seu profundo apego a diálogos expositivos, se mostra descrente na capacidade das imagens de constituir narrativas por si só –, me parece incontornável o fato de que o cultuado diretor britânico conseguiu, como o gênio novaiorquino em 1968, dar conta de construir uma experiência magnífica, grandiosa e quase transcendental ao visitar o espaço.


Interestelar 
Interstellar, 2014
Christopher Nolan