quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Origem



Christopher Nolan é um grande entertainer. Talvez o maior da Hollywood atual. O diretor incorpora tudo aquilo que a dupla de protagonistas de um de seus melhores filmes, O Grande Truque, buscava produzir: entretenimento de qualidade agregado a uma imensa capacidade de instigar. Nolan é um desafiador de plateias, mas não deixa de ser, em nenhum momento, parte do mainstream. A Origem é uma mostra perfeita disso. É, antes de qualquer coisa, um gigantesco e megalomaníaco filme de ação, com um ritmo ininterrupto, vertiginoso, bem próximo ao de seu último trabalho, a obra-prima O Cavaleiro das Trevas. E, como tal, é irretocável: é dono de uma narrativa absurdamente tensa e envolvente, que faz suas quase 2 horas e meia de duração passarem voando, e de algumas sequências de cair o queixo (Paris dobrando-se sobre si mesma é a melhor delas).

Ao mesmo tempo, o filme é construído sobre um roteiro que busca, a todo o tempo, provocar o espectador, confundi-lo (mas não muito), surpreendê-lo. Não é, de forma alguma, um filme preguiçoso, repetidor de fórmulas de sucesso, por mais que a ousadia de Nolan tenha limites, e A Origem nunca trabalhe excessivamente no campo do absurdo (algo que seria bastante plausível, em se tratando de um filme sobre sonhos). Um bom exemplo disso é o uso, esperado, de uma personagem como alter-ego da plateia, alguém para quem todos os passos do que acontece na tela será explicado - aqui, interpretada por Ellen Page. Esse é um recurso válido e compreensível e, justiça seja feita, Nolan o utiliza com parcimônia, passando longe de um didatismo em excesso, mas, ainda assim, é uma demonstração de que o diretor não está disposto a radicalizar demais na sua abordagem do tema. O que se tem em A Origem é algo muito mais próximo de um Matrix do que de um Cidade dos Sonhos, por exemplo. Christopher Nolan não é David Lynch, e nem quer ser, e isso não é demérito algum.

No entanto, em algo Nolan e Lynch se aproximam, se esbarram: ambos sabem como tornar empáticos personagens e situações frequentemente confusas, inexplicáveis (ao menos à primeira vista). Os dois diretores se preocupam muito com a construção dos dramas das figuras que permeiam seus filmes, dramas que, muitas vezes, tomam conta da narrativa, se sobrepondo mesmo aos seus mistérios e reviravoltas. Era difícil não se envolver e comover com a personagem de Naomi Watts em Mulholland Drive, mesmo quando não tinhamos a menor ideia do que estava acontecendo com ela. E, em A Origem, é igualmente difícil desprender-se da tragédia vivida por seu protagonista (interpretado por um Leonardo DiCaprio perfeito). Em meio a tantas explosões, tiros, correria, explicações, reviravoltas, o momento chave do filme de Nolan, aquele que dá um nó na garganta do espectador, é justamente quando o passado trágico do personagem de DiCaprio é revelado, num belíssimo flashback ao lado de Marion Cotillard. É ali que todo o filme se justifica. E é ali que Christopher Nolan confirma o que muitos parecem saber, mas poucos colocam realmente em prática: entretenimento, sem alma, sem o elemento humano, cai rapidamente no esquecimento. Felizmente, esse não é o caso.


A Origem 
Inception, 2010
Christopher Nolan


6 comentários:

Alexandre Carlomagno disse...

Concordo contigo: Nolan é um grande diretor; sempre foca na diversão do público, mas nunca de uma maneira insossa, burra e sem graça. Já "A Origem", não rola... Enfilizmente, achei fraco demais.

Um forte abraço.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Alexandre, achei que, por concordar comigo sobre o Nolan, concordaria também sobre A ORIGEM. Acho que o filme é o ápice do "entretenimento inteligente" na carreira do diretor.

Vivi Ferreira disse...

vou ver esse filme hoje...o tiaguito viu e amou (como ele mesmo pos no blog)...expectativas mil!
bjussssssss

p.s: lá no blog tem sorteio de brindes, dá uma passadinha lá...bjusssss

CiNe ViTa disse...

O sentimento ao fim é claro: o de revisão. Não só para absorver todas aquelas minúcias e consolidar teorias, mas para simplesmente sentir tudo aquilo novamente. Aplaudo de pé.

Wallace Andrioli Guedes disse...

É, eu também preciso ver de novo...

Rafael Carvalho disse...

Acho muito válido que Hollywood tenha um diretor como o Nolan por lá, porque faz entretenimento de qualidade. Gosto muito de A Origem, mas não a ponto de colocá-lo entre os melhores do ano, por exemplo. Mas só por fazer um fime comercial altamente inteligente, já está de parabéns. Que ele continue assim!