terça-feira, 10 de março de 2009

[entre os muros da escola]

Entre os Muros da Escola
Entre les Murs, 2008
Laurent Cantet


Nos últimos quatro anos, o Festival de Cannes premiou três filmes que guardam algumas semelhanças entre si: A Criança, dos irmãos Dardenne, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Christian Mungiu, e, por último, esse Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet. São todos filmes pequenos, que têm jovens como protagonistas e, principalmente, que adotam uma estética realista, quase documental. Tratam de temáticas completamente diferentes, é verdade, mas associá-los entre si não é uma tarefa muito difícil. Até porque, os três também compartilham uma bem-vinda característica: são filmes excepcionais.
No caso de Entre os Muros da Escola, a adoção de tal estética faz um bem enorme à suas intenções. Trata-se de um filme passado em uma escola problemática de Paris, e que aborda a relação de um professor de francês com sua heterogênea e complicada turma, e filmes com um tema desses costuma gerar bobagens piegas: quem não conhece ao menos um filme, provavelmente norte-americano, sobre um professor ou professora que assume uma turma desordeira e se torna amigo (a) desses alunos, mudando seu comportamento radicalmente? Pois bem, quem assistir a Entre os Muros da Escola esperando encontrar algo assim irá se decepcionar profundamente. Essa não é a proposta de Cantet. Seu olhar minucioso, sua câmera discreta, mas sempre no lugar certo, está ali para apresentar, com um acertado toque de realidade, as nuanças das relações que se estabelece entre professor e seus alunos, especialmente quando se trata de uma turma composta por imigrantes chineses, descendentes de marroquinos, argelinos etc. E é impressionante o poder que esse olhar de Cantet possui, a força que essa câmera pouco intrusiva é capaz de liberar. Sem pieguices, sem grandes clichês do gênero, esse multiculturalismo explode na tela, as tensões se exacerbam, e aquela turma do professor Marin se torna um assustador micro-cosmo da sociedade francesa. Em alguns momentos, me lembrei do filme O Ódio, de Mathieu Kassovitz (do qual gosto bastante), sobre a periferia parisiense, e é impressionante como o trabalho de Kassovitz mingua quase completamente, em sua vontade de ser cool e chocante ao mesmo tempo, diante da abordagem de Entre os Muros da Escola.
No entanto, por mais que o olhar cultural de Cantet esteja voltado para seu país, é impossível para qualquer pessoa que já tenha experimentado um dia colocar-se em frente a uma turma em uma sala de aula, não se identificar com aquela história, com aquelas dramas, e com as inúmeras questões que parecem simplesmente insolucionáveis. Não há redenção, não há lições de moral – e uma cena maravilhosa deixa isso bem claro, quando uma personagem, praticamente uma figurante durante toda a narrativa, se aproxima do professor vivido pelo excepcional François Bégaudeau para se abrir, constatar dolorosamente que não aprendeu nada naquele ano letivo – não há Robin Williams ou Sidney Poitier. Há somente a dura e contundente realidade escolar, absurdamente semelhante em sociedades das mais diversas. Um filme urgente e, em sua urgência, magnífico.

5 comentários:

Vinícius P. disse...

Estou mais do que ansioso para ver esse filme. Todo ano acompanho as críticas dos longas exibidos em Cannes e fico super curioso para conferi-los, pena que demoram tanto para chegar ao Brasil.

CHICO FIREMAN disse...

Wallace, se puder leia uma entrevista que o autor-ator deu à Folha, edição de ontem. Ele quebra muito do que se diz sobre o filme.

Chico.

Weiner disse...

Bastante ansioso acerca deste projeto, já que sua repercussão foi notável e (provavelmente) merecedora. Surpeendeu-me vê-lo preterido no César, que teve como vencedor Seraphine. A trama é pertinente e parece bem interessante, até mesmo porque o cinema americano não foi muito feliz ao levar histórias do tipo às telas, caindo no óbvio e clichê a grande maioria das vezes.
E, puxa, quero conferir "A Criança", dos Dardenne!
Abraço, garoto!

Diego Rodrigues disse...

Cara, não tô conseguindo direito ver as estréias da semana

mas enfim, tem selo pra ti lá no meu blogue - mais de 4, na realidade.

Abraço, amigo!

Rafael Carvalho disse...

À distância, não parecia o tipo de filme que me agrada, acho difícil fazer um filme sobre professores e alunos sem cair no clichê. Mas me parece que esse filme conseguiu se sobresair. Na expectativa para ver.