No Letterboxd, o ranking com todas as estreias do ano que consegui ver, nos cinemas ou por outros meios.
sábado, 30 de dezembro de 2017
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Filmes superestimados de 2017
Estes não são filmes necessariamente ruins. Pelo contrário, até. Mas todos eles foram excessivamente louvados, acima do que mereciam. Por vezes, inclusive, ganhando prêmios importantes, como uma Palma de Ouro em Cannes e melhor direção nesse mesmo festival. Superestimados, enfim. São eles, por ordem de lançamento nos cinemas brasileiros:
Eu, Daniel Blake, de Ken Loach
Logan, de James Mangold
O Estranho que Nós Amamos, de Sofia Coppola
Bingo - O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
terça-feira, 31 de outubro de 2017
31 anos, 31 filmes
Em 2016, ao completar 30 anos de idade, publiquei aqui no blog um ranking com meus 30 filmes favoritos lançados desde 1986, ano em que nasci. A partir de agora, transformo esse ranking em permanente, anualmente atualizado (e sempre acrescido de mais uma vaga). A ideia é também acompanhar um pouco a evolução da minha cinefilia, conforme busco contato com novas cinematografias e, claro, revisito filmes queridos ou subestimados por mim no passado. A lista que apresento agora, por exemplo, já vem bastante marcada por meu recente contato com o novo cinema taiwanês, sobretudo com as obras de Edward Yang e Hou Hsiao-Hsien. Esses são, então, meus 31 filmes favoritos dos últimos 31 anos:
31- Caché
Caché, 2005
Michael Haneke
30- Gran Torino
Gran Torino, 2008
Clint Eastwood
29- Felizes Juntos
Chun Gwong Cha Sit, 1997
Wong Kar-Wai
28- Cópia Fiel
Copie Conforme, 2010
Abbas Kiarostami
27- Fogo Contra Fogo
Heat, 1995
Michael Mann
26- A Fraternidade é Vermelha
Trois Couleurs: Rouge, 1994
Krzysztof Kieslowski

25- Encontros e Desencontros
Lost in Translation, 2003
Sofia Coppola

24- Elefante
Elephant, 2003
Gus Van Sant
23- Onde os Fracos Não Têm Vez
No Country for Old Men, 2007
Ethan Coen e Joel Coen
22- O Silêncio dos Inocentes
The Silence of the Lambs, 1991
Jonathan Demme
21- Além da Linha Vermelha
The Thin Red Line, 1998
Terrence Malick
20- Um Olhar a Cada Dia
To Vlemma Tou Odyssea, 1995
Theo Angelopoulos
19- Drácula de Bram Stoker
Bram Stoker's Dracula, 1992
Francis Ford Coppola
18- Nascido para Matar
Full Metal Jacket, 1987
Stanley Kubrick
17- Los Angeles - Cidade Proibida
L.A. Confidential, 1997
Curtis Hanson
16- De Olhos Bem Fechados
Eyes Wide Shut, 1999
Stanley Kubrick
15- Millenium Mambo
Millenium Mambo, 2001
Hou Hsiao-Hsien

14- Estrada Perdida
Lost Highway, 1997
David Lynch
13- A Cidade das Tristezas
Beiqíng Chéngshì, 1989
Hou Hsiao-Hsien

12- Os Terroristas
Kong Bu Fen Zi, 1986
Edward Yang
11- O Jogador
The Player, 1992
Robert Altman
10- As Coisas Simples da Vida
Yi Yi, 2000
Edward Yang

9- Showgirls
Showgirls, 1995
Paul Verhoeven
8- O Poderoso Chefão 3
The Godfather - Part III, 1990
Francis Ford Coppola
5- Os Bons Companheiros
Goodfellas, 1990
Martin Scorsese
4- Asas do Desejo
Der Himmel über Berlin, 1987
Wim Wenders
3- Pulp Fiction - Tempo de Violência
Pulp Fiction, 1994
Quentin Tarantino
2- O Sacrifício
Offret, 1986
Andrei Tarkóvski
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
It: A Coisa
Faz bastante sentido que It: A
Coisa, um dos livros mais celebrados de Stephen King, enfim ganhe uma
adaptação cinematográfica em 2017 (a conhecida versão audiovisual anterior,
protagonizada por Tim Curry, foi na verdade produzida como minissérie para a TV
americana). O imenso sucesso de Stranger
Things no ano passado, tendo como uma de suas matrizes justamente a
literatura de King, parece ter indicado o tom a ser adotado nesse aguardado filme:
foco na dinâmica entre os personagens adolescentes deslocados do mundo adulto e
do mainstream escolar, em seus medos
e angústias e no senso de aventura que os move diante do extraordinário,
recuperando certo espírito oitentista que remete a Conta Comigo (aliás, também inspirado num conto de King) e às
produções da Amblim Entertainment (como E.T.,
Os Goonies e Poltergeist); o horror usado como contraponto trágico a esses
sentimentos, como meio de iniciação brutal na vida adulta.
Dirigido por Andy Muschietti, do
irregular Mama, It utiliza com precisão
esses elementos. O Loosers Club
formado por seus protagonistas é a força principal do filme, espaço de produção
de empatia, humor e alguma dose de drama. Vem daí os melhores momentos de It,
com os garotos e a garota se conhecendo, tirando sarro uns dos outros,
construindo um comovente círculo de proteção mútua contra a brutalidade do
mundo externo.
O horror, por sua vez, é o elo fraco
da narrativa, ou ao menos não é tão forte quanto prometia ser. As aparições de
Pennywise (Bill Skarsgard), ao longo da primeira hora, para cada um dos
protagonistas soam episódicas e forçadas: sem maior organicidade ou lógica,
elas existem simplesmente para que todos eles possam compartilhar, numa
determinada cena, suas respectivas experiências com o palhaço demoníaco. Muschietti
também falha na criação de um clima verdadeiramente macabro, opressivo, quando a
trama pede isso dele. Se visualmente seu filme, inclusive no uso de alguns
efeitos de CGI, se assemelha ao cinema de James Wan, no aspecto anteriormente
citado It passa longe de obter os resultados de um Invocação do Mal, por exemplo. E o
próprio Pennywise parece subaproveitado em sua condição circense, sendo,
durante quase todo o tempo, puramente um monstro, desprovido do senso de humor
cruel que se poderia esperar de tal figura – são poucas as cenas nas quais
Skarsgard deixa vir à tona essa característica.
Mas talvez o que mais incomode seja a falta de atenção
do filme para a dor que atravessa a fictícia cidade de Derry, diante da
tragédia dos sucessivos desaparecimentos de crianças. Há um momento em que um
dos protagonistas observa a sobreposição de cartazes dessas crianças
desaparecidas e comenta que é como se elas fossem sendo esquecidas, substituídas
nas preocupações locais pela vítima mais recente. Trata-se de uma bela
reflexão, no entanto, It acaba assumindo postura
semelhante com seus personagens tidos como menos importantes, já que, com exceção
do irmão de Bill (Lieberher), as vítimas de Pennywise vão se acumulando na
história sem que o espectador saiba qualquer coisa sobre elas ou realmente
lamente seu destino.
It, 2017
Andy Muschietti
terça-feira, 22 de agosto de 2017
A Torre Negra
Mesmo sem ler uma linha da saga literária
A
Torre Negra, de Stephen King, é possível, diante de sua primeira
adaptação cinematográfica, reconhecer o potencial que carrega. Há claramente,
por exemplo, um universo e uma mitologia bem delineados por King, alicerçados
numa interessante mistura de referências à fantasia, à ficção-científica e ao western. No entanto, o filme dirigido
por Nikolaj Arcel (do ótimo O Amante da
Rainha) segue o caminho da construção de uma narrativa apressada, na qual
são oferecidas poucas chances de conhecer realmente os personagens e o mundo
pelo qual eles transitam. O Pistoleiro (Idris Elba), seu antagonista Homem de
Preto (Matthew McCounaghey), o garoto Jake (Tom Taylor) e sua família surgem
como clichês ambulantes (o herói silencioso e arredio, mas de bom coração; o
adolescente deslocado que carrega um grande poder ainda não descoberto; a mãe
dedicada e sofrida; o padrasto babaca e egoísta), disparando uma sucessão de
diálogos expositivos e/ou ruins (sobretudo os dois primeiros sujeitos, que têm
a função de apresentar ao espectador as regras da tal Mid-Land). Ao menos
McCounaghey convence no papel de um vilão sem nenhuma nuance, absolutamente
cruel, ainda que a ele também sejam dadas poucas chances para realmente se
destacar em cena.
É essa pressa o maior pecado de A
Torre Negra. Tudo no filme parece mal explicado, lançado de qualquer
maneira na narrativa: a tribo que de repente existe em meio a um lugar que aparentava
ser totalmente desolado, as diferentes criaturas que trabalham para o Homem de
Preto, os tais monstros que esse último pretende libertar etc. Mesmo uma breve
referência à vinculação entre as armas do pistoleiro e a espada Excalibur soa
como algo meticulosamente pensado pelo autor dos livros que acaba perdido numa
história mal contada. Pelo que consta, King mirou em O Senhor dos Anéis quando se dedicou a criar A Torre Negra. O filme de
Arcel, por sua vez, ao optar por ser uma aventura rasteira, esquecível,
inofensiva e nada preocupada com qualquer desenvolvimento mais complexo de sua
mitologia, lembra mais Percy Jackson e o
Ladrão de Raios (2010), aventura de fantasia infanto-juvenil baseada em
outro best-seller literário.
É uma pena que mais um diretor estrangeiro
aparentemente talentoso, ao migrar para Hollywood após ter um filme seu
indicado ao Oscar, desapareça num projeto grandioso como esse, no qual não lhe
é dado espaço para imprimir olhar próprio. Ele se junta assim, por exemplo, aos
alemães Florian Henckel von Donnersmarck
(de A Vida dos Outros, que nos
Estados Unidos fez O Turista), Oliver
Hirschbiegel (de A Queda, contratado
para dirigir Invasores, enésima e
insossa versão de Invasion of the Body
Snatchers) e ao brasileiro Walter Salles (que após Central do Brasil e Diários
de Motocicleta estreou em Hollywood com o bom, mas bastante impessoal, Água Negra, remake do horror japonês homônimo).
The Dark Tower, 2017
Nikolaj Arcel
domingo, 20 de agosto de 2017
2ª MOCINA
Ao longo da última semana,
participei, como membro do júri de filmes de ficção, da 2ª Mostra de Cinema e
Audiovisual (MOCINA) da Universidade Federal de Juiz de Fora. Naturalmente, a
maioria das produções nasceu como trabalhos de conclusão de disciplinas
cursadas pelos realizadores, alunos de cinema ou de áreas afins, mas chamaram
atenção também a presença na mostra de alguns filmes feitos por impulso, como respostas
imediatas a anseios do cotidiano. São os casos de Um Filme-Postal, de Thaiz Araujo Freitas, que, como anunciado no
título, é uma carta em forma fílmica de sua diretora a um antigo amor, o
sganzerliano O Vampiro da Ocupação,
de Bruna Schelb Corrêa, feito no contexto de uma ocupação por estudantes da
reitoria da UFJF, e Sábado Fun, que a
dupla Marize Moreno e Noah Mancini filmou para preencher um dia de tédio
pós-término das aulas.
Mas aqueles que considero os
melhores curtas vistos nessa edição da MOCINA são, todos, filmes mais
previamente pensados, que mobilizaram referências explícitas e articuladas a
outras obras artísticas (literárias, pictóricas ou cinematográficas). Cito um
em cada umas das categorias que compunham a mostra (documentário, ficção e
experimental). Na primeira, merece destaque Pele
de Monstro, de Barbara Maria, que exibe para diferentes grupos de jovens
dois clássicos de horror, A Noite dos
Mortos-Vivos (1968), de George A. Romero, e Mortos que Matam (1964), de Ubaldo Ragona e Sidney Salkow,
propondo, a partir deles, reflexões sobre racismo. Em tempos de pós-horror, é uma poderosa lembrança de
que a força política desse gênero não nasceu agora.
Na segunda categoria, ficção,
vale citar A Casa do Enforcado, de
João Pedro Oct, que impressiona pelo esmero visual e pela capacidade de criar
uma atmosfera opressiva, associada à loucura (mas também à criação artística), remetendo
a Bergman (especialmente a Através de um
Espelho, de 1961). O impactante plano final, no entanto – que, juntamente
com o título, revela estar num quadro de Cézanne a principal referência de Oct –,
faz lembrar o encerramento de Solaris
(1972), de Andrei Tarkóvski. Não é fácil trabalhar a partir de referências tão
grandiosas (no debate pós-exibição, o diretor ainda citou Hitchcock), mas A Casa do Enforcado consegue
amalgamá-las e usá-las com competência, resultando numa experiência perturbadora
e hipnotizante.
Por fim, na categoria
experimental, destaco Azul Supapo da Cor
da Minha Janela, de Thaís H. Pacheco, Stella Reis, Helena Frade e Lucas
Pinto Mendonça. Inspirado em um conto de Guimarães Rosa, o filme, que acompanha
um homem de mente perturbada em inusitadas relações com seu chapéu, é fugidio,
escorregadio, de difícil acesso. Mas acerta em cheio na criação de uma
atmosfera lúgubre – me lembrou um pouco, ao menos na escolha do espaço em que
transcorre a narrativa e na relação estabelecida com ele, o ótimo Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois
(2015), de Petrus Cariry – e no estranhamento que nasce daí.
Em tempo: Pele de Monstro e Azul Supapo
da Cor da Minha Janela foram exibidos fora de competição. A Casa do Enforcado foi eleito, pelo
júri, o melhor filme de ficção da 2ª MOCINA.
domingo, 6 de agosto de 2017
Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
Com Valerian e a Cidade dos Mil
Planetas, Luc Besson retorna à ficção-científica, gênero no qual fez,
há exatos vinte anos, o ótimo O Quinto
Elemento e com o qual flertou no recente Lucy. Mas, diferentemente desses dois filmes, marcados por
admiráveis rompantes de criatividade – Lucy,
sobretudo, é totalmente contaminado por uma lógica do absurdo que é levada a
extremos bem interessantes –, Valerian peca por simplesmente
condensar em sua narrativa elementos de célebres sci-fis, emulando-as sem conseguir repetir sua qualidade: o casal
de protagonistas (Dane DeHaan e Cara Delevingne) seguem uma dinâmica à lá Han
Solo e Leia na trilogia original Star
Wars, com o primeiro se comportando como uma espécie de cafajeste arrogante
e de bom coração empenhado em conquistar a segunda, que, por sua vez, o rechaça
repetidamente (quando, na verdade, quer ceder a seus encantos); já os
alienígenas ameaçados de extinção, centro do mistério em torno do qual a
narrativa se move, se assemelham bastante, na aparência física (apesar de não
serem azuis), no estilo de vida e nos riscos que correm, aos Na’vi de Avatar.
O problema nem é mirar nesses
grandes filmes do gênero, mas achar que fazer isso é o suficiente para tornar Valerian
bom. Os protagonistas são pobremente desenvolvidos e repetidores de uma série
de diálogos tolos (as constantes tiradas entre eles são absolutamente irritantes)
– e Delevingne, que no ano passado roubou a cena, no pior sentido imaginável,
em Esquadrão Suicida, aqui novamente
se revela totalmente privada de carisma. Já o segmento mais experiente do
elenco pouco pode fazer: Ethan Hawke e Rutger Hauer têm papeis mínimos e nada
memoráveis, que funcionam mesmo como cameos;
Clive Owen interpreta um personagem de motivações não muito claras, que, quando
reveladas, o são de forma bastante apressada, recaindo num belicismo
maniqueísta e previsível. Aliás, o epílogo de Valerian se dá na base da
velha e inverossímil estratégia da pausa na narrativa para que todas as ações
do vilão sejam didaticamente explicadas, inclusive com a utilização de flashbacks deselegantes que revisitam
cenas anteriormente mostradas, revelando sua presença nelas como agente do mal.
Por fim, o que há de bom no filme
de Besson: o prólogo. Bem antes de insinuar qualquer apresentação de seus
protagonistas insuportáveis, o diretor se dedica a comentar a evolução da
exploração do espaço pelos humanos por meio de uma montagem que, ao som de “Space
Oddity”, traz diferentes encontros promovidos na Estação Espacial Internacional:
inicialmente, entre povos da Terra, mas, conforme o tempo avança, incluindo
também alienígenas. Fica claro, com esse início, o salto que Valerian
propõe entre a realidade e a fantasia, dado de forma bem-humorada e verossímil.
Se continuasse adepto dessa simplicidade criativa, o filme provavelmente seria
bem melhor. Na verdade, a sequência seguinte, da destruição do planeta Mül, é
também bem construída. E o mesmo vale para aquela que acompanha pela primeira
vez uma missão da dupla Valerian e Laureline, num mercado localizado em outra
dimensão (mas que parece situado em Tattooine). Daí em diante, no entanto, Valerian
desce a ladeira.
Valerian and the City of a Thousand Planets, 2017
Luc Besson
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
sábado, 29 de julho de 2017
O Filme da Minha Vida
Selton Mello chega ao terceiro
longa como diretor bastante distante do que prometia ser seu cinema no início,
em Feliz Natal (2007). O componente
fortemente visceral, que ele próprio dizia buscar em Cassavetes, foi trocado
pela doçura no belo O Palhaço (2012),
característica agora acentuada em O Filme da Minha Vida. Trata-se aqui
de um filme mergulhado em nostalgia, que tenta, pelo cinema (referência
presente no título e no espaço físico da sala que exibe Rio Vermelho, de Howard Hawks), evocar memórias do passado de
descobertas, próprias da juventude, do protagonista Tony (Johnny Massaro): a
relação conturbada com o pai ausente (Vincent Cassel), a iniciação sexual e o
primeiro grande amor.
O problema de O
Filme da Minha Vida é que há, nesse movimento em direção à nostalgia,
um excesso de preocupação com ser sublime, transcendental, poético. Chama muita
atenção o contraponto entre as imagens fotografadas por Walter Carvalho, milimetricamente
calculadas para alcançar uma beleza extrema, e a absoluta simplicidade da
história contada. Falta, talvez, o mesmo esmero no desenvolvimento das relações
entre os personagens (aquele interpretado pelo próprio diretor, por exemplo,
tem a princípio relativo destaque na trama, até ser, repentinamente,
descartado) e na construção de uma narrativa mais sofisticada. Ou, então, que
se abraçasse essa simplicidade sem nenhuma vergonha, evitando a exuberância visual
excessiva e as muitas frases de efeito pretensamente profundas.
Ao menos, justiça seja feita, O
Filme da Minha Vida tem o mérito de abraçar o cinema, de se declarar
desavergonhadamente a essa arte em toda sua artificialidade. Algo que alguns
filmes brasileiros recentes ou não conseguem fazer, reproduzindo muito mais
estética e linguagem televisivas, ou parecem ter vergonha de fazer, apostando
num realismo duro, na aridez absoluta como único caminho possível de ser
seguido. Como as tantas comédias da Globo Filmes, que se parecem entre si em
sua absoluta falta de criatividade narrativa e visual, tais filmes sérios caem no mesmo problema, apenas
com o sinal da pretensão trocado. Não é o caso de O Filme da Minha Vida,
felizmente.
Selton Mello, 2017
sábado, 22 de julho de 2017
Em Ritmo de Fuga
Como Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, Em Ritmo de Fuga tem em Caçada de Morte (1978), de Walter Hill,
uma importante fonte de inspiração. Baby (Ansel Elgort), seu protagonista, é da
mesma linhagem cool dos homens sem
nome que, como ele, dirigem para quadrilhas de criminosos, nos filmes de Refn e
Hill. Mas, aqui, Edgar Wright repagina esse universo, apostando não na estilização
visual e na narrativa lacônica de Drive,
mas na impressão de um ritmo acelerado e na construção de uma atmosfera mais pop, bastante próxima do cinema jovem
contemporâneo – e do que o próprio Wright já fez na carreira. Por exemplo:
enquanto os motoristas dos dois filmes anteriores mantêm-se calados quase o
tempo todo, cultivando uma postura misteriosa e distante, Baby tem
características semelhantes justificadas pelo hábito/necessidade de estar
constantemente ouvindo músicas com fones de ouvido, músicas essas que costuram Em Ritmo
de Fuga, ditando a aceleração da ação em cena; ao mesmo tempo, esse é
um personagem mais emocional, com um passado traumático e um futuro romântico para
causar empatia.
É interessante observar a existência
de certo fetiche com esse tipo de figura, que, no caso desses filmes, não se
confunde com fetiche pelos carros em si, tratados apenas como instrumentos de
um trabalho realizado com brilhantismo – ele sim extremamente valorizado. Os
motoristas de Caçada de Morte, Drive e Em Ritmo de Fuga passeiam
pelo mundo do crime, mas permanecem um pouco à margem dele, nunca se
reconhecendo totalmente como bandidos (e os filmes também não parecem muito
dispostos a reconhecê-los dessa forma). Assim, é permitido ao espectador torcer
por tais personagens, até porque todos os três têm seu momento de embate com um
verdadeiro vilão, um criminoso stricto
sensu – especificamente em Caçada de
Morte, o policial interpretado por Bruce Dern também coloca um pé no crime,
mas é apresentado por Hill como um sujeito muito pior que o protagonista; Em Ritmo de Fuga, por sua vez, conta não com um grande adversário do protagonista, mas com algumas figuras ameaçadoras que, em diferentes momentos do filme, exercem esse papel, sendo o psicopático Bats (Jamie Foxx) quem mais se aproxima da posição de nêmesis de Baby.
Trata-se, enfim, de um exemplar característico
do cinema de Wright, que se aproxima tanto de Todo Mundo Quase Morto (2004) e Chumbo
Grosso (2007), na atitude ao mesmo tempo satírica e reverencial ao gênero no
qual se inspira, quanto de Scott Pilgrim
Contra o Mundo (2010), na aposta no romantismo adolescente pop como elemento empático. Talvez falte
um pouco da criatividade visual desse último filme de Wright, ainda o ponto
mais alto de sua carreira, o que, no entanto, de certa forma é compensado pelo trabalho
sonoro primoroso de Em Ritmo de Fuga, que faz das músicas ouvidas por Baby peça
fundamental na condução da narrativa.
Baby Driver, 2017
Edgar Wright
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