quarta-feira, 6 de setembro de 2017

It: A Coisa


Faz bastante sentido que It: A Coisa, um dos livros mais celebrados de Stephen King, enfim ganhe uma adaptação cinematográfica em 2017 (a conhecida versão audiovisual anterior, protagonizada por Tim Curry, foi na verdade produzida como minissérie para a TV americana). O imenso sucesso de Stranger Things no ano passado, tendo como uma de suas matrizes justamente a literatura de King, parece ter indicado o tom a ser adotado nesse aguardado filme: foco na dinâmica entre os personagens adolescentes deslocados do mundo adulto e do mainstream escolar, em seus medos e angústias e no senso de aventura que os move diante do extraordinário, recuperando certo espírito oitentista que remete a Conta Comigo (aliás, também inspirado num conto de King) e às produções da Amblim Entertainment (como E.T., Os Goonies e Poltergeist); o horror usado como contraponto trágico a esses sentimentos, como meio de iniciação brutal na vida adulta.

Dirigido por Andy Muschietti, do irregular Mama, It utiliza com precisão esses elementos. O Loosers Club formado por seus protagonistas é a força principal do filme, espaço de produção de empatia, humor e alguma dose de drama. Vem daí os melhores momentos de It, com os garotos e a garota se conhecendo, tirando sarro uns dos outros, construindo um comovente círculo de proteção mútua contra a brutalidade do mundo externo.

O horror, por sua vez, é o elo fraco da narrativa, ou ao menos não é tão forte quanto prometia ser. As aparições de Pennywise (Bill Skarsgard), ao longo da primeira hora, para cada um dos protagonistas soam episódicas e forçadas: sem maior organicidade ou lógica, elas existem simplesmente para que todos eles possam compartilhar, numa determinada cena, suas respectivas experiências com o palhaço demoníaco. Muschietti também falha na criação de um clima verdadeiramente macabro, opressivo, quando a trama pede isso dele. Se visualmente seu filme, inclusive no uso de alguns efeitos de CGI, se assemelha ao cinema de James Wan, no aspecto anteriormente citado It passa longe de obter os resultados de um Invocação do Mal, por exemplo. E o próprio Pennywise parece subaproveitado em sua condição circense, sendo, durante quase todo o tempo, puramente um monstro, desprovido do senso de humor cruel que se poderia esperar de tal figura – são poucas as cenas nas quais Skarsgard deixa vir à tona essa característica.

Mas talvez o que mais incomode seja a falta de atenção do filme para a dor que atravessa a fictícia cidade de Derry, diante da tragédia dos sucessivos desaparecimentos de crianças. Há um momento em que um dos protagonistas observa a sobreposição de cartazes dessas crianças desaparecidas e comenta que é como se elas fossem sendo esquecidas, substituídas nas preocupações locais pela vítima mais recente. Trata-se de uma bela reflexão, no entanto, It acaba assumindo postura semelhante com seus personagens tidos como menos importantes, já que, com exceção do irmão de Bill (Lieberher), as vítimas de Pennywise vão se acumulando na história sem que o espectador saiba qualquer coisa sobre elas ou realmente lamente seu destino.



It: A Coisa 
It, 2017
Andy Muschietti

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