quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Amantes



Cumplicidade é a palavra chave para entender Amantes. James Gray tem nas mãos a história de um homem dividido entre dois amores, que poderia muito facilmente ser julgado pelo público, taxado de egoísta, covarde, acomodado. Mas ele filma os percalços e inseguranças do triste personagem de Joaquin Phoenix com delicadeza e carinho, buscando compreender cada nuance de sua dor, cada pequeno elemento que justifica suas dúvidas quanto a qual caminho seguir. Não há espaço para qualquer tipo de julgamento no olhar de Gray.

Cumplicidade é também o que há entre o diretor e Phoenix, seu parceiro habitual. Em seu terceiro trabalho juntos (os outros foram o mediano Caminho sem Volta e o espetacular Os Donos da Noite), um parece querer presentear o outro a todo momento: Gray entrega ao ator um personagem extremamente complexo, sujeito apaixonante em sua melancolia, em sua esperança contida e desesperada e mais ainda em seus poucos momentos de verdadeira felicidade (é difícil não sentir-se contagiado pelo sorriso de Leonard ao anunciar seu destino, já próximo ao final do filme, à sua mãe, vivida por Isabella Rosselini), além de um bocado de cenas belíssimas (quase todos os momentos do ator com Gwyneth Paltrow são excepcionais, especialmente os dois em cima de um telhado); Phoenix retribui com uma das melhores interpretações de sua carreira. É difícil definir onde termina o mérito de um e começa o do outro.

Essa cumplicidade é coroada com um delicado epílogo, no qual se caminha de uma tragédia anunciada para uma possibilidade de recomeço que, dadas as circunstâncias, soa como mais do que merecida – ainda que, por outro lado, carregue em si também um lado triste. Afinal, o quanto de expectativas e projetos frustrados não estão embutidos naquela frase final do personagem de Phoenix? Amantes é um trabalho de gigantes.


Amantes 
Two Lovers, 2008
James Gray

8 comentários:

Hélio disse...

Concordo com tudo. O James Gray é um dos melhores cineastas americanos da atualidade e pouca gente se dá conta. Legal vc tb ter achado Os Donos da Noite espetacular pq deve ser um dos filmes mais subestimados da década. So nao acho The Yards mediano. É muito bom, mas nao chega ao nivel desses dois ultimos (nao vi o Fuga para Odessa).

Quero reve-lo pra escrever sobre.

Abços!

cinevita disse...

Cara, li uma crítica no Hollywoodiano que me deixou totalmente apaixonado. Pelo texto, ainda não pelo filme, que não vi. E seu texto me despertou um interessante... gigante!

Preciso ver logo.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Pois é, Hélio, vi Caminho sem Volta já faz um tempo, e me lembro de ter achado somente mediano. Mas talvez uma revisão mudasse minha opinião. Também não vi Fuga para Odessa.
Mas Os Donos da Noite é espetacular mesmo e acho que, assim como esse Amantes, merece entrar na lista dos melhores da década. Já o Amantes é, até agora, o filme do ano para mim.

Bruno disse...

Poxa, concordo com cada palavra que foi escrita, com exceção do "espetacular" para Os Donos da Noite (não que eu o considere ruim, mas pra mim está no mesmo patamar de Caminho Sem Volta, outro filme que considero apenas bom).

Fiquei impressionado com a atuação do Joaquin Phoenix, um monstro. Na cena em que ele fala de modo mais apaixonado com a personagem de Gwyneth Paltrow (a segunda do telhado) e suas conversas sobre o possível futuro deles... nossa, nesses momentos a atuação do Joquin Phoenix é simplesmente impagável.

Assim que eu arrumar um tempinho (o que esteve muito difícil de conseguir nas últimas semanas, pq o concurso que mais esperei esse ano ocorrerá domingo agora, dia 13), pretendo escrever sobre essa belíssima obra, talvez uma das melhores do ano. Abraço!

Diego Rodrigues disse...

Sim, Amantes é excelente. Um dos melhores que asssisti este ano. O trabalho de James Gray é magistral, a direção é segura, nunca exagerada,mas sempre na medida certa. E Joaquin Phoenix, o potencial do ator ao máximo neste filme.

Rafael Carvalho disse...

Vi recentemente e gostei muito. Aproveitei para dar uma revisada em Os Donos da Noite, filme com o qual eu não simpatizava muito, mas que cresceu na revisão, e conferi também Caminho sem Volta, outro ótimo filme que compartilha com Amantes uma tristeza incrível.

Amantes é melancólico e possui no filme todo esse tom de tristeza e indecisão do personagem. Joaquin Phoenix está exorbitante, o melhor ator do ano até então. E olha que a disputa esse ano tá pesada. Também devo escrever algo sobre o filme pro blog.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Rafael, só não acho que o Phoenix, apesar de espetacular, seja o melhor do ano. Ainda prefiro Rourke e Penn...

Cristiano Contreiras disse...

Filme intenso, atuações únicas: a plenitude do roteiro...eu gostei muito deste filme! Joaquin Phoenix passou da hora de ser laureado com seu oscar. E tenho dito.

abraço, ótimo blog aqui!