Inimigos Públicos

Public Enemies, 2009
Michael Mann
Durante um certo tempo, antes de assistir a Inimigos Públicos, tenho a impressão de ter esquecido que seu diretor era Michael Mann. Isso porque cheguei a imaginar que veria um filme de época altamente estilizado, talvez uma tentativa de recriar os filmes de gângster do período em que a história se passa, com clima noir, personagens grandiloquentes e metralhadoras cuspindo fogo por todos os lados. Bem, ao menos acertei nesse último quesito.
Aprimorando cada vez mais seu domínio sobre o cinema digital, Mann transporta para a década de 1930 sua estética crua e realista, utilizada em outros de seus filmes, como Colateral e Miami Vice - a diferença é que essas duas obras têm suas histórias ambientadas num período contemporâneo. Daí o choque de ver uma época normalmente romantizada, mesmo em sua violência, ser retratada com tamanha brutalidade - e se um pouco desse romantismo ainda podia ser visto nos trailers de Inimigos Públicos, no filme em si ele se dissipa completamente. Mann cria, novamente, um épico-policial grandioso, magnífico e irresistível que, se por um lado, encanta visualmente, pela beleza do domínio de seu diretor sobre a câmera e sua capacidade de criar imagens plasticamente arrebatadoras (sem, para isso, buscar um fake estilizante), por outro impressiona pela crueza e brutalidade com que a rotina daqueles homens, policiais e bandidos, é mostrada. As inúmeras sequências de tiroteio, perseguição e assaltos a banco, ao mesmo tempo que são filmadas com uma meticulosidade impressionante, transformando-se quase em um balé, são dotadas de urgência e realismo sufocantes, verdadeiramente ameaçadores - daí a sensação de temor quanto a John Dillinger e seus comparsas, pois por mais que possam ser vistos com bons olhos pela narrativa (especialmente o protagonista, encarnado por um Johnny Depp no ponto exato), a violência com que agem para eliminar seus inimigos quando consideram necessário é proporcionalmente assustadora àquela utilizada pelos policiais que os perseguem (e isso é fundamental para compreender o filme como o olhar de Mann sobre uma época e seus personagens, mais do que uma simples busca por contar uma história envolvente, com homens bons e maus bem delineados).
Comparando mal e porcamente, Inimigos Públicos seria uma espécie de Fogo contra Fogo ambientando nos anos 30, em sua grandiosidade, força narrativa e mesmo temática. E cito aqui o filme de Mann com De Niro e Pacino por este ser talvez a maior referência de sua cinematografia, uma obra que acabou se tornando um clássico contemporâneo. Pois bem, dizem que os clássicos (e mesmo os contemporâneos) devem ser deixado em paz, mas peço desculpas para dizer que, talvez, Fogo contra Fogo é que possa, a partir de agora, ser chamado de um Inimigos Públicos passado nos dias de hoje.