sábado, 6 de janeiro de 2018

The Square - A Arte da Discórdia



“Nunca houve um vencedor da Palma de Ouro assim”, diz o trecho de uma crítica do USA Today que estampa o cartaz de The Square – A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund. O efeito buscado com essa chamada é, claro, remeter à ousadia supostamente presente no filme, laureado com o prêmio principal no último Festival de Cannes. No entanto, The Square é o oposto disso. Trata-se de um típico cinema médio europeu, que costuma preencher as seleções oficiais dos festivais do continente e causar nas salas mais arthouse, com seu verniz de sofisticação utilizado para criticar aspectos mesquinhos da tal natureza humana.

Tudo em The Square é bastante óbvio. A começar pela abordagem irônica da arte contemporânea, construída com comentários/situações esperados por qualquer um que já leu algum livro introdutório sobre o tema: a brincadeira com o faxineiro do museu que recolhe uma obra de arte acreditando se tratar de lixo; o questionamento sobre a transformação de um objeto cotidiano em arte a partir de seu mero deslocamento para o espaço do museu; a extrapolação dos limites do bom gosto em uma performance etc. Mas a coisa piora quando Östlund se dedica ao que realmente lhe interessa: apontar a hipocrisia de seu protagonista (Claes Bang), um bem-sucedido curador que se revela arrogante e insensível às privações daqueles que o cercam, ainda que portador de um discurso superficialmente humanista.

Aqui, o diretor acredita estar fazendo uma crítica social foda ao colocar seu personagem negando ajuda a mendigos ou se indignando além do ponto ao ser furtado. Nesse último caso, aliás, Östlund até consegue criar uma situação interessante a partir das consequências de uma ação extrema do sujeito, mas a possibilidade de aprofundamento nela acaba atropelada pelo excesso de frentes narrativas do filme. Sai de cena a sutileza potente de Força Maior (2014) e entra uma necessidade tola de se autoatribuir algum tipo de consciência social baseada num irritante senso comum arthouse, que ataca as elites intelectuais ao mesmo tempo que as bajula com um estranhamento controlado, mantido estritamente dentro de seus padrões de bom gosto, evitando, assim, agredi-las frontalmente.

Os melhores momentos de The Square são aqueles que funcionam quase como esquetes, com relativa independência entre si e do todo narrativo: o happening do homem-macaco e a conturbada entrevista de um celebrado artista plástico (Dominic West), por exemplo. Östlund entende de pequenos momentos performáticos, algo já explicitado em seu impagável vídeo de reação à não indicação de Força Maior ao Oscar.   

Sobre Cannes, por fim, The Square é mais uma Palma confortável, preguiçosa, disfarçada de corajosa, de atual – como o foram as duas anteriores, Dheepan (2015) e Eu, Daniel Blake (2016). A rigor, e por mais que A Árvore da Vida (2011), Azul é a Cor Mais Quente (2013) e Sono de Inverno (2014) sejam grandes filmes, o último rompante de real ousadia do festival foi ao premiar, sob a batuta de Tim Burton, Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), de Apichatpong Weerasethakul.


The Square - A Arte da Discórdia 
The Square, 2017
Ruben Östlund

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