segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Beleza Oculta



Um homem inspirador, íntegro e dedicado à família e ao trabalho sofre uma tragédia pessoal, mergulhando em luto e dor, até que, no Natal, seus melhores amigos buscam uma solução para trazê-lo de volta à vida, solução essa que pode contar com alguns toques sobrenaturais. Com essa sinopse, Beleza Oculta parece mirar diretamente no cinema de Frank Capra, sobretudo naquele que talvez seja seu maior clássico, A Felicidade Não Se Compra. No entanto, o resultado alcançado aqui por David Frankel, diretor de filmes até bons, como O Diabo Veste Prada e Marley & Eu, passa longe de Capra, atingindo diretamente a autoajuda mais rasteira à lá Augusto Cury.  

É impressionante como Frankel e o roteirista Allan Loeb fazem todas as escolhas erradas. O texto de Beleza Oculta é pedestre, telegrafando para o espectador cada passo que será dado adiante na narrativa. Obviedade atrás de obviedade, clichê atrás de clichê, Loeb desperdiça todas as oportunidades de tornar um pouco profundos os personagens que criou e de seguir por caminhos que não sejam o da lição de moral cuspida na cara do espectador. Um exemplo: partindo da premissa até interessante dos três amigos do protagonista (vividos por Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña) contratando três atores (Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore) para interpretarem a Morte, o Tempo e o Amor e convencê-lo a superar a perda da filha, Loeb tem que necessariamente ligar esses elementos, ou abstrações (como tratadas no filme), aos dramas pessoais dos personagens de Norton, Winslet e Peña, para não deixar de passar mais algumas mensagens rasas sobre como viver a vida. Vêm daí alguns momentos constrangedores, com discursos inacreditavelmente tolos saindo da boca de atores desse calibre. E há ainda a cereja (estragada) no bolo (vencido) que é esse roteiro atroz: uma reviravolta no epílogo que é um tanto... digamos... pegando leve... ridícula.

Frankel, por sua vez, consegue jogar no lixo um elenco impressionante. Além dos citados, há Will Smith, que, apesar do péssimo momento na carreira – o sujeito vem de uma sequência inglória, com Um Homem Entre Gigantes e Esquadrão Suicida ainda frescos na memória –, parece um casting adequado para esse tipo de personagem nesse tipo de filme. Afinal, Smith protagonizou belamente À Procura da Felicidade, essa sim uma obra contemporânea verdadeira capriana – se bem que, pouco depois, ele e o mesmo Gabriele Muccino de À Procura da Felicidade fizeram o abacaxi Sete Vidas, de intenso flerte com a autoajuda que em Beleza Colateral é totalmente escancarada. Mas nem do astro em franca decadência e olhos sempre marejados sai algo de interessante aqui. Além disso, Frankel faz escolhas visuais feíssimas, apostando quase sempre em closes e em profundidade de campo extremamente reduzida. É forte a sensação de se estar diante de uma novela ruim.        

Numa cena de Beleza Oculta, os personagens de Smith e Mirren discutem duramente no metrô de Nova York, com o primeiro reclamando dos lugares-comuns ditos a ele sobre a morte e a necessidade de superação do luto, que, por mais belos e bem intencionados que pudessem ser, não tocavam no cerne da dor experimentada por quem perde um ente querido. De estranha e acidental metalinguagem, essa cena acaba resumindo o horroroso filme de Frankel, em sua absoluta incapacidade de extrapolar o clichê motivacional ao abordar tema tão humano. No ano de Manchester à Beira-Mar, a maneira como Beleza Oculta aborda o luto chega a ser ofensiva.


Beleza Oculta 

Collateral Beauty, 2016
David Frankel

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