segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam


 

Minha relação inicial com a franquia Harry Potter, mais especificamente com seus dois primeiros filmes, Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) e Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), foi de implicância e enfado. Implicância por estabelecer, naqueles princípios de século XXI, uma rivalidade meio adolescente entre as aventuras do bruxinho inglês e a trilogia O Senhor dos Anéis (2001-2003), rivalidade que era alimentada dentro de casa: enquanto me encantava com a Terra-Média e comemorava as muitas indicações ao Oscar da admirável adaptação comandada por Peter Jackson, minha irmã mais nova mergulhava em Hogwarts e defendia com afinco sua preferência por Harry Potter. E enfado porque, de fato, os dois filmes em questão, dirigidos por Chris Columbus, são um tanto chatos.

Isso mudou meio bruscamente quando Alfonso Cuarón inseriu sombras, profundidade e um ritmo vertiginoso naquele universo com o excelente Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Passei a admirar as adaptações cinematográficas dos livros de J. K. Rowling, a vê-las na tela grande (não me dei a esse trabalho com Pedra Filosofal e Câmara Secreta) e a tomar como acertada a definição de uma identidade visual para a franquia a partir da chegada de David Yates, diretor de seus últimos quatro filmes (lançados entre 2007 e 2011) – ainda que lamentando um pouco a excessiva frieza de Yates, incapaz de alcançar a vitalidade de Cuarón ou mesmo de Mike Newell, diretor de Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005).

Animais Fantásticos e Onde Habitam, retomada talvez um pouco inesperada dessa série que parecia sepultada no cinema, é uma estranha mistura dos filmes de Columbus, em seu senso de aventura juvenil e descoberta de um mundo mágico cheio de possibilidades, com a seriedade e a referida frieza características de Yates. É quase como se houvesse dois filmes em um. No primeiro, moram os personagens adoráveis de Dan Fogler e Alison Sudol, que são o coração de Animais Fantásticos e Onde Habitam; moram também os tais animais fantásticos e o protagonista, Newt Scamander (Eddie Redmayne, já volto a ele). No segundo, bem mais sisudo, estão algumas subtramas não muito bem exploradas, envolvendo um grupo de fanáticos que pregam contra os bruxos, o herdeiro de um império das comunicações com pretensões políticas (seu pai é vivido por ninguém menos que Jon Voight, meio sem ter o que fazer em cena) e uma grande ameaça que paira sobre todos, espécie de Voldemort reloaded.

O problema é que esse “segundo filme” vai, com o tempo, se sobrepondo ao primeiro, revelando a vontade de Yates (e da agora roteirista Rowling) de fazer algo importante, grandioso, que discute temas sérios como preconceito e intolerância. Isso numa história que parecia pedir mais leveza e menos auto-importância. E o que resta do “primeiro filme” nesse avançar de Animais Fantásticos e Onde Habitam é, basicamente, o personagem de Redmayne. Que até é uma figura interessante, mas... é interpretado por Redmayne. Com todos aqueles trejeitos inexplicáveis, mistura de sua versão de Stephen Hawking e d’A Garota Dinamarquesa com Dustin Hoffman em Rain Man. O resultado não fica muito distante do risível – e o ápice do ridículo do protagonista em cena é quando ele tem que simular um ritual de acasalamento com algo semelhante a um imenso rinoceronte, que o ator leva a sério como se estivesse num momento shakespeariano digno de Oscar (será que ele espera a terceira indicação seguida?).

Ao final, Yates e Rowling parecem se dar conta do erro de enfoque e tom de seu filme e encerram
Animais Fantásticos e Onde Habitam com uma bela cena da dupla Fogler/Sudol. Mas aí era tarde, ao menos para mim. Diretor e roteirista/criadora já haviam me feito lembrar, quatorze anos depois, o quanto o universo de Harry Potter pode ser enfadonho. 


Animais Fantásticos e Onde Habitam
Fantastic Beasts and Where to Find Them, 2016
David Yates

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