segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Biutiful



Apesar de Alejandro González Iñárritu continuar mantendo uma relação de certo sadismo com seus personagens, o fim de sua parceria com Guilllermo Arriaga lhe fez muito bem. Biutiful, primeiro trabalho de Iñárritu pós-divórcio com seu roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, é um filme que, para começar, já tem um mérito gigantesco: não ser estruturado sobre histórias paralelas que, em algum momento, se cruzam. É muito bom ver o diretor concentrando suas energias em contar a história de apenas um protagonista, despejando em sua trajetória toda a visceralidade de seu cinema.

É verdade que grande parte do êxito de Biutiful se deve à presença assombrosa de Javier Bardem em cena - seu personagem, dotado de um misto de brutalidade e fragilidade, agressividade e ternura, é o retrato de um homem destroçado pela vida, e o ator compõe essa figura de forma econômica, evitando qualquer traço de exagero que pudesse descambar para o melodrama (Bardem é, aliás, nesse sentido bem mais cuidadoso nos caminhos dramáticos que trilha do que o próprio Iñárritu), tirando desse cuidado com o mínimo a força gigantesca de seu desempenho. Mas há de se dar os devidos créditos ao diretor, que consegue controlar seus impulsos megalomaníacos, sua vontade de mostrar o quanto pode ser "genial", para simplesmente contar uma bela e forte história - por mais que ele às vezes chegue perto de perder esse controle, como ao dar excessivo destaque à história dos comerciantes chineses (mais um pouquinho ali e teríamos duas grandes narrativas se cruzando, como nos velhos tempos...), ou ao retornar, desnecessariamente, a uma das cenas iniciais para encerrar o filme (subestimando a capacidade do espectador de entender, com o desenrolar da trama, quem era aquele jovem que surgira no início dialogando com o personagem de Bardem).

No final, porém, o saldo é mesmo positivo: Biutiful é um ótimo filme. Se Guillermo Arriaga não tivesse escrito também aquela obra-prima dirigida por Tommy Lee Jones chamada Três Enterros, talvez até fosse possível dizer que estava somente em Iñárritu o talento por trás dos trabalhos da dupla.


Biutiful 
Biutiful, 2010
Alejandro González Iñárritu

6 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Muito bom o filme, concordo! A atuação de Bardem é visceral, ainda que sem exageros ou fortes expressões, o ator é comedido, mas exterioriza tudo até com o olhar. Gosto deste filme, acho a direção bem cuidadosa. Me cativou, comoveu até. Em um mundo justo, Bardem até levaria o Oscar, visto que era o melhor dos indicados no ano.

Abração!

Mayara Bastos disse...

Estou com uma certa dívida com esse filme, rsrsrs. Preciso assistí-lo com certa urgência. ;)

Kamila disse...

Eu gosto muito desse filme. Achei bonito, apesar do seu tema melancólico. E ele encontra MUITA força na atuação do Javier Bardem!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Pois é, Cristiano, Bardem era mesmo o melhor dos indicados - falo isso mesmo adorando as atuações de Jesse Eisenberg (A REDE SOCIAL), Jeff Bridges (BRAVURA INDÔMITA), James Franco (127 HORAS) e mesmo do vencedor COLIN FIRTH (O Discurso do Rei). Seu desempenho em BIUTIFUL é maravilhoso, talvez chegue ao nível do que o ator fez em filmes como MAR ADENTRO e ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Sombrio, pessimista e excelente. Grande atuação de Bardem.

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Mais uma discordância entre nós, meu caro. Acho o filme um porre, principalmente porque existe muito excesso em personagens e histórias secundárias que não servem para (quase) nada no filme (a relação homessexual entre os chineses, a mediunidade do protagonista, a relação de sua ex-mulher com o irmão, o "acerto de contas" com o pai, a exploração dos imigrantes). Ou, na tentativa de traçar multiplas facetas do protagonista, o filme não consegue me organizar ideias que possam ser aproveitas para eu pensar na complexidade dele (a complexidade que ele deveria ter, mas tem dificuldade de traduzir). Enfim, acho um samba do crioulo doido, não consegui me envolver. Mesmo assim, vejo a atuação do Bardem como algo sensacional, expressa imensamente bem toda a potência da decadência daquele personagem.