quarta-feira, 9 de março de 2011


[bruna surfistinha]

Bruna Surfistinha
Bruna Surfistinha, 2011
Marcus Baldini


Antes de qualquer coisa, há de se reconhecer que Bruna Surfistinha tem um grande mérito: trazer de volta ao "cinemão" brasileiro o sexo, outrora tão comum em nossos filmes, mas cada vez mais esquecido em tempos de obras exageradamente comportadas. Para quem, como eu, se irrita ao ouvir pataquadas do tipo "o cinema brasileiro agora está melhorando, porque antes só tinha putaria", o filme do estreante Marcus Baldini é um deleite. Por mais que não chegue a extremos, Bruna Surfistinha é razoavelmente despudorado, especialmente em comparação com a maioria dos filmes nacionais desse porte.
No entanto, também é difícil não reconhecer a pontinha de frustração deixada pela cinebiografia da garota de programa mais famosa do Brasil. Penso, ao contrário daqueles que esbravejaram contra o financiamento público ao filme de Baldini, que a história de Bruna Surfistinha tinha potencial para gerar um filme verdadeiramente grande. Durante a primeira metade do longa, essa promessa parece prestes a se realizar: é um drama maduro, com olhar delicado e cuidadoso para sua protagonista (por sinal, muito bem defendida por Deborah Secco), que trabalha num registro minimalista, sem grandes rompantes de melodrama - todas as cenas passadas na casa onde Bruna se prostitui são irretocáveis. Até os momentos iniciais da ascensão da personagem ao estrelato, Bruna Surfistinha parece um O Céu de Suely feito para o grande público. Entretanto, o roteiro do trio José de Carvalho, Homero Olivetto e Antônia Pellegrino se entrega, em sua meia hora final, à necessidade boba de compor um arco dramático que leve a protagonista ao "inferno" para depois, resgatada, deixar sua mensagem de superação gravada em quem assiste ao filme. Até onde sei, parece que a verdadeira Bruna passou mesmo por dificuldades num determinado momento de sua vida, provenientes principalmente de seu vício em cocaína (exatamente como o filme busca mostrar). O problema é que, na narrativa de Bruna Surfistinha, tudo isso ocorre de forma muito acelerada, brusca, o que soa gratuito, como mero artifício dramático para produzir algum conflito na trama. Nesse ponto, faltou cuidado aos roteiristas e a Baldini, e o filme, então, desce ladeira abaixo.
É bem verdade que a cena final entre a protagonista e o adorável personagem de Cássio Gabus Mendes é bonita, e que encerrar o filme com "Fake Plastic Trees" faz com que sejamos lançados para fora do cinema com a sensação de ter visto algo de imensa beleza (não há como resistir aos efeitos do Radiohead...). Mas, na realidade, a impressão de que uma ótima oportunidade de se produzir um filme memorável foi perdida é forte demais para ser simplesmente apagada. Talvez, no fim das contas, Baldini não fosse o melhor nome para a direção de Bruna Surfistinha. Karim Ainouz faria miséria com uma história dessas...

8 comentários:

Hugo Leonardo disse...

Também fiquei com essa impressão de que desperdiçou-se uma boa história, ainda que o resultado não seja dos piores ...

Kahlil Affonso disse...

poderia ser melhor, mas Deborah Secco salva o filme

http://filme-do-dia.blogspot.com/

cinefilapornatureza disse...

A forma como a história de Bruna foi conduzida pelo diretor foi muito realista e eu valorizo isso. O filme nunca chega a ser vulgar. E a Deborah Secco está excelente! Uma grande performance dela.

BillyCapra disse...

Valeu por deixar um comentário no blog. Estou meio perdido por ainda não ter visto o filme da Bruna, mas fico feliz e animado pra ver depois de suas três estrelas.

Cristiano Contreiras disse...

Muito curioso pra conferir, acho que o filme é mais interessante que o livro - bem mais! Ainda mais por conta da presença de Deborah Secco que, ao meu ver, é uma grande atriz.

abraço

Rafael Carvalho disse...

Havia memso essa história de que o cinema brasileiro era pornográfico; isso irrita. E realmente, Bruna Surfistinha traz o sexo dentro de uma história que é mais que isso, mas consegue acrescentá-lo sem pudores nem moralismos. E o filme consegue ser muito melhor do que se imaginava, até porque a história tem consistência (apesar de alguns tropeços). O fato do filme nunca julgar a protagonista é um dos pontos essenciais pra mim. Surpresa também é a atuação super esforçada da Deborah Secco que, pode não ser maravilhosa, mas deve ser a melhor coisa que ela fez até então.

Helenice disse...

gostei do filme, mas depois de ler seu comentário começo a pensar que poderia ser melhor..

Mateus Selle Denardin disse...

Acho que esses deslizes do roteiro são pequenos e devem manter o tom de verdade dos fatos, embora pareçam bruscos na trama. Ainda assim, acho um filme ousado (sim, a história permitia isso), bem dirigido (algumas escolhas visuais são ótimas; bela fotografia) e com Secco em atuação excelente, além de algumas coadjuvantes com grandes momentos.