sábado, 13 de março de 2010

Invictus



Clint Eastwood costuma flertar perigosamente com os mais costumeiros clichês do cinemão norte-americano. Afinal, a história de uma garota pobre que vê no boxe sua única possibilidade de sucesso, ou a de uma mãe amorosa em busca de seu filho desaparecido, ou a de um velho ranzinza e preconceituoso que acaba revendo seus conceitos ao ter de lidar com os mesmos imigrantes que ele tanto abomina não são exatamente exemplos de originalidade. Em Invictus, esse flerte parece ainda mais intenso. Afinal, é, ao mesmo tempo, um filme de esporte e um recorte biográfico-político na vida de um grande líder mundial, ou seja, representa dois "gêneros" que costumam abraçar sem nenhum embaraço mensagens edificantes constrangedoras e lugares-comuns irritantes.
O curioso é que, assim como em Menina de Ouro, A Troca e Gran Torino, Eastwood de fato abraça esses clichês, ou ao menos não os nega. Mas trabalha com eles sempre num tom abaixo do esperado. O diretor não os subverte, mas os transforma em algo palatável, verossímil. Nesse sentido, Invictus, um filme que pende naturalmente para a grandiosidade (afinal, estamos falando de Nelson Mandela e do evento mais importante de uma modalidade esportiva razoavelmente popular, a Copa do Mundo de rugby) – o que consequentemente levaria às lágrimas em abundância –, é um trabalho bastante intimista. Ok, não tanto quanto a trajetória de Maggie Fitzgerald, mas este é decididamente um filme sobre pequenas coisas. Pequenas coisas das quais nos acostumamos a esquecer e que, quando lembradas, acabam se tornando grandes. E é aqui, mais do que no uso de clichês, que Invictus mais se assemelha aos trabalhos anteriores de Eastwood. Ou seja, pode ser chamado de previsível, manipulativo, lacrimoso, meloso... mas, com todos seus defeitos (e eles existem), é absolutamente irresistível, emocionalmente falando. Irresistível porque verdadeiro. Talvez Clint Eastwood esteja se revelando um dos grandes humanistas de nosso tempo.

P.S.: como é bom ver Morgan Freeman num papel que ele nasceu para interpretar...


Invictus 
Invictus, 2009
Clint Eastwood

4 comentários:

Rafael Carvalho disse...

E até que gosto do cinema clássico feito pelo Eastwood, mas Invictus me parece meio engessado. Se por um lado não se mostra uma biografia convencional, se utiliza de artifícios um tanto batidos e já gastos. O melhor da atuação de Freeman é que ele consegue transformar seu personagem em um homem necessariamente bom, mas sem soar forçado. Grande ator.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Rafael,
o Freeman está perfeito, impecável. E eu sei que o filme usa de artifícios batidos, mas acho que quase todos os trabalhos mais recentes do Eastwood fazem isso. Alguns funcionam muito bem e viram obras-primas (MYSTIC RIVER, MENINA DE OURO, CARTAS DE IWO JIMA), e outros nem tanto. Mas mesmo assim se revelam grandes filmes, como A TROCA, GRAN TORINO, A CONQUISTA DA HONRA e esse INVICTUS.

Kahlil Affonso disse...

Não vi o filme, mas devido ás críticas negativas deicidi passar longe. Talvez eu o veja qdo sair em DVD, mas por enquanto prefiro dar mais atenção á outros.

http://cinemaemdvd.blogspot.com

CiNe ViTa disse...

Como é bom ver alguém reconhecer o valor de "Invictus", um filme bem incompreendido por muitos. Até reconheço suas falhas, mas não o resisti.