quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Bastardos Inglórios



Bastardos Inglórios é um filme sobre filmes. Em primeiro lugar, por ser uma óbvia homenagem aos inúmeros exemplares produzidos por Hollywood sobre a Segunda Guerra Mundial ao longo de tantos anos. Tarantino faz o seu "filme de missão" e consegue rivalizar com obras clássicas do gênero: Bastardos tem uma narrativa desenvolvida sem nenhuma pressa (dividida em capítulos, como de costume em sua filmografia) e dotada de uma tensão crescente que beira o brilhantismo. Por mais que seus personagens sejam "tarantinescos" - ou seja, dramaticamente submetidos às brincadeiras e referências feitas pelo diretor -, Tarantino consegue criar empatia destes com o público: é difícil não vibrar com os atos dos bastardos liderados por um impagável Brad Pitt (dono de uma das cenas mais engraçadas dos últimos tempos, quando seu Aldo Raine se vê obrigado a passar-se por um dublê italiano); não torcer pelo sucesso do plano de vingança de Shosanna (a linda e excelente Melánie Laurent); ou não adorar detestar o Coronel Hans Landa de Christoph Waltz (cuja interpretação não seria possível definir com qualquer outra palavra que não fosse genial). Há ainda as diversas citações feitas de grandes nomes da história do cinema - Pabst, Riefenstahl, Clouzot - que ajudam estabelecer a relação que Bastardos Inglórios estabelece com o outro centro de sua narrativa: a História.

Fica claro, desde o princípio (para ser mais exato, desde a primeira cena que surge na tela, idêntica ao início do clássico moderno Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood, como alguns já perceberam), que o diálogo estabelecido por Bastardos Inglórios é com o universo cinematográfico, e não com o conhecimento histórico acadêmico. E essa é uma premissa que vai, aos poucos, se radicalizando no filme. No fim, Tarantino questiona: pode o cinema modificar a História? Para ele, não parece haver dúvida que sim. E aí tanto num sentido literal, material mesmo (basta lembrar que o plano para executar o alto escalão do III Reich deve ser colocado em prática em um cinema, através da queima de uma grande quantidade de película - ou seja, são os filmes, concretamente falando, mudando o curso da História), quanto na constituição de Bastardos como uma espécie de anti-Operação Valquíria, uma ode à sujeição da História aos interesses narrativos da ficção. A jogada de mestre desenvolvida pelo diretor no epílogo de seu filme destrói expectativas, dá um nó no raciocínio tacanho de historiadores mais conservadores, que costumam julgar com tamanha pretensão os chamados "filmes históricos", e deixa um irresistível sorriso no rosto do espectador. Eu, historiador, aplaudi.


Bastardos Inglórios 
Inglourious Basterds, 2009
Quentin Tarantino


Atualizando: Bastardos Inglórios foi eleito ontem (11/02/2010) o melhor filme do ano, de acordo com a Liga dos Blogues Cinematográficos. Foi premiado em 8 categorias no Alfred 2009.


5 comentários:

CiNe ViTa disse...

"Eu, historiador, aplaudi." Adorei. E concordo totalmente com o comentário que deixou em meu blog. É mesmo, de certa forma, uma revolução. E uma mais importante que a de "Avatar", diga-se de passagem.

[*****]

Rafael Carvalho disse...

De fato, a grande maioria dos historiadores são muito ranzinzas nesse sentido e não possuem olhar cinematográfico, esse tipo de afastamento que às vezes é necessário. Tarantino, com certeza, não ta dando a mínima para eles; mais importante é dar continuidade ao cinema sem concessões dele. A gente que agradece.

Cristiano Contreiras disse...

Será que leva mesmo o Oscar? Um filme tão bem construído e contundente, merece.

Abraço e apareça, sumido!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Wally, acho que concordamos quanto a essa importância do filme. Em matéria de cinema, enquanto arte, é muito mais importante do que AVATAR, que é revolucionário tecnicamente, mas tem uma narrativa absolutamente banal...

Rafael, eu convivi, e ainda convivo, com as opiniões de historiadores sobre filmes "históricos", e sobre cinema em geral, e confesso que sofro bastante com isso.

Cristiano, acho que BASTARDOS vencer o Oscar de melhor filme não é impossível, mas, infelizmente, pouco provável. Estou sumido por estar sem internet em casa. Logo, dependente de lan houses e afins...

Diego Rodrigues disse...

Realmente um filme de mestre. Para quem ama cinema, feito especialmente por quem ama cinema. E o final foi a escolha lógica para Bastardos, uma hora a história tinha que tá a favor do cinema - e da maneira mais elegante possível.