quarta-feira, 10 de junho de 2009

[frost/nixon]

Frost/Nixon
Frost/Nixon, 2008
Ron Howard



É curioso como figuras políticas que são geralmente detestadas, em alguns casos até execradas, costumam gerar bons filmes. E filmes que se tornam bons justamente ao humanizar essas figuras, ao ir além do estereótipo político. Richard Nixon é um desses casos. Sua trajetória já havia resultado na grandiosa biografia comandada por Oliver Stone, que acabava se perdendo em meio a tanta coisa para contar e na dúvida se admirava ou criticava o ex-presidente norte-americano. E agora Nixon volta em Frost/Nixon, uma obra de qualidade bastante superior ao trabalho de Stone.
Superior, em boa medida, devido justamente à forma como o "Trick Dick" é retratado. Ou melhor, como e por quem ele é interpretado. Saem de cena os maneirismos e exageros de Anthony Hopkins e entra a composição minimalista e delicada de Frank Langella (não deixa de ser curioso o fato de que nenhum dos dois atores realmente se parecem com o retratado, até porque Nixon possuía um rosto bastante incomum). O geralmente subaproveitado Langella constrói um personagem fragilizado em seus momentos íntimos, mas dono de um estranho fascínio e de inexplicável força intimidatória (a cena em que o personagem de Sam Rockwell é apresentado ao ex-presidente deixa isso bem claro). Seu Richard Nixon é detestável por seu estilo manipulador e empolado, e por seus atos políticos, mas é também uma imagem comovente da decadência de alguém que ocupou, após vários fracassos, o posto de homem mais poderoso do mundo, mas que viu seu sonho de poder esfacelar-se por sua própria culpa. Apesar de possuir menos tempo em cena do que Michael Sheen, a presença de Langella é grandiosa, sufocante, irresistível. Dá até para esquecer que um dia outro ator (e não um ator qualquer, mas Anthony Hopkins) interpretou o mesmo personagem.
Aliás, já que citei Sheen, o competente ator britânico repete aqui o bom desempenho de A Rainha e compõe com perfeição, e com ótima química, a complexa relação de David Frost com Nixon. No entanto, Sheen acaba sendo meio que "boicotado" pelo filme: quando está sozinho em cena, ou dividindo-a com outros coadjuvantes, geralmente estes são momentos pouco inspirados de Frost/Nixon, conduzidos com uma certa preguiça por Ron Howard. Quando está ao lado de Langella, se sai muito bem, mas tem uma imensa dificuldade de não ser eclipsado por seu colega protagonista. Talvez apenas em dois momentos Michael Sheen consiga se destacar - o diálogo ao telefone com seu "oponente" e o duelo final entre eles em frente às câmeras -, entretanto, mesmo aqui ele serve muito mais como um trampolim para o show de interpretação de Langella, não conseguindo dominar a cena de forma absoluta. De qualquer forma, é inegável que sua presença é fundamental para o êxito do filme, já que este se ergue sobre o relacionamento entre aqueles dois homens.
Frost/Nixon só não consegue ser uma obra verdadeiramente grande, totalmente digna da história que conta, devido ao seu diretor, Ron Howard. Geralmente apenas mediano, aqui Howard até se sai razoavelmente bem em muitos momentos (as cenas dos debates entre os protagonistas são muito bem filmadas, absurdamente tensas), mas parece claro que o diretor tem em suas mãos uma história muito superior aos seus dotes artísticos. Se o roteirista Peter Morgan mostra-se preguiçoso na construção dos personagens secundários de sua história, Howard erra nas inserções desnecessárias destes conversando com a câmera, dando depoimentos como em um documentário. Enfim, talvez esse seja o tipo de material que, nas mãos de um George Clooney, renderia uma pequena obra-prima - espécie de filme-irmão de Boa Noite e Boa Sorte (que, curiosamente, também conta com a presença de Langella no elenco). Mas, mesmo assim, Frost/Nixon é bastante superior a boa parte da filmografia de Howard. Valeu o esforço.

5 comentários:

Diego Rodrigues disse...

Eu achei Frost/ Nixon o melhor dos indicados ao Oscar - e tenho quase certeza que só eu penso desse jeito. Nunca apreciei muito o trabalho de Ron Howard, mas nesta produção o cara se superou totalmente. Claro que parte disso vem de Langhella, excelente no papel.

Enfim, assisti O Exterminador e até postei um comentário no blog, já devo adiantar: só vale a pena se tu quer ver explosões no cinema.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Diego, quanto aos indicados, acho Milk o melhor, em segundo Slumgdog, depois Benjamin Button, e aí sim Frost/Nixon. O Leitor fica em último, obviamente.
Quanto ao T4, estou evitando ler coisas sobre ele, porque espero assistir nesse fim de semana ... mas, por ser o McG o diretor, imagino que seja ação descerebrada mesmo. Uma pena. Mas vamos ver ...

Rafael Carvalho disse...

A maior surpresa desse filme é de ser dirigido por Ron Howard, nunca imaginei que ele fosse fazer um filme tão bom. Foi meu melhor de todos os indicados ao Oscar. E o mais interessante é que, por mais que seja baseado numa peça de teatro, a adaptação para o cinema ficou bem dinâmica, e o texto é bem bom. Tá bom que isso não é lá todo mérito do Howard, mas a direção "limitada" não me parece comprometedora, não. Soma-se a isso um elenco na medida certa, fazendo o filme funcionar bem.

E tá certo que Frost/Nixon seja melhor que o longo do Stone, mas esse não é tão ruim assim. Mas tá, o Nixon do Hopkins é mais caricato mesmo.

Bruno disse...

Acho que gostei de "Frost/Nixon" mais que vc, Wallace. Gostei da atuação do Michael Sheen, que, acredito, pode ter sua interpretação um pouco menos "bem vista", porque tinha do outro lado um Frank Langella estupendo em cena. E gostei da forma como o Ron Howard conduziu o filme, acho que este mesmo material poderia desandar nas mãos de outros diretores, que poderiam mergulhar exageradamente em um personagem (no David Frost ou no Richard Nixon), ou poderiam tentar fazer desta trama um épico, etc. E eu até que me lembrei de "Boa Noite e Boa Sorte", sabia? Sei que são diferentes obras e conceitos, mas ao final da película acabei me lembrando um pouco do filme do Clooney. Abraço!

cinevita disse...

Gostei muito do filme, só achei que a direção poderia ter ousado e envolvido mais. De resto, muito, muito bom.

4 estrelas.

Ciao!