terça-feira, 23 de junho de 2009

[garotos de programa]

Garotos de Programa
My Own Private Idaho, 1991
Gus Van Sant


Como se poderia desconfiar, vindo de alguém como Gus Van Sant, Garotos de Programa é muito mais do que seu pouco criativo título brasileiro tenta mostrar. É sim sobre garotos de programa "ganhando a vida", mas é principalmente um filme sobre a busca por um lugar no mundo (como, aliás, boa parte dos filmes do diretor), um mundo que simplesmente parece não te querer, a não ser para, de forma hipócrita, usufruir de seus dotes sexuais. E é também um filme de amor. E dos mais belos.
E não deixa de ser curioso, e triste, que os protagonistas de duas das mais belas histórias de amor homossexual que o cinema já produziu, River Phoenix e Heath Ledger, tenham morrido absurdamente jovens, e deixando justamente nesses filmes talvez a maior prova de seus gigantescos talentos. Assim como Ledger em Brokeback Mountain, Phoenix rouba a cena aqui. Por mais que Keanu Reeves tenha o mesmo destaque na narrativa, é do ator de Conta Comigo que vem o desempenho mais delicado e comovente, uma interpretação carregada de sutileza, na construção de um personagem insuportavelmente triste, mesmo em seus momentos de alegria. O Mike Waters de Phoenix é trágico a sua própria maneira, e me pergunto se a doença que carrega (narcolepsia) não representaria, ainda que ele não se dê conta disso, momentos de alívio para a dura realidade de sua vida - afinal, quando dorme, Mike sonha com uma infância feliz, com a presença de uma mãe carinhosa, algo que de fato não ocorreu.
Gus Van Sant é um sujeito que, claramente, se sai melhor quando mergulha em seu lado indie do que quando abraça um cinema mais "clássico" (ainda que Gênio Indomável e Milk sejam dois filmes que adoro), e Garotos de Programa, que foi seu terceiro longa-metragem, deixa essa característica bem ressaltada. É um filme nada convencional, onde Van Sant aposta em uma narrativa elíptica, em que tempo e espaço são atravessados pelos personagens sem que o espectador perceba isto com clareza (a não ser pelas chamadas com os nomes das cidades que aparecem na tela), em cenas inusitadas (me parece um toque de genialidade a maneira como o diretor filma as sequências de sexo) e em personagens que fogem de qualquer padrão de normalidade. E é curioso como isso se torna fundamental não só para o realce da marginalidade daquelas figuras, mas também para a identificação delas com quem assiste ao filme (e talvez o estranhíssimo e adorável Bob, vivido por William Richert, seja o melhor exemplo disso). E fica a dúvida se Garotos de Programa não seria, em certa medida, um elogio à marginalidade. Triste, melancólico, amargo. Mas ainda assim, um elogio. Em se tratando do cinema de Gus Van Sant, é bem possível que sim.

3 comentários:

cinevita disse...

Adoro o cinema de Van Sant - do experimental ao comercial - e pretendo procurar este, que parece mesmo ser excelente.

Ciao!

Rafael Carvalho disse...

Cheguei a pegar uns filmes do Van Santa para ver, mas me faltaram os de início de carreira. Esse é um dos próximos dele que quero ver. Com essa nota, a expectativa só aumenta.

Vinícius P. disse...

Sempre tive muita curiosidade em ver "Garotos de Programa", afinal parece ser um dos melhores trabalhos do Gus Van Sant, mas nunca encontrei por aqui...