sábado, 14 de fevereiro de 2009

No cinema: Dúvida

[dúvida]

Dúvida
Doubt, 2008
John Patrick Shanley


O título da peça teatral em que Dúvida se inspira é Doubt: A Parable, ou seja, Dúvida: Uma Parábola. Faz todo sentido. Esse filme de John Patrick Shanley (também autor da referida peça) mantém muitas das características teatrais de sua origem, e possui um formato bem próximo de uma parábola, aliás, uma marcante parábola acerca da intolerância e da força de uma dúvida, inabalável mesmo diante da mais aparente certeza.
Como uma boa peça, Dúvida se alicerça fortemente em seu texto e em seus atores. O primeiro, também criação de Shanley, é poderoso, ainda que dono de pequenas falhas (a necessidade que o roteiro possui de deixar incertezas pairando no ar, por mais que seja coerente com a trama do filme, acaba atrapalhando o desenvolvimento dramático de determinados personagens). Traz uma série de passagens marcantes, com diálogos cortantes e cenas poderosas: as três sequências dos sermões do padre vivido por Philip Seymour Hoffman são excepcionais, especialmente a segunda, com a metáfora do travesseiro; as conversas entre Hoffman e Meryl Streep, quando a acusação de pedofilia envolvendo o primeiro é discutida, são carregadas de uma tensão que beira o insuportável, e onde muito da personalidade destes personagens é trazido à tona; e há, por fim, uma impressionante discussão entre Streep e Viola Davis, dura, triste e impactante, que só aumenta a força e a complexidade do filme e de seus personagens.
Já ficou clara aqui a dependência que Dúvida possui de seu telentoso elenco (basta observar que, num parágrafo onde se analisa o texto do filme, seus atores foram citados diversas vezes). E ele é absolutamente impecável. Fica difícil destacar alguém, mas as presenças de Philip Seymour Hoffman e Viola Davis talvez marquem mais, devido à força de seus personagens, ainda que Meryl Streep e Amy Adams também impressionem: se os dois primeiros são donos das cenas mais fortes do filme e das figuras mais complexas de Dúvida, Streep e Adams compõem suas personagens com perfeição, encarnando duas mulheres que são praticamente opostas, mas que acabam se completando.
Dúvida acaba pecando, por outro lado, pelas mesmas mãos responsáveis por alguns de seus acertos: excelente como roteirista, John Patrick Shanley acaba cometendo alguns exageros totalmente desnecessários como diretor (como as inexplicáveis tomadas em que a câmera se encontra inclinada, que dão um ar de filme televisivo, quase amador, para o longa), que acabam comprometendo o resultado final de seu trabalho. Talvez fosse acertada aqui a escolha de um outro diretor para o filme, mais experiente na função, capaz de transformar Dúvida na obra-prima que muitas vezes parece ser anunciada, mas que acaba não se concretizando.

5 comentários:

cinevita disse...

Eu li algumas cenas no roteiro do filme e os diálogos são simplesmente geniais! E, com um elenco destes em mãos, deve ser um filme digno da nota que recebeu. Pretendo assisti-lo em breve.

Ciao!

Weiner disse...

Deve saber que adoro "Dúvida", um filme forte e ousado, que ao meu ver não só é o melhor da temporada (sim, eu já vi "O Lutador") como também um dos grandes injustiçados na categoria de melhor filme do Oscar.
E, que gozado! Não achei nenhum amadorismo na direção de Shanley, pelo contrário. Acho que ele deu o tom exato à "Dúvida". Acho até que merecia ser indicado ao Oscar.
Wallace, um grande abraço!

Weiner disse...

Puxa, quanta coisa eu "acho", hein? Só agora percebi quanto usei esta expressão no comentário. ;)

Wallace Andrioli Guedes disse...

Weiner, não sei se ousado é o melhor termo para qualificar um filme como Dúvida, já que é bastante tradicional em sua estrutura, roteiro e atuações. Mas acho isso bom: justamente quando tenta ser um pouco mais ousado na direção é que Shanley se perde.

Rafael Carvalho disse...

Também acho que o Shanley não tinha tato para uma adaptação mais cinematográfica, embora o resultado seja muito bom do jeito que ficou. Viola Davis destrói na cena em que conversa com Meryl Streep. E o Seymour Hoffman no sermão da fofoca está excelente. Mas gosto muito também da forma como o filme começa e termina, como uma parábola mesmo, e me surpreendi com aquele desabafo da Streep. Muito bom!