quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Alguns filmes - Janeiro

[alguns filmes - janeiro]

Agente 86
Get Smart, 2008
Peter Segal


Um Mundo Perfeito
A Perfect World, 1993
Clint Eastwood


O Último Beijo
L'Ultimo Baccio, 2001
Gabriele Muccino


Na Mira do Chefe
In Bruges, 2008
Martin McDonagh


Fome Animal
Dead Alive, 1992
Peter Jackson


eXistenZ
eXistenZ, 1999
David Cronenberg


Gêmeos - Mórbida Semelhança
Dead Ringers, 1988
David Cronenberg


A Questão Humana
La Question Humaine, 2007
Nicolas Klotz


Aguirre, a Cólera dos Deuses
Aguirre, der Zorn Gottes, 1972
Werner Herzog


Persépolis
Persepolis, 2007
Marjane Satrapi & Vincent Paronnaud



Ainda que muitos gostem, não consigo ver nada demais nessa versão cinematográfica de Agente 86. Steve Carrell e Anne Hathaway estão muito bem sim, e suas gags até funcionam em alguns momentos (especialmente na primeira parte do longa), mas, em sua maioria, esse é um filme bobo, exageradamente despretensioso e sem um mínimo de acidez. Ou seja, é o protótipo perfeito da comédia norte-americana. No fim das contas, não há grandes diferenças entre Agente 86 e bombas como, por exemplo, a nova versão de A Pantera Cor-de-Rosa, com Steve Martin. São ambas comédias de "espionagem", com cenas de ação pouco inspiradas (especialmente em seu epílogo, irritante de tão exagerado e explosivo, quando Maxwell Smart é transformado em apenas mais um herói de filmes de ação) e com protagonistas atrapalhados mas supostamente competentes e feitos para conquistar a platéia. Carrell se sai melhor do que Martin, mas o filme não consegue repetir seu feito. Talvez funcione melhor com quem já acompanhou a série. Como esse não é meu caso, Agente 86 foi somente uma perda de tempo.
Um Mundo Perfeito é o típico filme de Clint Eastwood cheio de clichês, mas que possui uma humanidade exacerbada, e grande complexidade nas entrelinhas. Poderia ser mais uma obra-prima na carreira do ator/diretor, mas derrapa, principalmente, por ser dois filmes em um. Enquanto Eastwood está fora de cena, focando-se na fuga do personagem de Kevin Costner (muito bem) e em sua relação com o menino feito de refém (o bom T.J. Lowther), Um Mundo Perfeito é brilhante. Sensível, terno, mas ao mesmo tempo violento, e profundamente honesto. No entanto, há a perseguição empreendida pelo policial vivido pelo próprio Eastwood, e aqui os clichês se amontoam, e nada soa verdadeiro. Clint está mal em cena, interpretando mal o mesmo papel de sempre, e há um ainda uma apática Laura Dern e um agente do FBI mau caráter, que se torna um vilão meio despropositado. É um verdadeiro desperdício, em um filme que possui momentos tão maravilhosos, e que culminam com a excepcional sequência da estadia dos personagens de Costner e de Lowther na casa de uma família negra, onde Eastwood deixa explícito novamente seu imenso talento dramático.
O Último Beijo é um filme encantador por sua simplicidade, pela forma como trata seus personagens honestamente e por sua enorme capacidade em emocionar e divertir sem ser forçado. No entanto, o maior mérito do filme está no timing de Gabriele Muccino para capturar com perfeição as angustias e ansiedades de um grupo de jovens homens, vivendo no limiar entre a juventude e a vida adulta. É verdadeiramente impressionante como tudo em O Último Beijo, os conflitos, os amores, as traições e os sentimentos soam profundamente reais, mesmo que já explorados à exaustão em diversos longas. O que faz a diferença é a abordagem sincera, simples e despretensiosa de Muccino (algo que ele também alcançaria posteriormente no belo À Procura da Felicidade, derrapando logo depois, justamente por ser demasiadamente pretensioso, em Sete Vidas), que dá ao filme um tom divertido, mas, ao mesmo tempo, estranhamente melancólico: sabemos que aquelas dúvidas, desejos reprimidos e amores frustrados mostrados pelo diretor constituem uma parte importante de nossa existência, e poderiam, com o perdão do clichê, acontecer com qualquer um de nós (isso quando já não aconteceram). E O Último Beijo surpreende ainda por sua maturidade em seu final, pela forma como os personagens promovem escolhas coerentes com suas personalidades, sem grandes catarses ou reviravoltas. E ainda por contar com uma cena final irônica e brilhante. Um pequeno clássico.
Talvez não exista sensação melhor ligada ao cinema do que a de surpresa. É muito bom quando um filme do qual se espera muito atende a todas essas expectativas, mas melhor ainda é quando não se espera nada, ou muito pouco, de um filme e acaba-se deparando com uma obra-prima. E Na Mira do Chefe (péssimo título em português, vale dizer, que dá ao filme um tom exageradamente cômico, que ele não possui) promove essa indescritível sensação. Num primeiro momento, tem-se a impressão de estar diante de mais uma comédia de ação, no estilo Máquina Mortífera e afins, onde uma dupla (tudo bem que aqui estamos falando de dois criminosos, e não de policiais) que não se entende se vê obrigada a conviver. No entanto, por um lado, tem-se aqui em cena Brendan Gleeson e Colin Farrell em desempenhos inspirados. Ambos vão muito além do estereótipo inicial (o matador experiente conscencioso e paciente; o iniciante, jovem e arredio), criando duas figuras absolutamente encantadoras em sua complexidade. Talvez Farrell se destaque mais, por possuir mais tempo em cena e por compor um personagem que, ao mesmo tempo que carrega muitas de suas características pessoais (o que o torna mais verdadeiro), é completamente inusitado na carreira do ator; no entanto, Gleeson é o responsável por alguns dos melhores momentos do filme e, principalmente, pelo mais emocional e impactante deles, no topo de uma torre. E há ainda Ralph Fiennes, curto, grosso e genial. Por outro lado, há de se valorizar a figura do diretor e roteirista Martin McDonagh. A maneira como esse estreante em longa-metragens (mas já vencedor do Oscar, pelo curta Six Shooter) conduz sua trama, transformando-a, com imensa naturalidade, de uma aparente comédia de ação como outra qualquer em um drama extremamente melancólico e emocionante, é simplesmente brilhante. Tão brilhante quanto os momentos finais de Na Mira do Chefe, onde algumas coincidências tragicômicas encaminham o filme para um epílogo muito bem sacado, e, principalmente, para uma profunda e poderosa reflexão sobre a morte, e sobre o poder que a vontade de permanecermos vivos pode exercer sobre esta. Ou não.
É no mínimo estranho assistir a Fome Animal hoje em dia, tendo consciência dos filmes que Peter Jackson faria posteriormente. Tudo no filme é absolutamente e absurdamente mal feito, tosco e repugnante, mas, talvez justamente por isso, ótimo. Jackson, muito antes da fama (e de filmes sérios como Almas Gêmeas ou grandiosos como O Senhor dos Anéis e King Kong), filma com uma paixão transbordante a história do rapaz tímido e reprimido pela mãe que é obrigado a lidar com a invasão da sua cidade por um vírus que transforma os habitantes em zumbis. Na verdade, a história é um fiapo, uma mera desculpa para o diretor encher a tela com cenas nojentas e exageradas, todas filmadas toscamente. Não é possível, e nem pertinente, cobrar muito de um filme como Fome Animal, feito quase amadoramente. Mas é possível captar seu espírito genuinamente trash, que cativa e diverte. Assim como é possível vislumbrar, em alguns momentos, o gênio que se revelaria posteriormente (a sequência do padre lutando com os zumbis é particularmente inspirada).
eXistenZ e Gêmeos - Mórbida Semelhança são dois filmes de David Cronenberg diferentes em muitos aspectos, mas que compartilham entre si, e com outros trabalhos do diretor, um elemento em particular: a bizarrice. No entanto, em ambos os casos, assim como em muitos outros filmes de Cronenberg, tal elemento não soa, em nenhum momento, gratuito: o bizarro, em Cronenberg, é, de certa forma, natural. eXistenZ é um filme menor do diretor, sem grandes pretensões. Nele, a bizarrice aparece ligada às imagens criadas por Cronenberg (os jogos que parecem orgânicos, feitos de carne, é o melhor exemplo disso), para apresentar um mundo distópico onde os videogames tomaram o lugar da vida real. O diretor trabalha muito bem as constantes confusões entre realidade e jogo, insere algumas metáforas sexuais explícitas na narrativa e arranca boas atuações de sua dupla de protagonistas, Jude Law e Jennifer Jason Leigh, além de ter algumas sacadas visuais muito boas, como a arma feita de ossos (e os já citados consoles orgânicos). E o final, em aberto, é totalmente coerente com a proposta desse pequeno filme de David Cronenberg, que merece ser mais visto. Já Gêmeos - Mórbida Semelhança é um trabalho mais sério, com maior carga dramática, mas não menos estranho. Aqui, o bizarro está na história em si, de dois irmãos gêmeos ginecologistas que vivem quase simbioticamente, e Cronenberg a conduz com extrema elegância, tornando aqueles personagens duramente reais, tristes e sofridos, ao mesmo tempo que fascinantes. Obviamente, há aqui a imensa contribuição de Jeremy Irons, provavelmente no melhor desempenho de sua carreira. O ator compõe, com brilhantismo, dois homens de personalidades completamente diversas, sem, no entanto, descambar para estereótipos, e comove verdadeiramente com o drama dos dois, especialmente do mais "fraco" deles, Beverly. É ao mesmo tempo assustadora e fascinante a atuação de Irons, assim como o é a forma como os irmãos revelam a dependência mútua que possuem. Cronenberg, consciente da força da história contada, não promove grandes novidades narrativas, mantendo-se distante, mas com seu costumeiro talento para tornar o bizarro real. É um dos melhores filmes da carreira do diretor canadense.
Há um bom tempo não via um filme tão denso, pesado e complexo como esse A Questão Humana. A princípio, imaginava uma obra ao estilo do maravilhoso Conduta de Risco, com um funcionário de uma mega-corporação tomando "consciência" do que sua empresa representa e lutando contra o "sistema", ao mesmo tempo que um outro é designado para controlá-lo, e acaba se envolvendo também nessa luta. No entanto, o filme de Nicolas Klotz acaba tomando outro caminho, não menos interessante. A Questão Humana é, na verdade, uma poderosa investigação acerca da força que o passado e que as grandes estruturas provenientes deste e que compõem a realidade presente exercem sobre cada ser humano. No entanto, Klotz não é, em nenhum momento, esquemático, didático ou maniqueísta. O diretor gruda em seu protagonista, vivido pelo magistral Mathieu Amalric, e leva o espectador a descobrir aos poucos, de forma confuso e não-linear, a presença de uma herança histórica de imensa força na realidade do capitalismo atual, e na forma como organizamos nossas vidas nas sociedades contemporâneas, especialmente do Ocidente. E verdade seja dita: Klotz é duro em suas brilhantes conclusões, ao aproximar a racionalidade tecnocrata do capitalismo liberal com um dos maiores crimes que a humanidade já viu. Tais conclusões são absolutamente coerentes com a proposta do filme, e o diretor é duro como deve ser, afinal de contas ele não está batendo em um alvo fraco, que possa ser considerado uma vítima. Genial.
Werner Herzog sabe, como poucos, abordar o confronto entre homem e natureza, e Aguirre, a Cólera dos Deuses é mais um excelente exemplo disso. Assim como no posterior Fitzcarraldo, o cineasta alemão submerge numa história passada na América do Sul, nesse caso, a saga de Dom Lope de Aguirre, conquistador espanhol do século XVI que embrenhou-se pelas selvas do continente na busca da mítica cidade de El Dorado. E mais uma vez Herzog entrega uma abordagem fascinante, ainda que também se repita o incômodo em ver todos os personagens, supostamente espanhóis, falando alemão (e, ainda por cima, um alemão dublado, o que acaba diminuindo a força de algumas interpretações). Fascinante por fugir da obviedade, por optar pelo silêncio e pela força das imagens da natureza, e por criar um protagonista assustador e ao mesmo tempo apaixonante, interpretado por um espetacular Klaus Kinski. Não é um filme fácil de ser assistido, apesar de sua curta duração, principalmente por sua natureza essencialmente contemplativa, pouco intrusiva na história que está sendo contada. Mas é justamente desse seu silêncio quase absoluto que Aguirre, a Cólera dos Deuses extrai seu poder de impacto e se torna a experiência assustadora que é.
Esperava um pouco mais de Persépolis. É uma animação adulta, com temática e abordagem adultas, mas privada, em alguns momentos, de maturidade. Tem uma proposta interessante e alguns momentos verdadeiramente inspirados (toda a tensão política iraniana, as manifestações, a conversa entre Deus e Marx), além de contar com uma protagonista dona de uma história de vida extremamente rica. No entanto, tal história é contada de forma exageradamente episódica, há pouca emoção real nos acontecimentos da vida de Marjane Satrapi mostrados em Persépolis, eles simplesmente vão se acumulando diante de nossos olhos, sem gerar grande envolvimento ou comoção. Pouco nos preocupamos, verdadeiramente, com o destino da personagem, o que acaba sendo um pecado, e todo o sofrimento de sua jornada não consegue se tornar palpável. Ao menos, o filme acerta no tom melancólico que predomina em seus momentos finais, e que definem com competência a sensação de não possuir um lugar no mundo, além de ser, esteticamente, um primor.

4 comentários:

Bruno disse...

Desses, assisti somente "Agente 86", "Na Mira do Chefe" e "Persépolis". O primeiro me agradou um pouquinho, mas é daqueles filmes que não podemos fazer muitas exigências. O segundo é o meu preferido desses três, assisti tem uns dez dias e gostei bastante! "Persépolis" foi outro que me agradou muito também, uma das melhores animações do ano passado. E dos que eu não vi, tenho muita curiosidade quanto a esse "O Último Beijo", porque adorei o remake dele, "Um Beijo a Mais". Se for melhor do que a regravação, como os originais costumam a ser mesmo, certamente gostarei dele. Abraço!

Shaun Red disse...

opa, beleza?

primeiro quero dizer que curti bastante o teu blog. atualizado constantemente e com qualidade!

quanto ao post em si, bons filmes hein? principalmente AGUIRRE e IN BRUGES. Me recuso a chamar In Bruges de Na Mira Do Chefe. Perde o charme. hehehe

Wallace Andrioli Guedes disse...

Shaun, você tem toda razão. Também prefiro chamá-lo de In Bruges ...
Bruno, O Último Beijo é melhor que Um Beijo a Mais sim, a narrativa flui de forma muito melhor, e as emoções são mais verdadeiras. Mas também gosto da refilmagem que, infelizmente, vi antes do original.

Hélio disse...

Acho que gostei de Agente 86 um pouco mais que vc. Talvez pq nao esperava que o personagem de Carell nao fosse um pateta simplesmente. E amo o ator, claro.

Filmes como Fome Animal, Gemeos e Um Mundo Perfeito eu vi ha muito tempo pra comentar algo. Lembro que o filme de Jackson me divertiu horrores e a sequencia do padre realmente é uma dessas que fica na memoria.

In Bruges me surpreendeu tb, mas do lado negativo. Muito espertinho pro meu gosto. O Fiennes é a melhor coisa do filme, pra mim.

Persepolis tb nao me encantou e A Questão Humana eu preciso rever urgentemente.

Abços!