quinta-feira, 10 de abril de 2014

Isto é Cinema: Cão Branco, de Samuel Fuller



Cão Branco é um filme fortíssimo sobre racismo. Mas é também uma defesa apaixonada do cinema narrativo clássico, feita pelo grande Samuel Fuller. Enquanto critica o espetáculo vazio de Star Wars e o fetiche pelo documentário como porta voz da verdade do mundo, Fuller esbanja talento e domínio da linguagem cinematográfica. A sequência que mais chama atenção nesse sentido é aquela em que o cão assassino do título vaga pelas ruas de Los Angeles até encontrar uma nova vítima. Aqui, o diretor aposta todas suas fichas na capacidade do cinema de comunicar pela imagem – e o resultado é impressionante.

Primeiro vem o quase encontro entre o cão assassino e a criança negra. Fuller constrói a tensão exclusivamente pela movimentação dos atores em cena, tornando o tempo elemento fundamental: ele parece se expandir enquanto o menino se coloca num ponto que, dentro de alguns segundos, estará no campo de visão do animal. Mas o diretor quebra a expectativa do crime ao introduzir o elemento externo da mãe que, sem saber do risco iminente, retira o filho de cena, aliviando/frustrando o espectador, angustiado/ansioso diante da fatalidade aparentemente inevitável. Não há música e os sons diegéticos são muito discretos. Pura mise-en-scène.

Os sons diegéticos surgem com força logo em seguida, na construção do encontro entre o cão e sua próxima vítima: os passos elegantes de um homem negro opõem-se à respiração ofegante do animal. O duelo, anunciado pelos enquadramentos e montagem tirados do western, se transforma num massacre, com o sujeito sendo destroçado após buscar refúgio numa igreja. A música de Ennio Morricone também entra em cena, como um lamento, que se estende para a terceira parte da sequência. Nela, Fuller dá outra lição de direção ao extrair força dramática do que está fora do quadro. A câmera permanece no rosto do treinador de animais responsável por reeducar o cão assassino, que acaba de encontrar o cadáver na igreja. O impacto provocado pelo que só o personagem vê se estende a nós justamente por sermos privados do olhar. Coisa de quem sabe o que faz.

Qual melhor maneira de defender o cinema narrativo clássico senão realizando uma obra-prima como Cão Branco?



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