segunda-feira, 16 de maio de 2016

Estranhos Prazeres



Não faz muito tempo que, ao escrever sobre Batman e Batman – O Retorno, falei de minha brutal nostalgia, num momento em que me aproximo do 30º aniversário, com os anos 90, década em que cresci. Mas se os filmes de Tim Burton sobre o herói de Gotham City remetiam à lembrança de assisti-los na infância, entre 1989 e 1992, Estranhos Prazeres (1995), de Kathryn Bigelow, que vi pela primeira vez agora, é a própria década de 90. Isso porque o filme articula com imensa competência em sua narrativa uma série de elementos profundamente associados àqueles anos, como o espancamento de Rodney King (ocorrido em 1991) e o impacto causado por esse fato sobre a imagem pública da polícia de Los Angeles, a ascensão do gangsta rap, e, sobretudo, a apreensão com a virada do milênio.

Esse último aspecto pode soar ridículo hoje, para quem não viveu a virada de 1999 para 2000, com matérias recorrentes em TVs e jornais sobre as profecias apocalípticas de Nostradamus e o medo do “bug do milênio”, mas, em 1995, fazia muito sentido localizar dali a quatro anos uma trama de ficção-científica distópica como a de Estranhos Prazeres. E, como grande representante do gênero que é, o filme de Bigelow usa o futuro para falar do presente, de uma sociedade atravessada pelo racismo, institucionalizado pela brutalidade policial. Nesse sentido, ele se mostra muito potente politicamente, com sua narrativa se encaminhando para solucionar de forma bastante radical a tensão racial que permeava Los Angeles na década de 90. Infelizmente, no entanto, Bigelow e seus roteiristas (James Cameron e Jay Cocks) recuam no último momento, optando por apaziguar a explosão de ódio de oprimidos contra opressores, ao introduzir em cena um representante do lado honesto das instituições, cuja presença e ação pontual são suficientes para pôr fim a um conflito complexo e enraizado socialmente.

Ainda que os protagonistas de Estranhos Prazeres (Angela Bassett e Ralph Fiennes) realmente merecessem um final feliz, este poderia se concretizar de outra forma, dentro da perspectiva de revolução social com a qual o filme flerta desde seu início. É possível refletir, a partir daí, sobre os limites da crítica política no cinema de gênero, apontados, por exemplo, pelo teórico marxista Fredric Jameson. Será que, construído fora de esquemas narrativos genéricos, o roteiro de Estranhos Prazeres toparia soluções políticas mais radicais? Provavelmente sim. Por outro lado, se tivesse realizado um filme de ruptura estética, narrativa e política, será que Bigelow conseguiria se comunicar tão diretamente e de maneira tão eficiente com o público que viveu os anos 90? E se a escolha do final é mesmo de se lamentar, por soar incoerente com o que fora feito até ali (lembrando um pouco o que ocorre na conclusão da trilogia Matrix), é fato que ela não apaga totalmente a força política do filme, que tem cenas impactantes de denúncia do racismo, como a do assassinato do rapper Jeriko One e a do espancamento da personagem de Bassett – que, claro, remete ao caso de Rodney King.

E é preciso reconhecer que Estranhos Prazeres é muito rico nesse próprio diálogo que estabelece com o cinema genérico. Sua filiação a gêneros é, na verdade, dupla, uma vez que também carrega algumas características do noir, como a presença de uma figura feminina (Juliette Lewis) que desnorteia o protagonista, a moral duvidosa e a colocação social marginal deste último e a trama policial complexa, por vezes confusa, cujos pequenos detalhes dificilmente são captados num primeiro contato com o filme. Nessa intersecção à lá Blade Runner, Bigelow constrói uma representação acurada dos anseios políticos e existenciais de uma década, o que não é pouco. É difícil acreditar que qualquer cineasta de vanguarda conseguisse resultado parecido.

Estranhos Prazeres 
Strange Days, 1995
Kathryn Bigelow