sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sniper Americano



Uma das referências que Sniper Americano traz à mente é O Franco Atirador, grande vencedor do Oscar em 1979. Não pelo título tosco que o filme de Michael Cimino recebeu no Brasil (não há nenhum franco atirador em sua história, mas sim um caçador que vai à Guerra do Vietnã), mas pela opção por lidar com os efeitos da guerra sobre o americano médio, aquele que vive sob a tríade Pátria, Família e Deus. Aliás, já que tanto Cimino quanto Eastwood lançam um olhar compreensivo para esse tipo de personagem que a esquerda costuma abominar, ambos foram acusados de conservadorismo e até racismo.

O caso de Sniper Americano, na verdade, lembra bastante a recente polêmica com o brasileiro Tropa de Elite, de José Padilha, cujo protagonista que beira a psicopatia foi visto como herói por muitos espectadores, quando, na verdade, o diretor do filme pretendia criticar toda uma lógica sistêmica que alimenta a violência e a corrupção no Rio de Janeiro – lógica da qual a polícia faz parte, confundindo-se muitas vezes com os criminosos que deveria combater. Chris Kyle, personagem principal do filme de Eastwood interpretado com vigor por Bradley Cooper, também gerou, com seu discurso belicoso e racista, esse tipo de empatia em considerável parcela do público americano.

Aqueles que isentam Padilha de corroborar a visão de mundo de seu protagonista, o icônico Capitão Nascimento, usam como argumento o documentário Ônibus 174, filme anterior do diretor que dá voz às vítimas da violência policial. No entanto, não se permitem olhar para o cinema de Eastwood antes de rotular Sniper Americano de um monte de coisas. Por que a militância republicana do veterano cineasta (como se todo republicano fosse Sarah Palin) é mais importante, na análise de um filme, que os outros filmes que ele dirigiu e que abordam temas próximos a Sniper Americano? Por que de repente se esquece que Eastwood foi fundo nas estruturas violentas da sociedade americana em filmes como Sobre Meninos e Lobos e Os Imperdoáveis, falou da relação com a alteridade com sensibilidade em Gran Torino e lamentou os efeitos devastadores das guerras sobre os homens que delas participam no díptico A Conquista da Honra / Cartas de Iwo Jima?

A resposta passa, claro, pela preguiça. Na verdade, não seria sequer necessário sair do filme para encontrar pistas de que Eastwood não está simplesmente concordando com o olhar de Kyle para o mundo. As cenas da infância do protagonista, o encontro deste com seu irmão no Iraque, sua dificuldade em se adaptar à vida civil após retornar para casa e, claro, o desfecho de sua trajetória apontam para o velho interesse do diretor pelos efeitos da violência sobre o homem e por como tal violência está na base da sociedade americana. Mas, diante da complexidade de Sniper Americano, é mais fácil rotular, ficar batendo cabeça na superfície da obra ao invés de dedicar algum tempo a pensá-la. Diante da ausência de uma apresentação didática do repúdio à guerra, decide-se, magicamente, que Eastwood é favorável à intervenção americana no Iraque. A análise ideológica rasteira, típica de quem adora vomitar clichês sobre os Estados Unidos, se sobrepõe ao entendimento das nuances que compõem o filme, da linha que separa o olhar do personagem do olhar do realizador. Mas o que realmente dá um nó na cabeça desses críticos (ou não) apressados é que se Eastwood não concorda com Kyle, também não julga explicitamente os valores que orientam o sniper, já que considera os militares como atores históricos merecedores de atenção. Isso já é demais para quem só respeita filmes de guerra panfletários à esquerda. Para esses, há sempre um novo projeto de Oliver Stone ou Michael Moore no horizonte.


Sniper Americano 
American Sniper, 2014
Clint Eastwood

2 comentários:

Kahlil Appel disse...

Este e 'Selma' são os únicos dos 8 indicados para Melhor Filme que não vi. Acho que essa semana eu pego alguma sessão de 'Sniper Americano'.

http://filme-do-dia.blogspot.com.br/

Wallace Andrioli Guedes disse...

Também não vi "Selma". Quanto a "Sniper Americano", é, para mim, o melhor dentre os indicados. O filme mais complexo a marcar presença no Oscar dese ano. Não deixe de ver.